Economia
UE redesenha sua estratégia agrícola até 2035; saiba os efeitos para o Brasil
Relatório da Comissão Europeia aponta crescimento agrícola mais lento, regras ambientais mais rígidas e impactos diretos para exportações brasileiras
Redação Agro Estadão
17/12/2025 - 14:19

A União Europeia (UE) projeta uma agricultura mais contida, ambientalmente regulada e menos direcionada à expansão de commodities na próxima década. É o que mostra o EU Agricultural Outlook 2025–2035, divulgado pela Comissão Europeia.
O documento traça um cenário de crescimento mais lento da produtividade, redução marginal da área agrícola e reconfiguração do papel do bloco no comércio internacional de alimentos. Esse movimento tem implicações diretas e indiretas para o Brasil, tanto como fornecedor estratégico quanto como concorrente em mercados globais.
Segundo o relatório, a produtividade agrícola da UE continuará crescendo até 2035, mas em ritmo inferior ao observado no período 2015–2025. O documento atribui essa desaceleração à combinação de eventos climáticos mais frequentes, custos elevados de insumos, sobretudo fertilizantes e energia, e à transição para sistemas produtivos mais sustentáveis, que impõem limites ao uso de fatores de produção.
Na prática, a UE reconhece que sua agricultura entra em uma fase de crescimento estruturalmente mais limitado, restringindo ganhos de escala e competitividade. Entretanto, o estudo reforça que o bloco manterá autossuficiência elevada em determinados itens, assegurando a segurança alimentar interna. “A UE deve manter sua autossuficiência em cereais, carnes e produtos lácteos, enquanto continuará sendo importadora líquida de oleaginosas e leguminosas, embora as importações devam diminuir até 2035”, traz o relatório.
Eixo central da relação UE–Brasil
Apesar de uma perspectiva de menor importação, o reconhecimento das limitações ambientais e climáticas que dificultam uma substituição plena das compras externas, favorece o Brasil. Nesse contexto, o País deve seguir como fornecedor estratégico de soja, farelo e óleos vegetais, insumos essenciais para a ração animal e para a indústria alimentar europeia.
A diferença em relação ao passado está nas condições de acesso ao mercado. A UE deixa claro que as importações estarão cada vez mais condicionadas a critérios ambientais, como rastreabilidade e conformidade climática. “As políticas ambientais e o Regulamento sobre Produtos Livres de Desmatamento devem influenciar os preços de importação e os padrões de origem dos produtos”, destaca o documento.
Para o agronegócio brasileiro, isso significa que a vantagem comparativa em volume precisará ser acompanhada de governança ambiental e transparência, sob risco de perda de competitividade.
Carne bovina e suína em baixa na UE
Outro fator relevante é a pecuária. Segundo o documento, o consumo de carne na UE deve recuar levemente, em média, 0,5 quilos por habitante (-1,3% entre 2025 e 2035), ao contrário de outras regiões do mundo, onde o consumo segue em alta.
“Essa queda geral deve vir acompanhada de uma mudança na cesta do consumidor, com a continuidade da substituição do consumo de carne bovina e suína por carne de frango”, aponta o levantamento, indicando que esse movimento tende a reduzir a presença europeia nos mercados internacionais dessas proteínas, abrindo espaço para exportadores como o Brasil.
No caso da carne bovina, o documento salienta que a demanda global por importações deve crescer 1,1 milhão de toneladas entre 2023-2025 e 2035, impulsionada pelo aumento do consumo na China, Vietnã, Oriente Médio e África Subsaariana. “Também se espera demanda contínua ou crescente por parte de parceiros comerciais da UE, como Reino Unido, Balcãs, Oriente Médio e Norte da África”, acrescenta.
Enquanto isso, na carne suína espera-se uma estabilidade na demanda mundial por importações, ficando em torno de 10,5 milhões de toneladas até 2035. “A recuperação da capacidade produtiva na China e no Vietnã tende a reduzir a demanda de importações desses mercados, apesar da continuidade de surtos de PSA. Em contrapartida, algumas regiões da África e da Ásia, como a Malásia, podem ampliar as compras externas”, aponta.
O estudo mostra que, entre 2025 e 2035, o Reino Unido deve se tornar o principal destino das exportações europeias de carne suína, substituindo a China. Além disso, a menor demanda chinesa pela carne de porco pode intensificar a concorrência com Estados Unidos, Canadá e Brasil em outros mercados asiáticos.
Consumo e produção de carne de frango em alta
Em contraste ao cenário previsto para carne bovina e suína, a produção e o consumo de carne de aves deve crescer na UE na próxima década, impulsionada pela percepção de menor impacto ambiental e maior eficiência produtiva. Isso sinaliza concorrência no cenário global para o Brasil, mas também oportunidade ao País que é líder global nesse segmento.
Conforme os dados, o consumo per capita de carne de frango na UE deve subir de 15,1 quilos por ano, na média de 2023-2025, para 16,5 quilos até 2035. Já a produção deve aumentar em cerca de 965 mil toneladas, o equivalente a uma expansão média de 0,7% ao ano.
Um fator de atenção à produção local é a Influenza Aviária de Alta Patogenicidade. Diferentemente de anos anteriores, a doença não deve mais se restringir a períodos sazonais e pode ocorrer ao longo de todo o ano. “O que pode desafiar o setor nos próximos anos”, destaca.
Com isso, para atender ao aumento do consumo interno, a UE deve ampliar as importações de carne de frango nos próximos anos. As compras externas estão projetadas para crescer a uma taxa média de 1,1% ao ano até 2035, alcançando cerca de 955 mil toneladas. O Brasil é apontado como um dos principais fornecedores ao bloco nos próximos anos, assim como ocorreu em 2025.
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