Pecuária
Na 'Capital Mundial do Churrasco', um curso ensina que o assado vai muito além da carne
Antônio Costaguta lidera cursos mensais que ensinam a dominar o fogo e a entender de onde vem a carne que vai à grelha
Mônica Rossi | Porto Alegre | monica.rossi@estadao.com
21/03/2026 - 08:00

Porto Alegre se autoproclamou Capital Mundial do Churrasco e carrega o título com orgulho. Na Zona Sul da capital gaúcha, Antônio Costaguta escolheu a missão de fazer as técnicas de um bom assado. Há dez anos, ele ensina como dominar o fogo, escolher a carne certa e entender a cadeia que começa no campo e termina na grelha.
Nascido em Santana do Livramento, cidade gaúcha que divide uma praça com Rivera, no Uruguai, Costaguta cresceu em uma família onde o churrasco era ritual. Quando decidiu transformar essa herança em escola, descobriu que estava sozinho no mercado. Buscou cursos técnicos avançados de churrasco no Brasil e não encontrou nenhum.
Foi quando cruzou a fronteira para forma-se Mestre Parrillero na Escuela Argentina de Parrilleros e aprofundou a técnica no MasterClass Los Siete Fuegos, ao lado de Francis Mallmann, no Restaurante Garzón. Em 2015, fundou o El Topador com a proposta de tirar o assado dos galpões e apresentá-lo à cidade como espetáculo, memória e identidade. Dez anos depois, a plataforma reúne mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais, produz documentários, programas de TV, festivais e cursos mensais.
Do campo à brasa

Para Costaguta, o bom churrasco começa muito antes do fogo. Começa na escolha da carne e essa escolha passa, necessariamente, pelo entendimento de onde ela vem. A defesa do Bioma Pampa é parte central do discurso do assador. Ele aponta o Pampa como um território singular, que confere características únicas ao gado criado extensivamente na região. Costaguta lembra que o Pampa concentra mais de 40 tipos de gramíneas por metro quadrado e abriga uma diversidade de anfíbios, aves e felinos que poucas outras atividades, além da pecuária extensiva, conseguem preservar.
“A minha escolha é por colocar cada vez mais energia nisso para que a gente preserve esse bioma que representa 2% do território brasileiro, mas que ao mesmo tempo não é tão preservado como outros. Porque, para mim, dentro do Pampa, existem não só as melhores matérias-primas, como a figura do gaúcho em sua essência.”
E o consumidor, segundo Costaguta, tem valorizado cada vez mais a rastreabilidade e o conhecimento sobre como a carne é produzida. Mas o caminho ainda é longo. O que falta, na visão do assador, é que os pilares da cadeia produtiva – produtor, frigorífico e consumidor -falem a mesma língua e construam juntos uma narrativa de valor. O churrasco, nesse sentido, deixou de ser apenas um evento de fim de semana para se tornar uma ferramenta de comunicação entre o campo e a cidade.
Aprender a usar os sentidos

O curso que Costaguta ministra mensalmente no Rancho Tabacaray, na Zona Sul da capital gaúcha, se estrutura em três pilares: dominar a compra da matéria-prima, entender e controlar o fogo e a técnica correta para salgar cada corte. Mas quem entra esperando uma lista de receitas sai surpreso. O que o El Topador ensina, antes de tudo, é a “escutar a carne”.
“Cozinhar com fogo é diferente de todas as outras técnicas. A gente não tem um termômetro ali para regular 180 graus, 200 graus. A gente precisa ensinar as pessoas a usar cada vez mais os sentidos, porque é colocar a mão para baixo, é tocar na carne, é escutar a carne, é olhar a carne”, explica Costaguta.
Entre os alunos, há desde curiosos sem experiência na cozinha até profissionais como a personal chef porto-alegrense Aline Padilha Daviez. “Foi bem enriquecedora. Novas estratégias com relação ao tipo de carne, tipo de lenha, ingredientes que casam bem com bebidas, carnes e o ponto de cada carne também”, contou ela após participar de uma das turmas de 2025.
Tem quem chegue ao curso com dúvidas, incluindo algumas das mais polêmicas: parrilla é ou não coisa de gaúcho? Para Costaguta, a resposta é mais complexa do que um simples sim ou não. A parrilla é uma técnica, explica ele, uma grelha sobre o fogo, que existe nas fronteiras gaúchas tanto quanto em Buenos Aires e Montevidéu.
O espeto, por sua vez, ficou mais associado ao gaúcho por razões históricas ligadas ao tropeirismo. “Então o churrasco é o macro. E ele pode ter várias técnicas. Eu posso assar no fogo de chão, no espeto, na parrilla, num varal… Mas, como eu sempre digo, existem muitos gaúchos nesse estado. O gaúcho missioneiro, o gaúcho serrano, o gaúcho fronteiriço, e os acontecimentos históricos de cada região foram forjando uma identidade que hoje está assim. E eu não sei como é que vai estar daqui a 100 anos”, reflete.
Quem se inscreve no El Topador não sai com a promessa de virar masterchef. Sai com outra coisa. “O que eu prometo é um empurrão, com técnica, com conhecimento, com toda a bagagem dos últimos 15 anos me dedicando ao assado. Tudo isso eu garanto que pode fazer com que eles dominem o básico dos pilares que envolvem o churrasco e saiam daqui com uma outra visão acerca do churrasco”, afirma Costaguta. A identidade dentro do fogo, “essa cada assador constrói sozinho”, completa o especialista.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Pecuária
1
Guerra no Oriente Médio pode impactar até 40% das exportações de carne bovina
2
Soro de leite pode virar refrigerante e gerar nova receita para laticínios de MG
3
Cargill investe em Mato Grosso e inaugura planta de nutrição animal
4
Biosseguridade na suinocultura: como reduzir riscos sanitários
5
Tarifa zerada e sem cotas: acordo Mercosul-UE oferece fôlego ao couro do Brasil
6
Clonagem animal: como a vaca mais cara do mundo foi copiada
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Pecuária
União Europeia lidera a remuneração das exportações de carne bovina em MT
O bloco pagou, em média, US$ 6.082,14 por tonelada, o maior valor entre os mercados atendidos pelo Estado
Pecuária
Exportação de bovina e suína cresce até a 2ª semana de março; aves recuam
Secex registra alta de 2,11% na bovina e 6,02% na suína ; frango com recuo de 1,73% na média diária
Pecuária
EUA: trabalhadores de fábrica da JBS no Colorado entram em greve
Sindicato acusa empresa de práticas injustas; companhia afirma que opera dentro das leis trabalhistas
Pecuária
Carne bovina: frigoríficos avaliam reduzir abates nas próximas semanas
Análise ocorre em um cenário de consumo interno enfraquecido e aumento dos estoques da indústria
Pecuária
Exportações de ovos crescem 16% em fevereiro e receita sobe 25%
Chile lidera as compras, seguido de Emirados Árabes, Japão e México, segundo a ABPA
Pecuária
Setor avícola reforça vigilância após foco de gripe aviária no RS
Doença foi identificada em aves silvestres no Sul gaúcho, mas ABPA descarta risco imediato à produção comercial
Pecuária
Exportadores retomam reservas de frango ao Oriente Médio, diz ABPA
Setor vê retomada gradual dos bookings, mas alerta para aumento de custos e atrasos devido à guerra na região
Pecuária
Guerra no Oriente Médio eleva incertezas para exportações brasileiras de gado vivo
Preocupação do mercado se concentra nos efeitos indiretos do conflito, como logística, custos mais altos e prazos de transporte