PUBLICIDADE

Economia

UE freia acordo com o Mercosul ao citar sustentabilidade e efeito intimidador

Para o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, a medida pode atrasar a implementação do acordo Mercosul-UE em até dois anos

Nome Colunistas

Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com | Atualizada às 15h35

21/01/2026 - 13:47

Acordo poderia gerar R$ 20 bilhões ao Brasil em dez anos, aponta Insper. Foto: Adobe Stock
Acordo poderia gerar R$ 20 bilhões ao Brasil em dez anos, aponta Insper. Foto: Adobe Stock

Argumentos ligados à sustentabilidade voltaram a ser utilizados por deputados da União Europeia para atrasar o acordo comercial entre o bloco europeu e os países do Mercosul. 

Depois de 26 anos, o acordo foi oficialmente assinado no último sábado, 17, no Paraguai, prometendo criar a maior zona de livre comércio mundial. Segundo o Insper Agro Global, em dez anos, o tratado poderia gerar cerca de R$ 20 bilhões para o Brasil, potencializando as exportações de carnes, etanol, açúcar e lácteos, via cotas e redução de tarifas.

CONTEÚDO PATROCINADO

Entretanto, na resolução enviada ao Tribunal de Justiça europeu nesta quarta-feira, 21, os eurodeputados dizem que o acordo pode limitar, na prática, a autonomia regulatória da União Europeia, criando um risco de que políticas ambientais, sociais e de saúde pública sejam enfraquecidas ou travadas por medo de retaliações comerciais. 

Essa ação, segundo o colunista do Agro Estadão e ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, “atrasa bastante” a implementação do acordo. “Deve levar uns dois anos, a depender da Corte”, afirma. 

Marcelo Winter, sócio da área de agronegócio do VBSO Advogados, explica que, caso o Tribunal de Justiça da União Europeia identifique qualquer vício no texto do tratado, o acordo terá de ser alterado e submetido a uma nova rodada de negociações entre os blocos, o que deve prolongar ainda mais o processo. 

PUBLICIDADE

Se, por outro lado, o tribunal concluir que não há irregularidades, o texto retorna ao Parlamento Europeu para seguir o rito legislativo e ser convalidado. “Independentemente da decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia, a gente vai ter uma demora, um rito que vai atrasar o processo de implementação deste tratado entre os blocos”, destaca, ressaltando que a medida pode esfriar o ânimo dos setores que devem ser beneficiados com o acordo. 

A diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira, Patrícia Arantes, diz que o setor já esperava uma contestação. Segundo ela, a judicialização do acordo reflete diferenças profundas entre os modelos regulatórios ambientais dos dois blocos. “O foco ambiental atendido pelos países do Mercosul é muito distinto daquele adotado pelos países da União Europeia. Isso tem sido objeto tanto de protestos de agricultores, principalmente na França e em outros países, quanto de questionamentos baseados na própria legislação ambiental europeia, quando comparada, por exemplo, ao nosso Código Florestal”, afirma.

Efeito “intimidador” 

Na resolução, os eurodeputados afirmam que a cláusula de reequilíbrio do acordo com o Mercosul é mais ampla do que as previstas em outros acordos comerciais da União Europeia e também do que as regras usadas atualmente na Organização Mundial do Comércio (OMC). 

Segundo o documento, enquanto no sistema da OMC esse tipo de mecanismo nunca foi usado para contestar leis ambientais ou de sustentabilidade, o acordo com o Mercosul abriria espaço para questionamentos mesmo quando a UE adotasse medidas para proteger o meio ambiente, a saúde ou a segurança alimentar. 

Os parlamentares alertam ainda para a possibilidade de países do Mercosul exigirem compensações por impactos comerciais dessas políticas, o que, segundo o grupo, poderá levar o Parlamento e o Conselho a evitar novas regulações ou a enfraquecer propostas em discussão. Isso, segundo os eurodeputados, geraria um efeito intimidador. O documento traz ainda o receio de retaliações comerciais também poderia pressionar a Comissão Europeia a rever, suspender ou alterar leis já em vigor, inclusive normas ligadas à proteção de direitos fundamentais.

O sócio de agronegócio do VBSO Advogados disse ao Agro Estadão que a decisão dos eurodeputados deixa evidente a força de determinados setores da economia europeia que são contrários ao livre comércio global. “A narrativa de que o tratado aprovado impede políticas socioambientais mais restritivas por parte da União Europeia não reflete a realidade do acordo. É mais um subterfúgio utilizado pelos contrários ao tratado para proteger ainda mais setores que se sintam prejudicados, como é o caso de alguns setores do agronegócio”, salientou. 

PUBLICIDADE

Nesse contexto, agricultores de diversos países da União Europeia têm realizado protestos contra o tratado com o Mercosul, alegando concorrência desleal e preocupação com padrões ambientais e sanitários. O setor agrícola europeu teme que a entrada de produtos sul-americanos, com custos de produção mais baixos, pressione preços e reduza a competitividade dos produtores locais.

Para Patrícia Arantes, além das divergências regulatórias, há fatores estruturais que ampliam a resistência europeia ao acordo. “A gente percebe uma distinção muito grande na possibilidade de produção entre o Mercosul e a União Europeia, especialmente em relação à escala e à produtividade. No momento atual, com mais instabilidades políticas e geopolíticas, isso acaba gerando ainda mais protecionismo”, destaca.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Descarte de cebola em Santa Catarina chama atenção para crise no setor

Economia

Descarte de cebola em Santa Catarina chama atenção para crise no setor

Colapso no valor de mercado do produto preocupa agricultores e motiva situação de emergência na Capital da Cebola

Governo estuda regular cota de exportação de carne à China

Economia

Governo estuda regular cota de exportação de carne à China

Proposta encaminhada pelo Mapa ao Gecex visa evitar uma corrida desenfreada de exportações de carne bovina ao gigante asiático

Banco do Brasil renegocia R$ 35,5 bilhões em dívidas rurais

Economia

Banco do Brasil renegocia R$ 35,5 bilhões em dívidas rurais

Banco reportou que 29 mil operações foram prorrogadas, mantendo o fluxo de caixa dos produtores rurais

Crédito rural: desembolso no plano safra 2025/26 até janeiro recua 12,5%

Economia

Crédito rural: desembolso no plano safra 2025/26 até janeiro recua 12,5%

No total, foram desembolsados 51,2% dos R$ 405,9 bilhões previstos para a safra, sem incluir CPRs

PUBLICIDADE

Economia

Importação de biodiesel seria mais viável se houvesse problemas com insumos, indica analista

IBP não vê justificativa econômica e técnica para manter a proibição da importação de biodiesel e pede que tema volte para a ANP

Economia

Exportações de milho começam 2026 acima da média de cinco safras

Irã lidera compras de milho do Brasil em janeiro, mas cenário geopolítico preocupa e pode afetar o ritmo das exportações para o país

Economia

Empregos na citricultura avançam 32% no primeiro semestre da safra 2025/26

São Paulo lidera a geração de empregos na citricultura na safra 2025/26, mas é Mato Grosso do Sul que registrou a maior alta no período

Economia

Tilápia: poder de compra do produtor atinge patamar recorde 

Cenário reflete queda no custo de produção e frente a demanda aquecida, indica o Cepea

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.