Economia
Quaresma sustenta cotações e impulsiona mercado de tilápia e ovos
Para o frango é esperado impacto limitado, mas com rentabilidade preservada diante da queda do milho e da competitividade elevado frente a carne bovina
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
19/02/2026 - 16:07

O aumento da demanda sazonal por ovos e pescados nos próximos quarenta dias, período de Quaresma iniciado no Brasil nesta semana, deve manter a evolução dos preços dessas proteínas, conforme observado nos últimos dias.
Dados do Cepea, compilados pela HN Agro, mostram que em janeiro deste ano, o preço médio da caixa de 30 dúzias de ovos branco era R$ 108,20 — abaixo das medianas de dezembro (R$ 119,80) e do mesmo período do ano passado (R$ 142,70).
No entanto, assim como observado nos três anos anteriores, os preços iniciaram uma trajetória de alta. Considerando os dados até o dia 13 de fevereiro, o preço médio do ovo branco chegou a R$ 147,20. “Agora no começo do ano, a gente vê um aumento do preço dos ovos. Isso está relacionado até ao efeito de substituição de outras proteínas, com a renda mais impactada nesse período e a sazonalidade da quaresma também”, explica Hyberville Neto, diretor da HN Agro.

Fonte: elaborado por HN Agro, com dados do Cepea
Do lado dos custos, o cenário não indica aperto. A relação de troca medida em sacas de milho por caixa de ovos ficou em R$ 8,72 em janeiro de 2026 – melhor patamar que o de 2023, embora ainda abaixo dos níveis mais elevados registrados nos dois últimos anos.
Ainda assim, segundo Hyberville, não há distorções relevantes no início deste ano, deixando claro que o mercado não está pressionado pelo custo da ração. “Isso demonstra que, como os preços dos ovos subiram e o milho vem mais fraco, o ajuste de produção não seria o grande motivo [para alta de preço]. […] É a questão de aumento de demanda que pode influenciar esse mercado e deve influenciar”, afirma.
Tilápia é a mais beneficiada
O mesmo movimento é observado no caso da tilápia, que responde por cerca de 60% da produção brasileira de pescados. Os dados apontam que, após um 2025 de preços mais acomodados no primeiro semestre, as cotações voltaram a ganhar fôlego na virada para 2026.
No oeste do Paraná, principal estado produtor de tilápia do País, a média de preços saiu de R$ 7,78 em janeiro de 2025 e R$ 7,68 em fevereiro para, respectivamente, R$ 8,71 e R$ 8,73 nos dois primeiros meses de 2026. O patamar supera ainda os valores observados no início de 2023, ficando abaixo apenas do verificado em 2024.

Fonte: elaborado por HN Agro, com dados do Cepea
O movimento de alta se antecipa frente aos últimos dois anos reforça a leitura de que a demanda sazonal da Quaresma já encontra um mercado mais ajustado. “De todas as proteínas, se a gente for destacar, a que seria mais beneficiada com esse período de Quaresma, sem dúvida, é o pescado”, destaca Neto.
Ele pondera, no entanto, que há a questão comercial com os Estados Unidos, principal destino das exportações de tilápia brasileira, que precisa ser acompanhada. No ano passado, o governo Trump impôs tarifas adicionais sobre os embarques de alguns produtos brasileiros, atingindo o desempenho de diversos setores. E, apesar de ter revogado a tarifa sobre alguns itens, a tilápia, assim como o café solúvel, seguem penalizados.
Quaresma com impacto limitados
Enquanto isso, o frango, igualmente apontado como uma carne alternativa à bovina neste período do ano, deve apresentar acomodação de preços após o pico de consumo sazonal no fim de ano. No entanto, espera-se ainda operações com margens consideradas confortáveis em razão do recuo no preço do milho no mercado interno.
No mercado de frango, o efeito da Quaresma tende a ser limitado. O diretor da HN Agro não acredita que pode haver substituição pontual, mas não um impacto relevante ao longo de várias semanas, ao contrário do que ocorre com ovos e pescados. “Há quem diga que existe uma preferência para o frango em detrimento da carne bovina, mas muita gente também não come o próprio frango. Então, eu acho que é um pouco subjetivo esse impacto para o frango”, salienta.
Do lado dos custos, o cenário segue relativamente confortável. A relação de troca — medida em quilos de milho por quilo de frango congelado — está em torno de R$ 6,3. Esse patamar é leventemente superior ao observado em 2025 e abaixo do observado em 2024.

Fonte: elaborado por HN Agro, com dados do Cepea
Como o milho representa o principal componente da ração, esse indicador é determinante para a rentabilidade da cadeia. O especialista reforça que, como o preço tem recuado nos últimos meses, o cenário ajuda a sustentar as margens no campo. “A gente está falando de um mercado que não deve ter um enxugamento muito importante de produção, porque apesar dos preços estarem caindo, existe esse estímulo à produção e existe competitividade frente à carne bovina, porque o preço do frango veio caindo e a carne bovina veio firme”, explica.
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