Economia
Suco de laranja: apesar da isenção, setor ainda perde R$ 1,5 bilhão com tarifas
Prejuízo chega através de subprodutos do suco concentrado que não foram isentos, diz CitrusBr
Redação Agro Estadão | Atualizada às 13h52
12/08/2025 - 12:45

Apesar do suco de laranja ter sido isento das tarifas de 50% impostas pelo governo Trump sobre as importações de produtos brasileiros, o setor pode registrar perdas imediatas de R$ 1,54 bilhão com o tarifaço, segundo estimativa da CitrusBR. Esse impacto chega, principalmente, através da exportação dos subprodutos.
Para o cálculo, a entidade considerou os embarques dos subprodutos do setor na safra 2024/25 que, renderam US$ 177,8 milhões — equivalente a R$ 973,6 milhões. Soma-se a esse valor o impacto estimado da tarifa de 10% sobre o suco de laranja, calculado em US$ 103,6 milhões (R$ 566,7 milhões). Os dados consideram o volume registrado pela Secretaria de Comércio Exterior.
Conforme Ibiapaba Netto, presidente da CitrusBR, o setor trabalha com dois produtos: o suco não concentrado, extraído diretamente da fruta, sem passar por nenhum processo, e o suco concentrado, que passa por um processo, resultando em uma bebida mais densa, com 66% de partes sólidas.
Esse produto mais denso, passa por um processo de ‘desmontagem’. “Então, ele sai da fábrica, a gente concentra o suco, tira o aroma, as células cítricas, e vende tudo isso à parte e remonta no destino”, explicou Neto durante o lançamento da SP Agro — Frente Parlamentar da Agropecuária Paulista, na noite de segunda-feira, 11.
Atualmente, a parte de células, óleos essenciais e essências é dividida em dois grupos. O primeiro corresponde aos perfumes — todas as fragrâncias percebidas pelo olfato têm origem na parte cítrica, por meio dos óleos essenciais. O segundo grupo corresponde aos aromas utilizados em alimentos, presentes nos produtos consumidos.
No caso dos óleos essenciais, os Estados Unidos respondem por fatias expressivas das exportações brasileiras desses insumos: cerca de 36% no caso do óleo essencial prensado, 39% para o óleo comum e quase 60% para o d-limoneno — utilizado em fragrâncias e solventes naturais. “Pode ser um impacto muito grande para esses setores”, reforça Netto.
Além dos subprodutos, o impacto projetado pela CitrusBR também considera a tarifa de 10% sobre o suco de laranja, em vigor desde abril, e a tarifa de US$ 415 por tonelada de suco paga para uma proteção da citricultura da Flórida, afetada pelo greening.
Retração de preços
Soma-se ao quadro das tarifas, a retração nos preços internacionais, atribuidos pela CitrusBR ao consequente aumento de 36% na oferta de frutas em relação à safra anterior, segundo dados do Fundecitrus.
De acordo com a Secex, o preço médio da tonelada exportada para os Estados Unidos na safra passada foi de US$ 4.243. Na cotação do dia 07 de agosto, o valor caiu para US$ 3.387 — uma redução de 20,17%. Mantido o volume exportado, a perda estimada de receita com a desvalorização é de US$ 261,8 milhões, o equivalente a R$ 1,43 bilhão.
“Somando os efeitos das tarifas à queda nas cotações, as perdas totais do setor podem ultrapassar R$ 2,9 bilhões”, ressaltou a entidade, em nota.
Sobre o futuro
Ibiapaba reconhece que, apesar das perdas, há setores do agronegócio com uma situação mais crítica. Porém, ele alerta que não há como saber por quanto tempo a isenção irá durar. “Qualquer coisa que eu falar aqui de futuro, uma cartomante, a bola de cristal, tem exatamente o mesmo efeito, porque a verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer”, disse. “A gente tem uma parte ainda para caminhar, porque, obviamente, isso pode ter algum impacto em relação aos produtos que são consumidos no mercado americano, mas pelo menos uma grande parte a gente conseguiu se livrar neste primeiro momento”, complementou.
Segundo o dirigente, dois aspectos foram fundamentais para que se alcance, neste momento, a isenção da aplicação da tarifa de 50%. O primeiro é a interdependência das cadeias produtivas, uma vez que 56% do consumo norte-americano de suco de laranja é abastecido pelo suco brasileiro. Assim, a tarifa colocaria em risco a sobrevivência de empresas americanas consolidadas, como Coca-Cola e Pepsi.
O segundo foi a forte articulação do empresariado americano e brasileiro, pois o setor investe nos Estados Unidos há mais de 30 anos, com fábricas, terminais portuários e outros empreendimentos bilionários de capital estrangeiro no país. “Em um momento em que o governo norte-americano incentiva novos investimentos, não faria sentido prejudicar tanto empresas genuinamente americanas quanto companhias estrangeiras que atuam no mercado local e mantêm presença significativa há décadas”, salientou.
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