Agropolítica
Moratória da Soja: Dias Toffoli pede vista e suspende julgamento no STF
O julgamento trata do referendo à medida cautelar concedida pelo ministro Flávio Dino, que suspendeu a eficácia da lei em dezembro de 2024
Broadcast Agro
03/06/2025 - 15:48

O Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7774, que questiona a validade da Lei nº 12.709/2024 do Estado de Mato Grosso, aprovada para vetar benefícios fiscais e doações de terrenos públicos a empresas signatárias da Moratória da Soja. A análise, iniciada na sexta-feira, 30, no plenário virtual, foi interrompida na manhã da segunda-feira, 2, por pedido de vista do ministro Dias Toffoli. Ainda não há data para retomada.
O julgamento trata do referendo à medida cautelar concedida pelo relator, ministro Flávio Dino, que suspendeu a eficácia da lei em dezembro de 2024. Em abril, Dino reconsiderou parcialmente a decisão e restabeleceu os efeitos do artigo 2º da norma, autorizando o Estado a vetar benefícios fiscais a empresas que adotem restrições ambientais não previstas em lei, como a Moratória da Soja. O voto do relator, submetido agora ao plenário, limita os efeitos da norma ao período a partir de 1º de janeiro de 2026. O ministro Alexandre de Moraes já votou acompanhando o relator.
A interrupção ocorre no momento mais tenso da disputa entre o setor produtivo de Mato Grosso e tradings multinacionais. À frente da ofensiva, está a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja-MT), que, nos últimos meses, articulou uma série de medidas políticas e judiciais contra o pacto voluntário firmado desde 2006 entre empresas, ONGs e governo federal para restringir a compra de soja cultivada em áreas desmatadas do bioma Amazônia após julho de 2008. Embora legalmente autorizado, esse tipo de desmatamento é vetado pela moratória.
Em dezembro do ano passado, a Aprosoja-MT apresentou denúncia formal ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), alegando que as tradings formam um “cartel de compra” com práticas coordenadas para limitar o mercado. Em abril, ingressou com uma ação civil pública contra 33 réus, incluindo as principais empresas signatárias e associações setoriais, pedindo o fim da moratória e indenizações por danos materiais e morais. Paralelamente, a entidade deu suporte à mobilização de 127 câmaras municipais que solicitaram auditoria no Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) sobre a concessão de benefícios fiscais.
O relatório preliminar do TCE-MT, apresentado em 30 de abril, revelou que empresas signatárias da moratória receberam R$ 4,7 bilhões em incentivos fiscais entre 2019 e 2024, o equivalente a 28,72% do total de renúncias via Prodeic no período. Bunge, ADM, Cofco e Cargill concentraram 86,5% desse valor. “Só o que foi para a Bunge daria para construir cinco hospitais”, criticou o presidente do tribunal na ocasião, Sérgio Ricardo.
A Lei nº 12.709/2024 foi aprovada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso no segundo semestre de 2024, com apoio da Aprosoja-MT e da base ruralista. Em dezembro, o ministro Flávio Dino suspendeu integralmente a norma por liminar. Em abril, reconsiderou parcialmente sua decisão e restabeleceu o artigo 2º da norma, com eficácia futura. Em seu voto atual, Dino argumenta que o Estado pode condicionar sua política de incentivos a critérios compatíveis com a legislação nacional, sem obrigatoriedade de adotar parâmetros de acordos privados. “O poder público não é obrigado a conceder novos benefícios a empresas que resolvam exigir o que a lei não exige”, escreveu. Ele reafirmou que a moratória é legal enquanto iniciativa da sociedade civil, mas defendeu a soberania do Estado em sua política fiscal.
A ação foi proposta por PCdoB, PSOL, Rede e PV. Segundo os autores, a norma estadual interfere na livre iniciativa, compromete compromissos ambientais e afronta o direito ao meio ambiente equilibrado. A Advocacia-Geral da União (AGU) manifestou-se contra a lei, enquanto a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Assembleia Legislativa e o governo de Mato Grosso pediram a sua manutenção. A CNA apresentou sustentação oral no processo.
Do lado empresarial, a Abiove, que representa as indústrias processadoras de soja, afirmou que a decisão do ministro Flávio Dino reconhece a legalidade da moratória e seus “inequívocos benefícios ao País”. A entidade reforça que o pacto contribuiu para desacelerar o desmatamento na Amazônia e representa um diferencial competitivo para as exportações brasileiras em mercados como a União Europeia, que implementa no fim do ano seu novo regulamento de combate ao desmatamento (EUDR).
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
Agricultores familiares fazem ato por medidas contra crise no campo
2
LDO 2026: veto de Lula retira proteção a gastos com seguro rural e Embrapa; FPA reage
3
Banco do Brasil e Mapa vão ao Paraná destravar as renegociações de dívidas rurais
4
STF forma maioria para derrubar marco temporal; o que vem agora?
5
Pescadores têm até dia 31 para envio do REAP, requisito para o seguro-defeso
6
Governo cria linha de crédito de R$ 6 bi para renovação de frota de caminhões
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Atenção, viajantes: governo atualiza norma para entrada de alimentos no País; veja o que muda
Regra vale para aeroportos, portos e postos terrestres; entre as exigências, está a obrigatoriedade de informar visitas a áreas agropecuárias
Agropolítica
Conab poderá comprar 50 mil toneladas de milho em 2026
Governo Federal prevê até R$ 80 milhões para o Programa de Venda em Balcão em 2026; Normativa estabelece ainda condições para os leilões
Agropolítica
Morre pesquisador do IAC considerado o pai do feijão-carioca
Causa da morte de Luiz D’Artagnan de Almeida não foi divulgada
Agropolítica
LDO 2026: veto de Lula retira proteção a gastos com seguro rural e Embrapa; FPA reage
O dispositivo vetado integralmente pelo presidente da República também incluía despesas com defesa agropecuária e ações de regulação e fiscalização
Agropolítica
Fávaro: Brasil mira cotas de exportação não cumpridas por outros países na China
Ministro afirma que essa possibilidade de compensação nas vendas de carne bovina é considerada estratégica em negociações com os chineses
Agropolítica
Rio Grande do Sul implanta monitoramento para prever nível dos rios
Novo serviço de modelagem hidrodinâmica permite identificar áreas de risco e apoiar ações preventivas da Defesa Civil e municípios
Agropolítica
Governo define meta do RenovaBio para 2026
Programa do governo federal prevê compensação de 48 milhões de toneladas de carbono no setor de combustíveis por meio de CBIOs
Agropolítica
Mapa fecha fábrica irregular de fertilizantes e apreende quase 500 t em Pradópolis (SP)
Unidade funcionava sem registro e sem licença ambiental; produção foi suspensa por risco ao campo e ao meio ambiente