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Economia

Atraso regulatório impede avanço da cannabis industrial no País e acesso a mercado bilionário

Brasil reúne condições para liderar cultivo, mas segue fora de cadeia que poderia movimentar até R$ 4,9 bi ao ano, avalia CEO da ExpoCannabis Brasil

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Redação Agro Estadão

14/11/2025 - 05:00

Potenciais do cânhamo estarão em discussão na ExpoCannabis de 14 a 16 de novembro. Foto: Adobe Stock
Potenciais do cânhamo estarão em discussão na ExpoCannabis de 14 a 16 de novembro. Foto: Adobe Stock

O Brasil tem clima favorável, solos amplamente estudados e uma das cadeias agrícolas mais estruturadas do mundo. Apesar disso, permanece fora do mercado global de cânhamo, já regulamentado em mais de 60 países. A avaliação é de Larissa Uchida, CEO da ExpoCannabis Brasil — feira que ocorre de 14 a 16 de novembro, no São Paulo Expo (SP), e é considerada a maior vitrine da América Latina em negócios ligados à planta

Para a CEO, a falta de regulamentação específica impede o País de acessar um mercado bilionário. Segundo estimativa da Kaya Mind, consultoria dedicada ao setor, o cânhamo (cannabis industrial) poderia movimentar até R$ 4,9 bilhões por ano no território nacional. “O Brasil proibiu tudo. Quando veio a proibição, não se diferenciou uso medicinal, industrial ou adulto. A regulamentação travou por décadas”, afirmou a CEO.

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Situação da regulação do cânhamo no Brasil

Hoje, o cultivo só existe sob autorização judicial. Associações e pesquisadores cultivam cânhamo e cannabis medicinal com base em habeas corpus individuais ou coletivos. O Superior Tribunal de Justiça determinou que o governo regulamente o cultivo empresarial para fins medicinais e industriais, mas o prazo foi estendido para março de 2026. “Outros países avançaram porque regularam antes. O Brasil ficou para trás porque proibiu tudo, sem distinguir usos. Agora corre para recuperar terreno”, disse Uchida.

“A gente vem lutando para sair desse formato de habeas corpus e ir para uma regulamentação válida para todo mundo”, afirmou. Uchida reforça, no entanto, que o desafio é mais político e normativo do que técnico. “Não vejo muitos cenários negativos. Quem trabalha no agronegócio conseguiria cultivar sem nenhum tipo de problema”. 

A falta de regulamentação, porém, interrompe investimentos. Projetos de pesquisa da Embrapa aguardam autorização formal para avançar em genética, manejo e adaptação climática. O setor privado também espera regras para operar. 

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Larissa Uchida: “A regulamentação travou por décadas”. Foto: Sérgio Castro/Rojas Comunicação

Cannabis industrial, a “nova soja”

No Brasil, pesquisas mostram que a rentabilidade líquida pode chegar a R$ 23 mil por hectare, valor muito superior ao da soja e do milho. “É cultivo de ciclo curto, com até quatro safras ao ano. Regenera o solo, usa menos água e permite rotação entre safras tradicionais”, afirmou a CEO.

Para além da renda, a planta gera mais de 25 mil subprodutos. As sementes atendem alimentação, cosméticos e suplementos. O caule abastece tecidos, bioplásticos e materiais de construção. As flores e folhas fornecem óleos e extratos para as indústrias farmacêutica e nutracêutica. “Estamos falando de uma cultura que impacta diversas cadeias ao mesmo tempo. O Brasil tem clima, terra e capacidade técnica para ser líder global”, disse Uchida.

O cânhamo apresenta teores muito baixos de THC (tetra-hidrocanabinol), composto responsável pelos efeitos psicoativos da cannabis). No exterior, o segmento deve atingir US$ 100 bilhões em 2026, segundo a consultoria Prohibition Partners

Ainda assim, Larissa pondera que o País terá de enfrentar resistências culturais e desinformação. “A regulamentação não vai resolver a desmistificação do tema. A gente tem que tirar essa imagem demoníaca da planta”.

ExpoCannabis Brasil 2025

O debate deve ganhar força na ExpoCannabis Brasil 2025. O evento deve reunir 45 mil visitantes, 250 expositores e 280 marcas, segundo a organização. A edição terá o agronegócio como um dos focos, com áreas dedicadas a genética, insumos, nutrição, rastreabilidade e máquinas de cultivo. 

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A programação inclui três espaços de educação: o Fórum Internacional, o Congresso Científico Dr. Elisaldo Carlini e a arena de workshops. Haverá também encontros técnicos com pesquisadores da Embrapa, que apresentarão o projeto HempTech Brasil, criado para desenvolver soluções para o cultivo industrial no País.

O projeto inclui o Observatório Embrapa de Tendências sobre Cannabis no Agronegócio e a Plataforma de Inovação Aberta HempTech, que conecta startups, empresas e pesquisadores no co-desenvolvimento de soluções para o setor.

Para Uchida, a discussão técnica e a aproximação entre governo, pesquisa e agronegócio são decisivas. A expectativa do setor é que o avanço regulatório permita ao País entrar num mercado em expansão e capturar oportunidades hoje limitadas a importadores. “Mesmo que a regulamentação avance em 2026, o trabalho de informar e capacitar o produtor será contínuo. A feira existe para abrir esse caminho e mostrar que a cannabis industrial é uma cultura agrícola como qualquer outra, mas com potencial econômico muito maior”, disse.

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