Agro na COP30
Atração da COP 30: açaí vai da subsistência ribeirinha ao mercado global
Conheça o mercado deste fruto que garante a segurança alimentar amazônica e impulsiona exportações e marcas internacionais
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
12/11/2025 - 05:00

O açaí, que virou símbolo da COP 30 após ser quase barrado do cardápio da Conferência do Clima, é um dos produtos mais emblemáticos da bioeconomia brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção nacional alcançou R$ 7,77 bilhões em 2024, com 1,74 milhão de toneladas colhidas em 262 mil hectares. O Pará responde por cerca de 90% desse volume, seguido por Amapá e Amazonas.
A valorização do fruto demonstra um avanço impressionante. Em 2020, o setor movimentava R$ 4,5 bilhões. Três anos depois, atingiu quase R$ 8 bilhões, um crescimento de 78%. Em 2024, houve ligeira queda, em razão da seca que atingiu importantes áreas produtoras, mas os números se mantêm próximos ao recorde, demonstrando a força da cadeia produtiva.
Do extrativismo ao cultivo manejado
Para o pesquisador Alfredo Homma, da Embrapa Oriental, os números se devem, principalmente, à transição que a cultura vivencia. O açaí passou de atividade extrativa a sistema manejado e, em alguns estados, como São Paulo e Goiás, plantado com irrigação.

Ele estima que, dos 252 mil hectares do Pará e Amazonas, 225 mil tenham manejo feito, principalmente, por pequenos produtores. “Hoje, o grosso do açaí já vem de áreas manejadas, que transformam a floresta nativa em bosques homogêneos de açaizeiro”, explica.
O modelo aumentou a produtividade e assegurou safra e entressafra. Segundo Homma, “o consumo, que antes se restringia a três ou quatro meses, virou hábito para os 12 meses do ano. O mercado local aqui foi multiplicado por três ou quatro vezes em poucas décadas”.
Consumo interno em expansão
Segundo o analista de Competitividade do Sebrae, Victor Ferreira, o mercado interno continua sendo o principal motor da produção. “O consumo doméstico responde pela maior parte da demanda, representando 80% do total. Fora da Região Norte, é puxado por grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Brasília”.
Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) mostrou que Pará e Amapá registram consumo per capita de 15 a 26 quilos por ano. Em estados do Sul e Sudeste, o número é bem menor, cerca de um quilo.
Nas áreas ribeirinhas, o fruto segue como base alimentar. Em Igarapé-Miri (PA), famílias consomem em média 7,5 litros por dia na safra e 8 litros na entressafra, geralmente acompanhados de farinha de mandioca e peixe.
Exportações e mercados estratégicos
O açaí brasileiro chega a mais de 50 países. Os Estados Unidos lideram as compras, com US$ 2,7 milhões, seguidos por Japão, Austrália e Alemanha. Também importam Bélgica, Singapura, França, China, Países Baixos e Portugal.

Segurança alimentar e o papel do açaí
Nas comunidades amazônicas, o açaí é mais que mercadoria. Ele garante a base da alimentação. Segundo o pesquisador Alfredo Homma, propriedades com tamanho entre cinco e dez hectares produzem cerca de 36 toneladas, dos quais 30 são comercializados e seis são para o consumo das famílias.
“Essa proporção é semelhante ao que acontece com outras culturas básicas. A mandioca, o milho e o leite também destinam parte relevante da produção para o autoconsumo, garantindo a sobrevivência das famílias”, reforça.
Desafios: mão de obra, água e crédito
O crescimento do setor traz desafios. De acordo com o pesquisador da Embrapa, a mão de obra é, atualmente, o ponto crítico, pela intensidade do trabalho de colheita e transporte. “O maior gargalo é a mão de obra, porque o açaí exige muito esforço físico para colher, debulhar e transportar os cachos”.
Outro obstáculo é a água: cultivos em terra firme dependem de irrigação, o que eleva custos e pressiona recursos naturais. “Na terra firme, a produção depende de irrigação. Fora da safra, o preço do litro chega a custar o equivalente a um vinho, e esse sistema irrigado atende justamente quem consome o ano inteiro”, explica.

Foto: Ronaldo Rosa/Divulgação
Para Victor Ferreira, do Sebrae, “o pequeno produtor ainda tem dificuldade de acessar tecnologia e crédito. O custo da irrigação é caro, a assistência técnica muitas vezes não chega e isso limita a expansão do cultivo”.
Ele também destaca os requisitos para o mercado externo. “Para exportar, muitos países exigem certificações como a Global Gap, e o produtor precisa de apoio para se adequar a essas regras. Por isso, o Sebrae vem estimulando a formação de cooperativas, para que os pequenos tenham escala e consigam atender à demanda internacional”.
Potencial de crescimento
Com forte apelo nutricional e cultural, o açaí mantém alto potencial de mercado. O interesse global por alimentos saudáveis e de origem amazônica abre espaço para expansão em diferentes formatos — polpa, pó (usado para a produção de sorvetes), suplementos, bebidas energéticas e até cosméticos.
Segundo Victor Ferreira, do Sebrae, o Brasil exporta “apenas de 3% a 5% das frutas tropicais produzidas. O açaí tem espaço enorme para crescer nesse cenário”.
De olho nesse potencial, marcas brasileiras vêm se destacando no mercado internacional, como a Açaí Concept, criada em Maceió (AL), em 2014, que expandiu para países da América, Europa e Ásia. “Ver a nossa marca cruzar fronteiras e conquistar outros países é a prova de que acreditar no potencial brasileiro vale a pena. Esse é só o começo”, afirma Rodrigo Melo, cofundador e CEO da rede.
Com quase 50 lojas abertas no exterior, a Açaí Concept planeja abrir mais 500 unidades fora do Brasil nos próximos cinco anos. A estratégia inclui adaptação ao gosto local e criação de novos formatos de negócio, como o Açaí Concept Café, lançado na Espanha, que adiciona café ao menu tradicional.

Além da internacionalização, o açaí é estratégico para a bioeconomia da Amazônia. O especialista do Sebrae destaca que a fruta pode ser vetor de geração de renda sustentável, desde que o modelo privilegie manejo comunitário e preservação da floresta. O fortalecimento de cooperativas, a ampliação de certificações de origem e a rastreabilidade são caminhos para agregar valor e conquistar novos consumidores.
Para fortalecer esse potencial, Victor ressalta que o Sebrae oferece capacitação e orientação para certificações internacionais e apoio à formação de cooperativas, ajudando produtores a ampliar mercados sem perder a identidade local.
Mais informações estão disponíveis no site da instituição.
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