Pecuária
Da genética bovina a cavalos de elite: o mercado por trás da nova central equina do Brasil
Nova unidade em SP marca entrada da Seleon na reprodução de cavalos de elite, replicando modelo industrial que transformou mercado bovino
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
17/02/2026 - 08:00

Depois de se consolidar como uma das maiores centrais de coleta e processamento de sêmen bovino da América Latina, a Seleon Biotecnologia deu um passo estratégico rumo a um mercado ainda pouco explorado no Brasil: a reprodução equina em escala industrial.
Com investimento de cerca de R$ 10 milhões, a empresa inaugurou no último mês a Seleon Equinos. A unidade é dedicada exclusivamente à produção e industrialização de sêmen de garanhões — cavalos machos que não foram castrados — de alto valor genético. Contudo, a decisão não surgiu por acaso.
Ao Agro Estadão, Bruno Grubisich, criador e fundador da Seleon Biotecnologia, explica que a ideia partiu da observação do crescimento do mercado equestre no Brasil, que, atualmente, ocupa a quarta posição mundial em número de animais e movimentação econômica. “Existe um mercado grande, sofisticado e disposto a investir, mas com uma lacuna clara em tecnologia, escala e padronização. Foi exatamente esse tipo de descompasso que vimos no bovino anos atrás e que acabou criando a oportunidade para a Seleon nascer”, contou.
Com a expertise adquirida há mais de uma década de trabalho no mercado de genética bovina, sendo responsável pela manutenção dos reprodutores, coleta, industrialização e armazenamento de sêmen, sem venda direta ao produtor final, agora a Seleon quer impulsionar o mercado de genética equina no Brasil.
“A lógica sempre foi industrializar com eficiência, reduzir custos e aumentar a previsibilidade, sem perder o cuidado individual com o animal”, explica Grubisich. “Essa experiência é totalmente transferível para o equino, respeitadas as diferenças entre as espécies”, complementa o fundador da companhia, que opera hoje com cerca de 450 touros em coleta, alcançando uma produção anual próxima de 5 milhões de doses de sêmen bovino.
No novo segmento, no entanto, a lógica econômica muda. Diferentemente da reprodução bovina, na qual o volume é determinante, no caso do equino o número de doses produzidas por animal é significativamente menor, porém, o valor agregado é muito mais alto. “Uma única dose fertilizante pode exigir várias palhetas de sêmen, e o preço por unidade supera em múltiplos o praticado na pecuária”, garante Bruno.
Ele explica ainda que, como os garanhões são ativos sensíveis e, muitas vezes, multimilionários, isso exige instalações específicas, manejo cuidadoso, equipes altamente treinadas e protocolos rigorosos de segurança sanitária. “O cavalo não é um processo industrial simples. É um trabalho quase artesanal, animal por animal, mas que precisa acontecer dentro de uma estrutura altamente tecnológica”, resume o executivo. Para atender a essas instalações adequadas, a Seleon tem capacidade inicial para operar com cerca de 30 garanhões.

Clima e localização como vantagem competitiva
Outro ponto observado antes do investimento, foi a localização da nova central. Para isso, a cidade escolhida foi Itatinga, no interior de São Paulo. A região fica próxima a Avaré, um dos principais polos equestres do País.
A escolha do local não é casual. Com altitude próxima de mil metros e clima mais ameno e seco, a região oferece condições ideais para a reprodução animal ao longo de todo o ano. “No bovino, conseguimos produzir sêmen 12 meses por ano, enquanto outras regiões precisam interromper a coleta no pico do verão. Esse mesmo benefício vale para os cavalos. Menos estresse térmico significa maior fertilidade e melhor qualidade do sêmen”, afirma.
Além disso, as instalações foram projetadas para reduzir o estresse dos animais, com baias individuais e ventilação cruzada. Pensou-se ainda em áreas de exercício controlado, enfermaria, quarentenário e manejo comportamental específico para garanhões, conhecidos por temperamento mais sensível.
A aposta da Seleon vai além do mercado interno. A empresa pretende contribuir para que o Brasil se torne um hub internacional de reprodução equina, repetindo o caminho já percorrido pelo setor bovino. Hoje, o País já abriga touros taurinos de origem norte-americana e europeia que produzem sêmen localmente para abastecer o mercado interno e exportar.
“No bovino, ajudamos a mudar a lógica: em vez de importar sêmen, passamos a produzir aqui e exportar. O cavalo pode seguir o mesmo caminho”, diz Grubisich, destacando que esse movimento amplia o mercado, gera receita e posiciona o Brasil em um novo patamar dentro do cenário internacional.
Para atingir esse objetivo, a companhia quer replicar em seus laboratórios o padrão tecnológico já utilizado no bovino. Por isso, parte dos recursos investidos foi destinada a equipamentos de alto padrão, como sistemas de análise computadorizada de sêmen (CASA), microscopia avançada e protocolos personalizados de congelação que permitem avaliar com precisão a qualidade espermática e ajustar o processo às características de cada animal.
A rastreabilidade é outro ponto central. Cada etapa, da coleta ao armazenamento e expedição, é registrada digitalmente, garantindo controle de estoque, segurança sanitária e transparência para os clientes. O serviço inclui sêmen fresco, semi-conservado e congelado, além de atendimento a programas avançados de reprodução.
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