Economia
Milho redesenha o mapa da produção de etanol no Brasil
Expansão do etanol de milho vai além das fronteiras do Centro-Sul e deve se aproximar de etanol de cana em dez anos, projeta Datagro
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
21/10/2025 - 16:23

“A rápida expansão do etanol de milho está mudando a escala de produção de etanol no Brasil”. Essa foi a primeira observação feita por Plínio Nastari, presidente da Datagro Consultoria nesta terça-feira, 21, durante painel da 25ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol.
A afirmação antecedeu dados que mostram como, até recentemente, a cadeia de etanol era dominada pela cana-de-açúcar no eixo histórico do Centro-Sul do País. Hoje, no entanto, a indústria se interioriza e ganha força em regiões tradicionalmente ligadas à produção de grãos.
Segundo levantamento da Datagro, o Brasil conta, atualmente, com 25 plantas de etanol de milho em operação, 18 em construção e 19 em fase de projeto. Somadas, as unidades poderão elevar a capacidade instalada para 24,7 bilhões de litros de etanol de milho até 2034, processando cerca de 56,6 milhões de toneladas do grão, conforme projeções da consultoria. “Isso faz com que, em 2034/2035, a produção de etanol de milho praticamente se aproxime da produção atual de etanol de cana”, disse o Nastari.
Na safra 2024/25, a produção de etanol no Brasil chegou a 37,3 bilhões de litros, de acordo com dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). Esse volume foi dividido em:
- etanol de cana: 29,1 bilhões;
- etanol de milho: 8,2 bilhões.
A projeção da Datagro para a safra 2025/26 é de 26 bilhões de litros de etanol de cana e 10,2 bilhões de litros de etanol de milho, considerando as regiões Centro-Sul e Nordeste. Até dezembro de 2026, novos projetos que devem entrar em operação deverão adicionar mais cinco bilhões de litros de capacidade instalada à projeção para o etanol de milho.
Onde há grãos, há etanol de milho
O presidente da Datagro observa que, apesar de haver uma concentração das plantas de etanol de milho em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, observa-se uma expansão para outros estados. Inclusive para estados do Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, onde a produção de grãos se expandiu nos últimos anos.
O apontamento de Nastari fica nítido no mapa elaborado pela Unica, que aponta os estados brasileiros produtores de etanol.

Essa descentralização do Centro-Sul, na visão de Nastari, tende a reduzir custos logísticos e aumentar a disponibilidade local de combustível. “O que significa que a gente vai ter etanol disponível, localmente, nesses outros estados”, explica.
Custos
Um outro ponto que explica a expansão do etanol de milho é o custo. Enquanto o etanol de cana depende de estrutura verticalizada e da colheita sazonal, o de milho opera com custo variável, atrelado à cotação do grão e à valorização dos subprodutos, como o DDG — grãos secos de destilaria —, utilizado na ração animal.
De acordo com cálculos da Datagro, o custo operacional do etanol de milho varia hoje entre R$ 1,82 e R$ 2,09 por litro, dependendo da localidade. Em Sorriso (MT), principal polo produtor do Centro-Oeste, por exemplo, o milho cotado a R$ 51 por saca permite um custo médio de R$ 1,82 por litro.
Esse valor considera créditos relevantes com a venda de DDG, avaliado em torno de R$ 1.300 por tonelada, e de óleo de milho, cotado a cerca de R$ 5.550 por tonelada. Mesmo em um cenário menos favorável — com queda dos preços dos subprodutos para R$ 1.000 e R$ 4.500, respectivamente —, o custo do etanol de milho se manteria competitivo, entre R$ 2,02 e R$ 2,30 por litro.
Em comparação, o etanol de cana-de-açúcar apresenta custo operacional de aproximadamente R$ 2,86 por litro, podendo atingir R$ 3,23 por litro quando incluídos encargos financeiros e depreciação.
Para Nastari, entretanto, a diferença de custo não representa ameaça, mas sinal de complementaridade produtiva. ”As usinas de cana têm a vantagem de contar com bagaço e palha como fonte de energia, enquanto o milho oferece flexibilidade de operação e aproveitamento contínuo das plantas industriais”, disse. “Nas usinas flex, que fazem etanol de milho junto com etanol de cana, e que usam bagaço em vez de cavaco de madeira, você tem o benefício de não ter que comprar o bagaço. Ah, mas o bagaço tem custo zero? Não, ele tem custo de oportunidade, que é geralmente dado pela bioletricidade ou a venda do bagaço”, acrescentou.
O futuro do setor com a integração cana e milho
Na visão do presidente da Datagro, o provável “modelo vencedor”, daqui a 20 ou 30 anos, será o que integrar os dois sistemas.
Nesse sentido, o milho deve ser tratado como uma “quase-cana”: uma matéria-prima que dispensa plantio próprio, mas exige gestão de compra eficiente. Essa integração, diz ele, prolonga o período de safra, melhora o uso da capacidade instalada e reduz a ociosidade industrial.
O desafio, no entanto, é garantir mercados para absorver a oferta crescente. “Os mercados existem. O que precisamos é de timing, fazer com que a materialização desses mercados seja capaz de absorver a produção que está vindo”, afirmou.
Um mercado potencial para absorver a produção é dos veículos, visto que cerca de 85% da frota atual de veículos leves no Brasil é flex. Além disso, Nastari acredita ainda que a reforma tributária, ao eliminar incentivos estaduais até 2032 e uniformizar o IVA — que irá unificar cinco impostos no país —, pode estimular o consumo do etanol hidratado, cuja participação na frota já chegou a 41,5%.
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