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Silvia Massruhá: Agricultura brasileira avança para enfrentar a crise climática

Em um mundo sob crescente pressão climática, o Brasil traz uma experiência única: há mais de 5 décadas, constrói uma agricultura tropical resiliente, sustentável e produtiva 

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Silvia Massruhá | Presidente da Embrapa

07/05/2025 - 08:00

Foto: Thiago Sousa
Foto: Thiago Sousa

Como parte fundamental dessa transformação está a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), instituição que nasceu em abril de 1973 com a missão de aliar inovação tecnológica, conservação ambiental e segurança alimentar, coordenando uma ampla rede nacional de pesquisa com instituições públicas e privadas. Nos anos 1970, o cenário rural brasileiro era de extrema vulnerabilidade. A agricultura sofria com secas, geadas, erosões e enchentes, resultando em safras minguadas e insegurança alimentar. Predominavam práticas de baixa produtividade e elevado impacto ambiental. A resposta foi ousada: investir em ciência, inovação e conhecimento dos biomas nacionais para construir uma agricultura tropical moderna e eficiente — modelo que até hoje atrai interesse de outros países. 

A Embrapa foi criada com foco nessa transformação. Estruturada com uma visão sistêmica inédita, organizou uma rede de centros de pesquisa voltados aos biomas brasileiros — Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal — e a recursos estratégicos como solos, biodiversidade e água. Desde o início, sustentabilidade ambiental, viabilidade econômica e inclusão social foram pilares de sua atuação. Com apoio de políticas públicas, formação qualificada de pesquisadores e parcerias nacionais e internacionais, consolidou uma ciência tropical capaz de superar adversidades e transformar o Brasil em potência agroambiental. Entre os indicadores mais ilustrativos da trajetória recente da agricultura brasileira, ancorada pela ciência, estão os números de produção e os índices de produtividade. Entre 1977 e 2024, a produção de grãos, que era de 47 milhões de toneladas, cresceu 534%, atingindo 298 milhões de toneladas, enquanto a área plantada aumentou apenas 160%. 

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Muito antes de as mudanças climáticas dominarem as agendas globais, a pesquisa pública brasileira já impulsionava práticas sustentáveis como a fixação biológica de nitrogênio, o sistema de plantio direto, o manejo integrado de pragas, a irrigação adaptada ao Semiárido e os sistemas agroflorestais e de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), desenvolvido pela Embrapa em parceria com outras instituições, por exemplo, orienta agricultores de todo o Brasil sobre as melhores épocas e regiões para o plantio, reduzindo perdas causadas pelo clima. Base técnica para o crédito rural e o seguro agrícola, o Zarc gerou um impacto econômico positivo de R$ 7 bilhões para o Brasil em 2024. Esse compromisso se intensifica. Atualmente, a Embrapa lidera dezenas de projetos voltados à adaptação climática e à transformação ecológica da agricultura. Iniciativas como o sistema ILPF, implantado em 18 milhões de hectares, e o incentivo à agricultura regenerativa mostram que é possível unir produtividade, conservação e redução de emissões. 

A agricultura brasileira é movida pela ciência e a pesquisa agropecuária pública, realizada por instituições como a Embrapa, lidera esse processo. Novas frentes de pesquisa incluem automação, agricultura de precisão, bioinsumos — área que o Brasil já lidera mundialmente — e o desenvolvimento de sistemas agroalimentares cada vez mais sustentáveis. Para o enfrentamento de problemas cada vez mais complexos, a Empresa se desafia a explorar a fronteira do conhecimento, em áreas como inteligência artificial generativa, computação quântica, edição gênica e agricultura espacial. A emergência climática é reconhecida pela instituição como uma das grandes transições globais. 

O novo Plano Diretor (PDE 2024-2030) orienta a Embrapa a investir em tecnologias de adaptação, descarbonização e resiliência, em parceria com centros de pesquisa, produtores e formuladores de políticas públicas. Além da inovação tecnológica, a Embrapa intensifica sua atuação na cooperação internacional e na disseminação global de práticas sustentáveis. Durante o ano, em cada bioma do Brasil, vai discutir com especialistas e a sociedade as soluções disponíveis e onde devemos investir mais durante os Diálogos pelo Clima, série de eventos organizados pela Embrapa para ampliar o conhecimento a respeito da questão climática. A iniciativa vai contribuir para fortalecer a participação do Brasil na COP30, a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que acontece em novembro próximo, em Belém. 

Levaremos exemplos concretos que demonstram como a ciência tropical brasileira pode ser parte ativa da resposta à crise climática. Será uma oportunidade para mostrar ao mundo que a agricultura tropical, baseada em ciência, pode produzir mais, conservar mais e mitigar os efeitos do clima. Resiliência e sustentabilidade integram o DNA da agricultura tropical que projetamos e compartilhamos com o mundo. O sucesso em perseguir os objetivos de resiliência e sustentabilidade fez do Brasil um pilar para a segurança alimentar do planeta, além de ressaltar a experiência nacional como uma referência para outros países tropicais. 

Apesar desse sucesso, o desafio continua. A experiência acumulada, o conhecimento científico e a aposta constante na inovação colocam o Brasil em posição de liderança para enfrentar as novas fronteiras da agricultura sustentável. As ações integradas da Embrapa — da recuperação de pastagens degradadas ao fortalecimento da agricultura regenerativa — mostram que é possível conciliar produção, preservação e inclusão social. A ciência tropical brasileira, construída a muitas mãos, é e sempre será decisiva para que a agricultura continue sendo parte da solução para os desafios climáticos do planeta.

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