Pecuária
Tarifa zerada e sem cotas: acordo Mercosul-UE oferece fôlego ao couro do Brasil
Após queda nos volumes de exportação, setor vê no acordo comercial uma oportunidade para reconquistar o mercado europeu, apesar das exigência ambientais
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com | Atualizado às 12h31
25/02/2026 - 05:00

O Congresso Nacional deve avançar, nesta semana, nas discussões internas rumo à aprovação do acordo Mercosul-União Europeia no Brasil. O País sai um pouco atrás de outros vizinhos, como a Argentina, onde a Câmara dos Deputados já aprovou o texto, abrindo caminho para a análise dos senadores.
O tratado, assinado no início deste ano depois de mais de 26 anos de negociações, cria o maior bloco de livre comércio do mundo, unindo cerca de 718 milhões de consumidores e beneficiando diversos setores da economia, entre os quais está o agronegócio. No Brasil, conforme noticiado pelo Agro Estadão, os benefícios englobam diversos elos da cadeia.
Nesse contexto, encontra-se também a cadeia de couro brasileiro que, ao longo dos últimos anos, acompanhou uma desaceleração de seus embarques. De acordo com Rogério Cunha, gestor de inteligência comercial do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), a União Europeia responde atualmente por cerca de 20% das exportações brasileiras de couro, tanto em valor quanto em volume, considerando os dados consolidados de 2025.
Segundo o especialista, o principal ganho imediato estaria na eliminação da tarifa de importação aplicada ao couro brasileiro. Atualmente, o imposto cobrado dos compradores europeus varia entre 5,5% e 6,5%, conforme a classificação do produto, dependendo do acabamento do couro, mas sobretudo, do produto de maior valor agregado.
Com a desgravação tarifária imediata prevista no acordo, o produto brasileiro chegaria ao cliente europeu sem esse custo adicional, ampliando sua competitividade frente a fornecedores de outros países. “Então, os clientes europeus do couro brasileiro vão deixar de pagar esse imposto lá e nós vamos passar a ser mais competitivos”, destaca Cunha.
A mesma opinião é reforçada por Francisco Beduschi, líder da National Wildlife Federation (NWF) no Brasil. Para ele, a retirada da tarifa europeia, somada às exigências de rastreabilidade ligadas à lei antidesmatameto da União Europeia — que foi adiada duas vezes, com novo prazo para começar a valer no encerramento deste ano —, tende a estimular a consolidação de uma indústria de identificação individual mais robusta no País.
Ele lembra que o Brasil já avança na rastreabilidade individual dos bovinos e bubalinos, no entanto, o sistema ainda está baseado, majoritamente, na rastreabilidade dos lotes. “O Brasil já trabalha com rastreabilidade há bastante tempo. São mais de 30 anos de trabalho de rastreabilidade. […]O que a gente vai precisar fazer agora é transformar essa experiência da rastreabilidade por lote em uma rastreabilidade individual para poder atender todos os requisitos da União Europeia”, afirma.
Perspectiva futura com base nos resultados passados
O otimismo dos especialistas baseia-se nos histórico passado de embarques aos europeus. Segundo dados compilados pela CICB, em 2017, o Brasil chegou a exportar 12 milhões de couros que representam, 58 milhões de metros quadrados para a União Europeia.
Atualmente, porém, esse volume está próximo de 6 milhões, uma retração de 50% em termos físicos. “Nós projetamos a possibilidade de crescer com as nossas exportações para a Europa. Uma vez que nós já tivemos uma participação maior em termos de volume, acreditamos que o mercado está lá e existe a condição de buscarmos esse espaço novamente”, reforça Rogério.
Na percepção do especialista, isso significa que o couro nacional pode se tornar mais atraente para segmentos estratégicos da indústria europeia, como o automotivo e de artefatos de moda. Nesse cenário, a Itália, terceiro maior importador mundial de couro e principal porta de entrada do produto brasileiro na Europa, com concentração de cerca de 8% de participação do Brasil em suas compras externas, continuaria sendo uma peça-chave para o setor.
Espanha, Alemanha e Portugal também figuram entre os mercados relevantes. Com a tarifa zerada, a expectativa é de ganho gradual de share também nestes destinos.
Sem cotas e tarifas, mas desde que atenda os requisitos ambientais
Conforme destacado anteriormente, o líder da NWF no Brasil acredita que o desafio da rastreabilidade da cadeia do couro, uma vez que o produto é derivado da cadeia pecuária, não deve ser encarado apenas como um obstáculo, mas como oportunidade estratégica.
Além disso, para Beduschi, o fato de o couro não estar sujeito a cotas no acordo amplia o potencial de ganhos. “O acordo Mercosul-União Europeia e a lei antidesmatamento caminham juntos. Um abre mercado, o outro exige organização. Se o Brasil aproveitar essa combinação para estruturar melhor sua cadeia, o setor de couro pode sair mais forte do que entrou”, salienta.
Nesse cenário, ele acredita que o avanço do Brasil no mercado europeu dependerá diretamente da capacidade de adaptação da cadeia como um todo às conformidades ambientais.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Pecuária
1
Pesquisadores se mobilizam para evitar a extinção dos jumentos
2
Seara conclui transição para gestação coletiva de suínos e amplia produção em 40%
3
Guerra no Oriente Médio pode impactar até 40% das exportações de carne bovina
4
Da genética bovina a cavalos de elite: o mercado por trás da nova central equina do Brasil
5
Soro de leite pode virar refrigerante e gerar nova receita para laticínios de MG
6
Cargill investe em Mato Grosso e inaugura planta de nutrição animal
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Pecuária
Setor avícola reforça vigilância após foco de gripe aviária no RS
Doença foi identificada em aves silvestres no Sul gaúcho, mas ABPA descarta risco imediato à produção comercial
Pecuária
Exportadores retomam reservas de frango ao Oriente Médio, diz ABPA
Setor vê retomada gradual dos bookings, mas alerta para aumento de custos e atrasos devido à guerra na região
Pecuária
Guerra no Oriente Médio eleva incertezas para exportações brasileiras de gado vivo
Preocupação do mercado se concentra nos efeitos indiretos do conflito, como logística, custos mais altos e prazos de transporte
Pecuária
Preço do leite sobe após nove meses de queda consecutiva
A expectativa é de manutenção desse viés de alta em março, aponta Scot consultoria
Pecuária
Rio Grande do Sul confirma foco de gripe aviária em aves silvestres
Serviço Veterinário do Estado reforçou a vigilância e as ações de prevenção nas criações de subsistência da região
Pecuária
Guerra no Oriente Médio pode impactar até 40% das exportações de carne bovina
Sem linha marítima direta para a Ásia, a guerra no Oriente Médio também afeta as exportações de carne bovina ao continente
Pecuária
Crise no Oriente Médio afeta logística de exportação de frango do Brasil
ABPA monitora cenário e mantém embarques confirmados enquanto rotas como Suez e Ormuz seguem fechadas
Pecuária
Brasil investiga 2 suspeitas de influenza aviária em aves não comerciais
Investigações surgem após Argentina e Uruguai anunciarem novos casos da doença