Celso Moretti
Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
O gargalo invisível: a dependência brasileira do Estreito de Ormuz
Israel e Irã cantaram vitória nesta semana. Terminou a guerra de bombas e mísseis. Começou a guerra de narrativas
25/06/2025 - 08:00

Trump chegou a anunciar uma trégua. Queria ser reconhecido como o pacificador. Foi para a Holanda participar da reunião da OTAN. Planejava dar a volta olímpica e comemorar vitória. Foi uma vitória de Pirro. Observadores atentos concluíram: a paz de Trump no Oriente Médio é uma ilusão. A cereja do bolo veio da Agência de Inteligência de Defesa (DIA) do Pentágono: o ataque dos Estados Unidos contra instalações do Irã, no sábado (21), atrasou o programa nuclear do país ‘em apenas alguns meses’, segundo reportagem do The New York Times. Em breve, a teocracia voltará a ser uma ameaça nuclear.
O que era para ser uma ‘Guerra dos Doze Dias’ tem tudo para se prolongar, infelizmente. O nome do conflito é uma alusão à ‘Guerra dos Seis Dias’. Para refrescar a memória, o conflito foi travado por Israel contra Egito, Síria e Jordânia entre 5 e 10 de junho de 1967. Esse embate foi mais um capítulo da tensão existente entre árabes e israelenses que acontece desde a fundação de Israel.
Quase 60 anos depois, o novo conflito assombra o mundo e coloca em risco a segurança alimentar global. Isto porque o Irã ameaça bloquear o Estreito de Ormuz. Passagem marítima vital que conecta o Golfo Pérsico ao restante do mundo, o Estreito de Ormuz frequentemente aparece no noticiário internacional em função de tensões militares, embargos econômicos e disputas geopolíticas. O que poucos percebem, no entanto, é que essa estreita faixa de mar, com menos de 40 km de largura, desempenha um papel silencioso — porém crucial — na produção de alimentos do Brasil e no mundo.
Quase 33% dos fertilizantes nitrogenados do mundo transitam por essa rota estratégica, incluindo ureia, amônia anidra e nitrato de amônio, produtos exportados por países como Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã. Tais insumos são essenciais para o desempenho da agricultura intensiva e altamente produtiva que sustenta a agropecuária brasileira.
Em 2024, o Brasil importou aproximadamente 45 milhões de toneladas de fertilizantes, sendo mais de 80% do consumo nacional suprido por fontes externas. Há exatamente um ano este articulista alertou sobre o problema da dependência externa extrema do agro brasileiro.
Considerando que um terço do comércio global de fertilizantes passa por Ormuz, é razoável estimar que cerca de 14 milhões de toneladas de fertilizantes utilizados no país cruzaram esse estreito, tornando a agropecuária brasileira vulnerável a choques exógenos sobre os quais não tem controle.
Essa dependência estrutural impõe desafios nada triviais ao agro nacional. O bloqueio temporário do estreito, uma guerra regional ou a imposição de sanções comerciais podem gerar escassez de insumos, disparada de preços e retração na produção agropecuária nacional, com consequências que se estendem da inflação ao abastecimento interno e à competitividade das exportações. Por isso, torna-se urgente repensar a estratégia nacional de suprimento de fertilizantes, com foco em pelo menos três pilares: diversificação geográfica de fornecedores, reduzindo a concentração no Golfo; reindustrialização da produção nacional de insumos, com estímulo à pesquisa e investimentos em plantas produtivas; e formação de estoques reguladores e alianças internacionais estratégicas, para garantir estabilidade em tempos de crise. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) precisa avançar, sob pena de ficarmos reféns do humor de teocracias alhures.
O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimentos, mas sua dependência crítica de rotas externas, como o Estreito de Ormuz, mostra que a segurança alimentar começa bem antes da porteira: ela está nos corredores marítimos, nos acordos diplomáticos e nas políticas industriais. Ignorar isso é correr riscos desnecessários — e inaceitáveis — para um país que tem a missão global de alimentar o mundo.
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