Economia
Uva brasileira deve ter competição “justa” com acordo Mercosul-UE
Região do Vale São Francisco, no Nordeste, deve ser beneficiada com envios ao mercado europeu
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com.br
14/01/2026 - 16:17

O acordo entre Mercosul e União Europeia, ainda pendente de formalização, tem sido comemorado pelos produtores e exportadores de frutas do Brasil. Isso porque o segmento é um dos que tendem a se beneficiar com a redução das taxas, ampliando um comércio que em 2025 rendeu mais de US$ 827 milhões e representou cerca de 60% de todo o volume de frutas brasileiras vendidas ao exterior.
“Todo mundo que exporta vai ganhar, seja grande, médio ou pequeno exportador”, destacou ao Agro Estadão o presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Guilherme Coelho.
Ele comenta que no caso da uva de mesa que sai do Brasil o acordo deve trazer efeitos imediatos de redução das alíquotas de importação que o bloco europeu impõe. Essas tarifas, atualmente, variam entre 8% e 14% dependendo do período do ano. A partir da vigência do acordo, elas serão zeradas, deixando o produto em pé de igualdade com outros players que também vendem para o espaço comum europeu.
“Essa tarifa da uva zerando, a competição com outros países se torna justa. Porque hoje, a África do Sul, Chile, Peru e Califórnia (Estados Unidos) mandam uva para o mercado europeu e pagam zero de imposto. Só o Brasil paga. Quando zerar, nós vamos entrar forte e mais competitivos”, acrescentou.
Para valer, o acordo ainda precisa ser assinado entre os representantes dos dois blocos, o que deve ocorrer no próximo dia 17, em Assunção, no Paraguai. Depois, cada país do Mercosul deve ratificar o acordo nos seus respectivos parlamentos, além do Parlamento Europeu também fazer o mesmo movimento. Uma vez que o Congresso brasileiro confirme o tratado, e o lado europeu também já tenha feito, o acordo começa a valer entre Brasil e União Europeia.
Sem cotas e tarifas reduzidas gradativamente
Diferente de outros produtos agropecuários, as frutas não têm uma cota com tarifas isentas. Isto quer dizer, que todo o volume exportado terá o benefício fiscal. No entanto, nem todas as frutas terão a alíquota zerada num primeiro momento — a uva de mesa é uma exceção, já que deve entrar sem barreiras tarifárias assim que o acordo entrar em vigor.
Na lista dos principais produtos exportados para a Europa, a manga é a de maior relevância, com mais de 204 mil toneladas, que renderam US$ 236 milhões. No entanto, o acordo não deve ter efeitos na questão tarifária dessa fruta, pois ela não paga o imposto de importação atualmente.
Exportações de frutas para União Europeia em 2025
| Fruta | Valor | Volume |
| Manga | US$ 236 milhões | 204,6 mil toneladas |
| Melão | US$ 165,1 milhões | 201,1 mil toneladas |
| Limão e lima | US$ 156,6 milhões | 159,3 mil toneladas |
| Uvas | US$ 71,4 milhões | 29,9 mil toneladas |
| Melancia | US$ 60,9 milhões | 92,9 mil toneladas |
Fonte: Abrafrutas
Já melão, limão e melancia, respectivamente, segundo, terceiro e quinto produtos mais relevantes na pauta exportadora, terão uma regressão gradativa das alíquotas. “Melancia e melão, que a gente paga 10%, em 10 anos, vai virar 0%. Então imagine, 2027 são 9%, 2028 vai ser 8%, 2029 é 7%, e aí vai caindo até chegar a 0%”, explicou o presidente da Abrafrutas. O limão vai sair dos 14% de tarifa para zero em sete anos.
Apesar do otimismo, Coelho ainda não faz uma previsão de quanto o setor deverá crescer com o acordo, já que questões de preço podem interferir na hora de escolher para qual mercado enviar as frutas. Mesmo assim, ele indica que produtores do Vale do São Francisco, no Nordeste, devem ganhar com a medida. “A cada 100 contêineres exportados de uva, 95 saem daqui desta região, que se chama Vale do São Francisco. Parecido com a uva, a cada 100 contêineres de manga que são exportados, 92 saem daqui da região do Vale do São Francisco”, destacou o presidente, que também é produtor de frutas nessa área.
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