Agricultura
Em São Paulo, terrenos sob linhas de energia ganham novo uso com hortas urbanas
Projeto da Enel transforma 50 áreas que estavam ociosas e fortalece a renda de 75 pequenos produtores rurais
Igor Savenhago | Ribeirão Preto | igor.savenhago@estadao.com
20/12/2025 - 05:00

O sol mal desponta em São Mateus, na zona leste de São Paulo, quando Dona Sebastiana Helena de Faria ajeita o chapéu de palha e caminha por entre os canteiros ainda úmidos de orvalho. O cheiro da terra viva se mistura ao das ervas medicinais e das folhas recém-cortadas de alface. Ali, ela cultiva mais do que verduras. Cultiva persistência.
Dos sete aos 22 anos, trabalhou no Nordeste plantando mandioca, abacaxi, banana, laranja e milho para consumo da família. O marido também cresceu na roça. Mas, quando ganharam o direito de cuidar da área em São Paulo, foi preciso aprender a lidar com as hortaliças. “O trabalho é bem diferente da lavoura”.
Também foi preciso muita disposição para mudar o cenário do lugar. “Quando cheguei aqui, era só chão batido e mato alto. Fui limpando aos poucos, junto com meu marido. Queríamos plantar de forma natural, para cuidar da terra e da água, já que o terreno fica perto de mananciais”, conta ela.
Hoje, o espaço tem 12 mil metros quadrados de produção orgânica, onde alface, couve, escarola, beterraba, alho-poró, salsinha, cebolinha, coentro, ervas para chás diversos e árvores frutíferas disputam espaço. Dona Sebastiana sorri largo quando fala sobre o lugar. O mesmo sorriso que oferece aos cerca de 20 clientes que passam por ali todos os dias em busca de alimento e uma boa prosa.

Hortas em rede
Ela faz parte do projeto Hortas em Rede, criado pela Enel Distribuição São Paulo, responsável pela energia elétrica da Grande São Paulo. Desde 2018, a iniciativa visa transformar terrenos sob as linhas de transmissão de energia em hortas urbanas. A cessão da área funciona em sistema de comodato. A Enel empresta os terrenos e os agricultores assumem o compromisso de manter e gerir a horta.
O Hortas em Rede nasceu de um desafio: dar novo uso a áreas ociosas, muitas vezes demarcadas pela vulnerabilidade social, e convertê-las em espaços de convivência, geração de renda e alimentação saudável. Atualmente, o projeto mantém 50 hortas ativas e reúne 75 agricultores em diferentes pontos da área de concessão da Enel São Paulo.
De acordo com o Relato de Impacto lançado pela Enel em parceria com o Pé de Feijão, negócio social que visa transformar a relação das pessoas com a comida, e a Baanko, organização com foco em inovação, impacto ambiental e economia circular, 100% das pessoas atendidas relataram melhora na disposição física; 93,6% perceberam benefícios diretos à saúde; 85,2% destacaram maior integração comunitária; 74,1% aumentaram a economia doméstica; e 66,7% notaram aumento da fauna local.
“O Hortas em Rede é mais do que um projeto de agricultura urbana. É uma transformação social que impacta a vida de milhares de pessoas”, acredita Guilherme Lencastre, presidente da Enel Distribuição São Paulo.
A coordenadora do projeto, Carolina Afonso, reforça que cada horta nasce de um estudo cuidadoso: “Não é só escolher o terreno e plantar. Avaliamos o impacto ambiental, o descarte de resíduos, a viabilidade econômica e o benefício social. É inclusão e inovação brotando da terra.”

Viver da terra
Os resultados se refletem em histórias como a de Rafael Maroni, agricultor também de São Mateus que trocou o violão pela enxada. “A música sempre fez parte da minha vida, mas a terra também. Hoje, cultivo alface e vejo o sustento da minha família brotar daqui”.
Para Luíza Haddad, fundadora do Pé de Feijão, “o projeto abre um debate urgente sobre o papel da agricultura urbana na construção de um futuro sustentável e inclusivo. É sobre devolver à cidade o que ela esqueceu: o contato com a terra”.
Com o projeto, Dona Sebastiana aprendeu muitas tarefas na prática. E, também, a lidar com os efeitos das mudanças climáticas. “Antes, o chuchu e o mamão cresciam fácil. Agora, o calor e o frio desregulados atrapalham”, lamenta. Ainda assim, ela não perde o entusiasmo. Usa compostagem, cobertura vegetal e água da chuva para manter o solo fértil. Planta flores para atrair polinizadores e garante que tudo seja cultivado sem agrotóxicos. “Essa horta é minha vida. Mesmo depois que meu marido se foi, eu fiquei. Porque aqui a gente colhe mais do que planta: colhe amizade, saúde, esperança.”
Ela emprega quatro pessoas, três delas integrantes do Programa Operação Trabalho (POT) da Prefeitura de São Paulo. Além disso, moradores da comunidade aparecem aos finais de semana para aprender sobre cultivo e aliviar o estresse. “Tem gente que vem para mexer na terra e sair de alma leve”, conta.

Renascimento pela horta
De outro lado da cidade, Ana Albertina de Sousa, de 56 anos, encontrou na horta um caminho de cura. Após 37 anos de trabalho no setor corporativo, ela enfrentou burnout, depressão e síndrome do pânico. Pediu demissão, buscou tratamento e reencontrou nas plantas o que a rotina havia levado: o sentido de existir.
“Quando entrei na horta, voltei a respirar. A terra me curou”, diz. O contato diário com o solo e o convívio com outros agricultores a libertaram dos remédios. “A horta é uma terapia ao ar livre. A gente se cura um pouco a cada dia.”
Ana cultiva plantas medicinais, como hortelã, melissa, babosa, ora-pro-nóbis e guaco – produtos que vende a um público fiel. “A horta virou ponto de acolhimento. As pessoas chegam tristes e saem sorrindo. A gente doa tempo e atenção, e recebe muito mais em troca”. A renda que obtém complementa a aposentadoria, mas o maior retorno é imaterial: o sentimento de pertencimento. “Se você não vive para servir, não serve para viver. E aqui, eu sirvo com amor.”
Aos interessados
A seleção dos beneficiados pelo projeto Hortas em Rede ocorre por meio de parcerias com
prefeituras, ONGs e associações comunitárias. Mas, se algum agricultor quiser se candidatar, é necessário preencher um formulário de demonstração de interesse, clicando neste link.
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