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Economia

O Boi China será o novo Boi Brasil?

O presidente do Grupo Pecuária Brasil avalia genética e potencial do setor e diz que o pecuarista brasileiro superou as exigências da China ao produzir carne de extrema qualidade

11 minutos de leitura

02/07/2024 | 11:26

Por: Sabrina Nascimento

Foto: Grupo Pecuária Brasil/Divulgação

 Para o presidente do Grupo Pecuária Brasil (GPB), os pecuaristas brasileiros fizeram muito bem o dever de casa e, não é à toa, que o país tornou-se o principal exportador dessa proteína. “Fizemos tão bem o dever de casa que, hoje, temos mais matéria-prima de boi China do que a demanda”, avalia Oswaldo Furlan Jr. Por isso, ele reflete se o boi China não será o “Boi Brasil”.

À frente do GPB, o pecuarista defende que o mercado interno também consuma essa carne de extrema qualidade que vai para exportação. Nesta entrevista para o Agro Estadão, Oswaldo Furlan Jr fala sobre a qualidade da carne brasileira, a importância do investimento em genética e outras tecnologias, além da criação do Indicador do Boi. A iniciativa tem o objetivo de informar e ser uma referência de preço da arroba nas principais praças de comercialização do Brasil. 

Furlan Jr também falou sobre a atual mudança no ciclo pecuário e como o setor está se organizando em prol da criação de um Fundo Garantidor em caso de verificação de aftosa, já que o rebanho bovino do Estado de São Paulo foi reconhecido como livre de aftosa sem vacinação. 

O Grupo Pecuária Brasil (GPB) existe há 10 anos e atua no fortalecimento e desenvolvimento sustentável da pecuária brasileira. A entidade reúne pecuaristas, técnicos, comerciantes, prestadores de serviços e profissionais atuantes na cadeia nacional e internacional. Ao todo, 16 mil profissionais conectados em 192 municípios de 17 estados brasileiros, além do Distrito Federal e mais três países: Bolívia, Uruguai e Estados Unidos.

Agro Estadão – Como foi o desenvolvimento do Indicador do Boi? E como tem sido o trabalho do Grupo Pecuária Brasil?
Oswaldo Furlan Jr. – O GPB surgiu com a proposta de união de classes. Nós estamos na estrada há dez anos, quebrando paradigmas e mostrando que é possível, assim como outras entidades, como a família da soja, que faz um trabalho bacana com seus associados, a pecuária também pode fazer. Realizamos esse trabalho de área de classe, buscando que os pecuaristas tenham representatividade nos órgãos que decidem a política da pecuária, sejam eles estaduais, federais ou municipais. Há quatro anos, a Datagro nos convidou para uma parceria se tornando uma empresa pacificadora do valor da arroba praticada no comércio brasileiro. Antes, fazíamos esse trabalho sem a expertise que a consultoria agora nos oferece, com análise estatística, profissionalismo, transparência e credibilidade. Hoje, temos à disposição no mercado o Indicador do Boi, e nosso sonho é que um dia ele se torne também um indicador de bolsa. Acredito que, com o apoio da Datagro, conseguiremos alcançar esse objetivo.

Agro Estadão – E como está o acesso a esse indicador do boi por parte dos pecuaristas?
Oswaldo Furlan Jr. –
Nós temos uma plataforma que, atualmente, está disponível através do Instagram e das lojas de aplicativos sem custo, porque é para facilitar, inclusive, que o produtor passe a informar os seus negócios de compra ou venda do boi em tempo real. Às 18h, sai o índice diário e no final do mês, o índice do mês. É uma facilidade que o produtor tem de informar suas negociações. São seis etapas de informação, mas de forma que o produtor, que está lá dentro da porteira, consiga com facilidade informar as suas negociações que vão amparar ele na tomada de decisão, saber se o mercado vai subir, se vai baixar, se é hora de vender, se é hora de comprar, vai conseguir ter também as suas médias de venda. Ele [indicador do boi] oferece esse material estatístico para poder melhorar a tomada de decisão do produtor.

Agro Estadão – E somente os pecuaristas associados conseguem acessar o indicador ou um criador que não é associado pode ter acesso também?
Oswaldo Furlan Jr. –
Essa é a grande vantagem dessa parceria: adaptar essa plataforma e, em nosso acordo, democratizar a informação. Então, independentemente de você ser um associado ou não, você tem acesso e pode participar das negociações. Basta ter uma cabeça de gado, uma inscrição estadual, ser de fato um pecuarista e informar a negociação. Se a pessoa vende mensalmente, semestralmente ou anualmente, sempre que fizer uma venda, deve oferecer aquela negociação para o mercado, para balizar os preços e dar um referencial. E também ajuda a servir de base de liquidação de contratos, não só contratos públicos, mas como privados. Hoje, nós temos vários frigoríficos usando o indicador do boi para poder fazer os contratos a termo.

Agro Estadão – E qual é o principal diferencial desse indicador se comparado com outros indicadores?Oswaldo Furlan Jr. – Todos são bons, todos tem muito, muito trabalho bem feito nesse sentido. A da Datagro tem o diferencial de um menor desvio padrão. Hoje, os valores apresentados representam a realidade mais próxima do mercado como um todo, de cada região, de cada estado. Isso porque nós temos hoje uma parceria entre a indústria e o produtor. O produtor, quando informa, ele faz o check out, ver se a informação da indústria foi correta e a indústria, um volume que nós estamos recebendo informação ultrapassa hoje a 65% do mercado de abate do dia. Então nós temos aí um número de amostragem muito maior e através da média ponderada, ela nos dá uma representação muito mais exata, muito mais correta do que está hoje o preço da arroba em todo o país.

Agro Estadão – Como você avalia o mercado da pecuária no Brasil? A gente tem um movimento de mudança de ciclo. Como que está isso?
Oswaldo Furlan Jr. – Nós nos preparamos muito para atender o mercado chinês, que está indo bem, com exportação em níveis excelentes, mas temos medo de perder o mercado. Fizemos o dever de casa tão bem feito que hoje temos mais matéria-prima de boi China do que a demanda. Assim, eu acho que o mercado vai se ajustar com todos esses fatores. A gente está vendo muito abate de fêmeas ainda, porque as pessoas estão desestimuladas a continuar com a atividade em razão dos preços baixos. Isso também é um fator que influencia no preço da arroba. Mas o principal é que o Brasil passou a ser o maior exportador de carne. Eu acredito que qualquer recuperação interna do mercado e da economia interna do país vai dar uma alavancagem no consumo interno, que é o nosso grande mercado, responsável por mais de 70%, e com isso os preços voltam a se recuperar para trazer rentabilidade ao produtor. Hoje o mercado da arroba vem sendo um pouco pressionado porque a concentração de mercado está bem evidente – os grandes grupos cada vez adquirindo mais unidades. Nós temos, em breve, a união da Marfrig e Minerva, que com certeza, em algumas cidades e estados, vai ser, de primeiro momento, prejudicial para o produtor. Isso não resta dúvida, mas é uma coisa que, mesmo da forma que está ocorrendo, eu sou a favor, porque sou a favor do livre mercado. No primeiro momento vai ser difícil, mas depois a gente vai tentar se ajustar. Os produtores precisarão ter novas iniciativas, adotar novas tecnologias para poder suportar essa concentração.

Agro Estadão – E essa concentração de mercado é um ponto de alerta para o setor pecuário ou já existem ações sendo feitas por parte dos pecuaristas e da sua própria associação para mitigar os danos?
Oswaldo Furlan Jr. – A gente tentou, mas existe um desequilíbrio de força entre os pecuaristas e as indústrias. Tentamos fazer várias frentes para manter como está, mas acredito que a única forma de a gente regular esse mercado é fortalecer as pequenas e médias indústrias, abrindo mais certificações para as indústrias exportarem, buscando mais mercados e alavancando as empresas que têm potencial para crescimento, que têm gestão, lucro positivo no final do ano e consiga assim, de fato, não trazer prejuízo para o produtor. Uma compra à vista que o produtor seja bem remunerado e faça com que haja mais concorrência entre as indústrias. 

Agro Estadão – E na sua fala anterior, você mencionou o investimento no boi China, que podemos atribuir ao trabalho de melhoramento genético? Como você vê o trabalho de genética sendo desenvolvido no Brasil para potencializar ainda mais o mercado pecuário?
Oswaldo Furlan Jr. –
Sem dúvida, depois que as grandes empresas de genética chegaram no país, que são as empresas que vendem sêmen, a genética como um todo melhorou. O boi China é China porque ele não pode ter mais do que quatro dentes. Ele tem que ser um boi jovem, um boi precoce. E quando você mata um boi jovem, você melhora muito a qualidade de carne e a maciez. Então, eu acho que o boi China, que hoje é tão falado, vai se tornar um boi Brasil também a curto prazo, porque os diferenciais de preço estão muito grandes entre um boi chinês e um comum. Não se compensa criar um bovino comum. O pecuarista tem que trabalhar com uma forma que busca aquela remuneração maior pela arroba. Então, o boi China hoje é uma referência, mas nada mais é do que um boi que deve ser abatido com menos de 30 meses e deve ser oferecido também à população do mercado interno para que sejam beneficiadas com uma carne de qualidade. Não adianta a gente fabricar a melhor carne e só exportar. Fizemos o dever de casa tão bem feito que hoje temos mais matéria-prima de boi China do que a demanda.

Agro Estadão – E quais são as perspectivas na pecuária para o segundo semestre? 
Oswaldo Furlan Jr. –
Nós temos uma necessidade de haver uma recuperação de preço, porque hoje os investimentos na pecuária são a moeda de troca. A arroba versus fertilizantes, versus óleo diesel, mão de obra, enfim, todos os insumos da pecuária estão penalizados um pouco. Então, nós precisamos de uma recuperação de preço. Eu não sou a favor de uma arroba alta porque ela inviabiliza o consumo da carne, acho que nós temos só que pôr um pouco de margem no nosso setor, que está sem. Tanto é que hoje os confinados que fazem a engorda em 100 dias não estão tendo margem. Só conseguiram fazer algumas engordas porque o milho veio de um preço bom, que é o balizador. E aí as pessoas fizeram uma trava e conseguiram fechar o boi. Mas é muito preocupante se o milho voltar a subir vai tirar uma grande parte da engorda desses animais.

Agro Estadão – E quais pautas em prol do setor estão em discussão atualmente?
Oswaldo Furlan Jr. –
Nós temos uma pauta que sempre apresentamos no início de cada governo e apresentamos ao governo federal e aqui em São Paulo ao governo do Tarcísio [de Freitas], que é a regularização da questão do ICMS. Nós estamos sendo muito penalizados, porque cada estado tem uma alíquota, então, cria uma dificuldade muito grande de aquisição, compra de insumos de bovinos, matéria prima para a indústria em razão de diferencial de alíquota. Tem outro ponto, que vai ser a criação, pelo estado, do Fundo Garantidor em caso de febre aftosa, porque tivemos o reconhecimento de livre de aftosa sem vacinação. Nós íamos criar um fundo privado para poder garantir qualquer problema que houvesse, mas o governador saiu na frente e tomou a liderança. Ele acha melhor que esse fundo seja gerido pelo próprio estado para poder garantir toda a cadeia e não só a ponta final.

Agro Estadão – Na sua opinião, a gestão desse fundo pelo governo é a melhor alternativa?
Oswaldo Furlan Jr. –
É a melhor porque quando você vai arrumar os recursos para poder deixar de garantir, em caso de um problema de capital, você vai pôr a mão no bolso do pecuarista. E aí o pecuarista já está sacrificado, já está com dificuldade. Não é um momento de trazer mais um ônus. E o estado tem como fazer isso e com muita propriedade, deixando essa garantia, que é um fundo à disposição em caso de um eventual problema. As empresas que estavam trabalhando conosco para poder fazer um seguro privado em relação a este assunto estavam um pouco receosas, porque não tinham tanta previsibilidade de quanto seria o valor de uma indenização dessas. É uma coisa muito séria, porque qualquer problema atrapalha a exportação do estado inteiro e até do país, então, é um negócio muito sério que estamos tratando com muito zelo.

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