Economia
Falta de infraestrutura nas estradas rurais eleva custos e emissões no agro
Pesquisa revela que vias vicinais acumulam abandono, aumentam liberações de carbono e exigem investimentos urgentes
Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor.savenhago@estadao.com
02/01/2026 - 05:00

Escondidas entre morros, plantações e comunidades afastadas dos grandes centros, as estradas rurais revelam uma fragilidade que não acompanha o fluxo de quem depende delas. De acordo com um novo estudo, que desenvolveu o Índice de Priorização das Estradas Vicinais (Ipev), as condições precárias dessas vias aumentam os custos de transporte para o escoamento da produção agropecuária brasileira em R$ 16,2 bilhões por ano e escancaram a urgência de investimentos coordenados.
Apesar de sustentarem, silenciosamente, o funcionamento do agronegócio, as estradas rurais não estão entre os assuntos mais discutidos nas rodas de conversas entre os tomadores de decisão. São trechos geralmente municipais, em grande parte não pavimentados, que interligam fazendas, comunidades rurais, povoados e distritos às rodovias principais.

Essas constatações estão em um estudo conduzido pelo Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP (Esalq), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O levantamento expõe a dimensão do problema ao analisar as estradas vicinais de todas as regiões brasileiras e apontar onde os investimentos são mais urgentes para evitar perdas econômicas, sociais e ambientais.
Ipev identifica regiões com investimentos mais urgentes
Para apoiar gestores públicos e orientar decisões de investimento, a pesquisa desenvolveu o Índice de Priorização das Estradas Vicinais (Ipev), ferramenta que combina dados econômicos, sociais, ambientais e produtivos, identificando as regiões onde intervenções gerariam maior impacto positivo. Esse índice permite, pela primeira vez, comparar realidades distintas sob aspectos técnicos e transparentes, facilitando o direcionamento de recursos escassos.
A partir desse diagnóstico, oito microrregiões consideradas representativas foram visitadas pela equipe. Pesquisadores percorreram mais de 1.200 quilômetros de estradas, entrevistaram 150 produtores, técnicos e gestores municipais, e analisaram de perto os gargalos. As regiões selecionadas abrangem Estados como Bahia, Maranhão, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Paraná — áreas com forte presença do agronegócio e que enfrentam desafios estruturais semelhantes.
A realidade observada em campo confirma que as dificuldades não se limitam ao estado físico das vias. Há obstáculos institucionais que se repetem nos municípios: orçamentos insuficientes, dependência quase total de repasses federais e estaduais, frota reduzida e obsoleta de máquinas, ausência de planejamento técnico, escassez de mão de obra qualificada e falta de integração entre secretarias. Sem contar que as condições do solo e do regime de chuvas variam muito pelo País, gerando grande disparidade na capacidade de manutenção entre as regiões.
A assessora técnica da CNA, Elisangela Lopes, destaca que a pesquisa inaugura um novo estágio no debate sobre infraestrutura rural. Ela explica que, ao mapear o problema com base em critérios objetivos, é possível apontar soluções concretas. O Ipev, nesse contexto, ajuda a organizar prioridades, capacitar gestores e integrar as estradas vicinais às políticas nacionais de infraestrutura, permitindo usar o dinheiro público da melhor maneira possível e aumentar a eficiência das ações públicas.
Soluções técnicas simples podem reduzir perdas

Se houvesse melhorias de engenharia adequadas, os custos da precariedade poderiam ser reduzidos em até R$ 6,4 bilhões anuais. Produções como de cana-de-açúcar, grãos e proteína animal seriam diretamente beneficiadas. Só a cadeia da cana poderia economizar mais de R$ 2,3 bilhões por ano.
O impacto ambiental também é significativo. Veículos que enfrentam lama, irregularidades e pisos deteriorados consomem mais combustível e emitem mais gases de efeito estufa. Hoje, o tráfego em estradas vicinais gera cerca de 3 milhões de toneladas de CO₂ por ano — volume que poderia cair em mais de 30% se as vias fossem adequadamente mantidas, segundo as projeções da pesquisa.
Ao contrário de propostas que sugerem pavimentar a malha rural, o levantamento indica que soluções mais simples e economicamente viáveis podem gerar grande impacto. O diagnóstico identificou 177 microrregiões prioritárias para intervenções, que incluem ações como nivelamento adequado, reforço de base, aplicação de materiais de cobertura compatíveis, abertura de valas laterais, instalação de bueiros e estruturação de projetos de drenagem. Os custos estimados variam entre R$ 4,9 bilhões e R$ 22,7 bilhões, dependendo do padrão técnico adotado e da configuração de cada via.
Planejamento técnico é chave para mudar o cenário
Apesar da função estratégica das estradas rurais, a realidade encontrada por quem percorre essa malha é marcada por dificuldades estruturais que comprometem a competitividade do País e afetam diretamente as pessoas e o meio ambiente.
O relatório mostra que, embora movimentem mais de 1,4 bilhão de toneladas por ano — volume muito superior ao que trafega em rodovias estaduais e federais —, as estradas rurais, que somam 2,2 milhões de quilômetros, estão negligenciadas. A soma de todos os trechos é dez vezes maior do que toda a extensão pavimentada disponível no País. A falta de atenção se reflete no cenário encontrado: buracos profundos, erosões, atoleiros, excesso de poeira, ausência de drenagem e interrupções constantes, especialmente em períodos chuvosos.
Esses entraves refletem diretamente no bolso dos produtores e no orçamento dos municípios. A precariedade das vias reduz a produtividade operacional dos caminhões, aumenta o tempo de viagem, gera atrasos na entrega de insumos e deteriora equipamentos. Os impactos, porém, extrapolam o aspecto logístico: comunidades rurais ficam isoladas, o acesso a serviços públicos se torna mais difícil e acidentes se tornam mais frequentes.

Para o professor Thiago Guilherme Péra, coordenador do Esalq-Log, o tema deixou de ser uma questão apenas local para se tornar uma preocupação ligada ao desenvolvimento do País. Segundo ele, são discutidos, com frequência, os cenários de portos, ferrovias e grandes corredores logísticos. Mas a base de todo o transporte da safra brasileira continua sem atenção. “As estradas vicinais são o elo mais crítico da cadeia, onde estão nossas maiores vulnerabilidades”, afirma.
A pesquisadora Daniela Bartholomeu, também do Esalq-Log, afirma que uma das principais mensagens do estudo é que planejamento e gestão são tão importantes quanto os recursos financeiros. Para ela, a falta de coordenação e de preparo técnico ainda é um grande obstáculo. Diante disso, Daniela aponta que o Ipev surge justamente para apoiar a tomada de decisão, trazer clareza e orientar investimentos com base em critérios sólidos. “Quando a estrada melhora, melhora a vida do produtor, do estudante, do trabalhador rural e de toda a comunidade”.
O relatório final ainda será publicado, mas os dados referentes às prioridades por Unidade da Federação já estão disponíveis. Eles detalham, Estado por Estado, as regiões mais vulneráveis e o volume estimado de investimentos necessários para reestruturar suas vias vicinais. A expectativa é que o material sirva como ferramenta de gestão, contribuindo para políticas públicas mais eficazes e sustentáveis.
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