Pecuária
Trigo, aveia ou azevém: qual forrageira enfrentou melhor as geadas no Sul?
Estudo da Embrapa mostra como diferentes culturas responderam ao frio intenso e revela estratégias para garantir forragem em clima adverso
Redação Agro Estadão*
22/07/2025 - 14:55

As geadas que incidiram na Região Sul durante os meses de junho e julho afetaram a oferta de forragens para a produção pecuária. A Embrapa analisou as opções mais utilizadas pelos produtores em busca da pastagem com melhor tolerância ao fenômeno climático. Enquanto a aveia preta e o azevém sofrem com o frio, o trigo forrageiro se destaca pela tolerância às baixas temperaturas e pela capacidade de rebrote após os pastejos.
De acordo com o pesquisador Renato Serena Fontaneli, da Embrapa Trigo, a cultura de inverno mais sensível à geada é a aveia preta, seguida da cevada e da aveia branca. “A geada costuma afetar a aveia causando o crestamento das plantas. Quando a geada é seguida de dias ensolarados, a planta pode se recuperar entre quatro a sete dias, mas o crescimento é mais lento, devido às baixas temperaturas e dias curtos, até a plena oferta de forragem de aveia”, explica Fontaneli. Por outro lado, o azevém, muitas vezes semeado junto com a aveia em março/abril, vai produzir forragem somente no final do inverno.
A recomendação é que os produtores invistam em planejamento e diversificação. “O produtor das regiões frias do Sul do país tem muitas opções de forrageiras no inverno, desde o campo nativo, melhorado com espécies anuais e perenes de inverno, incluindo, entre elas, a festuca e as leguminosas, como as ervilhacas, os trevos e o cornichão”, orienta Fontaneli.
A Embrapa Trigo vem desenvolvendo cultivares específicas de trigo forrageiro desde 1980. “A sensibilidade do trigo à geada começa a aumentar depois do início do emborrachamento. Os danos dependem da intensidade da geada e da sensibilidade da cultivar, já que existe diferença genética bem acentuada entre as cultivares”, explica o pesquisador Ricardo Lima de Castro. “Geralmente, as geadas não causam danos em trigo quando ocorrem antes do emborrachamento.”
Os resultados também foram observados em propriedades rurais. É o caso do produtor de leite Ademilson Ramon, de Princesa (SC). Ele relata que, “com as últimas geadas, as folhas da aveia secaram, mas o trigo resistiu e já estamos no terceiro pastejo no piquete”. O pecuarista também destaca a precocidade do trigo: “A oferta de pasto com o trigo foi 30 dias após a semeadura, enquanto o azevém vai permitir o primeiro pastejo somente em agosto”.
Aveia preta ainda é opção de menor custo
Apesar da sensibilidade ao frio, a aveia preta continua sendo preferência de muitos produtores, devido ao menor custo na semente. O preço da semente de trigo representa quase o dobro do valor da semente de aveia preta. Contudo, a oferta de forragem é quase 70% menor na aveia preta em comparação com o trigo.
“A aveia preta tem o desenvolvimento inicial rápido, mas atinge o pico de produção de pasto em dois a três meses, quando entra em declínio, exigindo uma segunda semeadura para garantir forragem durante todo o inverno. O trigo, por outro lado, mantém a oferta constante de forragem, com rebrote vigoroso a cada pastejo”, explica o engenheiro agrônomo Marcelo Klein, da Embrapa Trigo.
Um experimento comparando trigo e aveia foi feito na Embrapa Trigo para avaliar o volume de forragem produzida. Foram realizados nove cortes, simulando ciclos de pastejo, de março a novembro. No balanço final, o trigo forrageiro produziu, em média, 900 kg de matéria seca por corte, enquanto a aveia produziu 533 kg MS/corte. No manejo fitossanitário (controle de pragas e doenças), trigo e aveia mostraram a mesma exigência nos cuidados, mas na adubação o trigo necessitou de mais reposições (uma aplicação de ureia após cada pastejo), porque a cultura ficou mais tempo produzindo biomassa.

Cláudio Lopes, presidente da Sulpasto, lembra que a aveia preta é uma importante alternativa para a cobertura de solo na Região Sul e, mesmo que as plantas sequem com a geada, ainda existem afilhos rebrotando que garantem a manutenção da palhada, além das raízes trabalhando pelo solo. Na produção de sementes, a aveia preta também sofreu, mas está apresentando boa recuperação.
Muitos produtores plantaram aveia porque estavam descapitalizados para investir em culturas mais exigentes, como o trigo ou a cevada. “As lavouras queimaram um pouco as folhas, mas já estão se recuperando, com um bom perfilhamento. Dificilmente, as plantas morrem com geada ou excesso de chuva, mas podem alongar um pouco o ciclo”, detalha.
*Com informações da Embrapa
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