Economia
Tarifa de 55% da China inviabiliza exportações fora da cota, diz associação
Segundo a Abrafrigo, limite imposto pelos asiáticos reduz em 500 mil toneladas o volume exportado pelo Brasil atualmente; Abiec e CNA também se posicionam
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com | Atualizada em 01/01/2026 às 09h24
31/12/2025 - 11:04

A tarifa de 55% que será aplicada pela China sobre a carne bovina importada acima da cota anual de 1,1 milhão de toneladas tornará as exportações brasileiras fora desse limite economicamente inviáveis. A avaliação é da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).
A medida, segundo o presidente-executivo da associação, Paulo Mustefaga, pode reduzir em mais de 30% os embarques ao principal destino das exportações do setor e provocar perdas próximas de US$ 3 bilhões em receita. “Com a nova regra, o limite inicial para 2026 cai para 1,1 milhão de toneladas, com reajuste anual de cerca de 2% nos dois anos seguintes. O que ultrapassar essa cota fica sujeito a uma tarifa de 55%, o que praticamente inviabiliza qualquer exportação fora do limite”, disse o executivo.
De acordo com dados da entidade, o Brasil deve encerrar 2025 com exportações entre 1,6 milhão e 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China. Esse volume deve gerar um faturamento estimado em cerca de US$ 9 bilhões. Enquanto isso, no total, as vendas externas do setor devem se aproximar de US$ 18 bilhões no ano. “É um impacto relevante sobre a receita do setor e sobre toda a cadeia produtiva, da indústria exportadora ao produtor rural”, destacou.
A preocupação, segundo a entidade, ocorre em um momento de mudança do ciclo pecuário, com expectativa de redução gradual da oferta nos próximos anos. “O produtor precisa de estímulo para investir em produção. Uma medida como essa acaba funcionando como um desestímulo para a cadeia, justamente em um período de transição do ciclo”, afirmou Mustefaga.
Embora reconheça avanços na abertura de novos mercados, a Abrafrigo avalia que a realocação imediata do volume excedente será difícil. Países como Estados Unidos — que recentemente retiraram as tarifas adicionais de 50% sobre as exportações brasileiras — e México aparecem como alternativas parciais, mas não suficientes para absorver, no curto prazo, o volume destinado à China. “São mercados importantes, mas não substituem rapidamente um destino que vinha absorvendo volumes crescentes”, disse o executivo.
Abiec e CNA enxergam reorganização dos fluxos do setor
Em comunicado conjunto, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) entendem que a aplicação das medidas de salvaguarda altera as condições de acesso ao mercado da China e impõe uma reorganização dos fluxos de produção e de exportação.
Segundo as entidades, “esses embarques dizem respeito a produtos com valor agregado e perfil distinto do consumo doméstico, associados à geração de emprego e renda no setor”. Elas reiteram, contudo, que a China permanece como o principal destino da carne bovina brasileira e um importante mercado para o funcionamento da pecuária nacional.
A nota explica que, pelo novo modelo, será adotada uma cota tarifária crescente nos três primeiros anos de vigência da medida. No primeiro ano, o limite será de 1,106 milhão de toneladas, com tarifa de 12% aplicada aos volumes dentro da cota. Já as exportações que excederem esse teto estarão sujeitas a uma sobretaxa de 55%, resultando em uma tarifa total de 67% fora da cota. “Nesse cenário, passam a ser necessários ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”, salientam Abiec e CNA.
Do ponto de vista estrutural, as entidades lembram que a pecuária bovina ocupa posição central na economia brasileira. A atividade leva renda a milhares de municípios, sustenta cerca de 7 milhões de empregos diretos e indiretos e tem papel relevante na interiorização do desenvolvimento econômico. “Aproximadamente 70% da carne bovina produzida no Brasil é destinada ao mercado interno, enquanto cerca de 30% é exportada, evidenciando o caráter complementar das exportações e sua importância para o equilíbrio e o funcionamento da cadeia pecuária nacional”, apontam.
Por fim, Abiec e CNA reiteram que seguirão acompanhando a implementação das medidas, atuando diretamente junto ao governo brasileiro e às autoridades chinesas para reduzir os danos que essa sobretaxa causará aos pecuaristas e exportadores brasileiros e para preservar o fluxo comercial historicamente praticado.
Cota tarifária exige ação rápida
Para a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a cota tarifária chinesa exige “reação rápida para evitar instabilidade no mercado e efeitos no abate e na renda do produtor no início de 2026”.
Em nota, a FPA afirma que irá atuar imediatamente junto ao MAPA, Itamaraty e à área de comércio exterior do governo para abrir um canal de negociação com as autoridades chinesas e buscar soluções que preservem previsibilidade ao setor. A bancada ressalta ainda que irá solicitar um levantamento técnico sobre o fluxo recente das exportações para embasar a estratégia brasileira e reduzir riscos de redução e desorganização de mercado.
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