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Economia

Chamada de nova soja, cannabis pode gerar quase R$ 6 bilhões até 2030

Conheça o plano para iniciar o cultivo comercial da cannabis no Brasil em 2026 e os entraves regulatórios ainda existentes

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Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com | Atualizada em 12/09/2025 às 18h20

11/09/2025 - 07:00

Em quatro anos, estudo estima cerca de 64,1 mil hectares de área plantada com cannabis industrial | Foto: Adobe Stock
Em quatro anos, estudo estima cerca de 64,1 mil hectares de área plantada com cannabis industrial | Foto: Adobe Stock

As primeiras fazendas de cânhamo (cannabis industrial) podem se tornar realidade no ano que vem. É o que projeta o relatório Caminhos Regulatórios para o Cânhamo no Brasil, feito por um grupo de trabalho liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Ficus. O documento traz uma sugestão de plano de ação com medidas que podem ser adotadas no curto, médio e longo prazo. 

No horizonte de curto prazo (até dois anos), por exemplo, uma das ações previstas é o início de projetos piloto, que teriam um prazo para começar a partir de março de 2026. Há ainda a previsão para que pequenos e médios produtores e cooperativas possam ter acesso a linhas de crédito com foco em maquinário, além de crédito para o plantio. Isso teria início já em setembro de 2026. 

CONTEÚDO PATROCINADO

Já os cultivos em maior escala, aconteceriam um ano depois, a partir de setembro de 2027, com as primeiras licenças. No médio prazo (de dois a cinco anos), outra ação projetada é o início das exportações de matérias-primas de cânhamo, com prazo para 2028.

A consolidação do setor seria por volta de 2030. O Brasil teria uma produção de cannabis e a indústria de beneficiamento e processamento já estaria madura. Além disso, o país também se tornaria um dos principais players exportadores de produtos à base de cânhamo. 

Gatilho está em questão regulatória

O relatório e o plano de ação foram apresentados nesta quarta-feira, 10, durante um seminário sobre o tema realizado na sede da Embrapa, em Brasília (DF). Mas um ponto destacado por quase todos os painelistas foi a necessidade de uma regulamentação sobre o tema. Há um entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) do ano passado que determina que a União e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) definam as regras para o cultivo de cânhamo industrial no Brasil. 

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O prazo inicial para isso era de seis meses mas foi prorrogado, por isso, a expectativa do grupo de trabalho é de que haja a publicação, até o fim de setembro, de um decreto presidencial com a permissão. Esse seria o primeiro gatilho. Mas, como explicou o consultor do Instituto Ficus, Tarso Araújo, há uma preocupação quanto à norma da Anvisa. 

Hoje, uma portaria da Anvisa de 1998 proíbe qualquer cultivo de cannabis no Brasil. Esse regramento é o que a agência deve mudar. Mas as minutas que saíram sobre a alteração da portaria incluem apenas o cultivo de cânhamo para fins medicinais.

“Isso [plano de ação] só vai acontecer, se tivermos essa regulamentação [inicial]”, destacou Araújo.  Segundo o grupo de trabalho, essa delimitação sobre o cultivo seria uma perda e comprometeria esse cronograma proposto. O motivo é que o cânhamo industrial tem outras funções além do uso como medicamento, e o valor agregado viria principalmente desse uso extra indústria farmacêutica.

Brasil poderia ter receita de R$ 5,76 bilhões 

O relatório também apresenta uma estimativa do que poderia ser a receita líquida do Brasil com a cadeia de cannabis no ano de 2030. O estudo feito em junho pelo Instituto Escolhas, posteriormente, acoplado ao relatório, mostra que o país poderia obter R$ 5,76 bilhões juntando todos os possíveis usos da planta. Além disso, nesse ano, o país poderia ter cerca de 64,1 mil hectares de área plantada com cânhamo industrial. 

De forma geral, o cânhamo tem concentrações de canabinóides diferentes em cada parte. As flores, por exemplo, são as estruturas que costumam ser usadas nos medicamentos. Mas há usos para as outras partes da planta.

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Somente as sementes, que têm um elevado teor proteico, poderiam gerar ao Brasil R$ 2,3 bilhões. Além de exportar, elas podem ser beneficiadas e consumidas in natura ou utilizadas na fabricação de pães, barras de cereais e até incrementando o tofu. O restante da planta, como o caule, o uso seria como fibra, aplicada na indústria têxtil, no papel e, inclusive, na construção civil, com tijolos. Isso poderia proporcionar ao país R$ 3,2 bilhões em receita. 

A nova soja  

Devido a sua versatilidade, a Embrapa vem buscando aprimorar as pesquisas sobre a cannabis no Brasil. Um dos desafios é a questão regulatória. Como mostrado pelo Agro Estadão, a estatal de pesquisa encaminhou um pedido à Anvisa para poder cultivar a planta com fins científicos. Ao todo, são três projetos que a Embrapa tenta emplacar. 

Porém, o processo já tem quase um ano e não teve resposta ainda, como contou no seminário a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos, Daniela Bittencourt. “Esses países [China, EUA, Canadá, França] vão avançando em novas fontes de renda e inovação e, enquanto isso, nós aqui estamos aguardando que a coisa aconteça”, afirmou. 

A pesquisadora, que também faz parte do grupo de trabalho, ainda destacou o nível de expectativa e potencial da cannabis industrial. “Nós acreditamos aqui na Embrapa que o cânhamo pode ser para o Brasil o que a soja foi há 50 anos, a próxima grande revolução agrícola. Acho que a gente tem que pensar um pouco em transformar essa commodity do futuro na commodity de agora”, comentou Bittencourt. 

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