Economia
Desbloqueio de tarifaço do Agro passa por mercado de etanol; entenda
Especialistas ouvidos nesta segunda-feira, 8, pelo Conselho do Agronegócio da Fiesp indicam que impasse com os EUA pode se intensificar
Redação Agro Estadão
08/09/2025 - 17:27

Após a reunião de defesa da seção 301 realizada na última semana nos Estados Unidos, lideranças brasileiras têm escutado que o mercado de etanol deve ser uma das condicionais para uma reversão nas tarifas de produtos que envolvem o agronegócio. De acordo com o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Rafael Cervone, “mexer no mercado de etanol” deve estar entre os itens da negociação.
O tom da conversa foi trazido por Cervone durante a reunião do Conselho Superior de Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta segunda-feira, 08. Ele participou da comitiva brasileira que esteve em Washington (EUA) para tratar das tarifas americanas ao Brasil. “Estamos abrindo um novo canal de negociação”, destacou.
Quem também esteve presente no encontro da Fiesp foi o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele defendeu um diálogo mais intenso com os norte-americanos expondo as consequências de um afastamento entre Brasil e Estados Unidos. Na visão de Freitas, o vácuo na relação pode aproximar ainda mais a China do Brasil.
“A partir do momento que o americano fecha a porta para nós, ele está abrindo a porta para o maior concorrente dele justamente nesse quesito e a gente vai ter o chinês ficando cada vez mais forte”, afirmou o governador
Riscos pela frente
Outro participante da reunião foi o professor do Insper Agro Global, Marcos Jank, que analisou o momento conjuntural da geopolítica. Segundo o especialista, o mundo está vivendo uma mudança nos paradigmas comerciais, em que as “regras do jogo” já não funcionam. Além disso, os acordos que o governo americano tem fechado com outros países pode ser mais penoso para o agronegócio brasileiro do que as próprias tarifas, uma vez que não se sabe o que está negociado nesses acordos.
“Esse neomercantilismo que o Trump inaugura, que ignora vantagens comparativas consolidadas, pode desarranjar as cadeias globais de suprimento. Ele pode afetar profundamente o agro, não só na relação bilateral, mas na relação dos Estados Unidos com outros países, que certamente isso virá pra cima da gente. Por quê? Porque os Estados Unidos, mais do que ser um comprador do agro brasileiro, é o maior concorrente”, disse Jank.
O ex-embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, também falou sobre esse risco. Ele especificou sobre o caso das negociações entre Estados Unidos e China. Na opinião dele, o setor precisa ficar atento e preocupado com os resultados disso.
“Eu acho que esse acordo vai sair. […] E qual é o objetivo dos Estados Unidos? É reduzir o tremendo déficit comercial que eles têm com a China. A China vai comprar o que dos Estados Unidos? Não vai comprar produtos industriais, vai comprar produtos agrícolas. […] A primeira preocupação deve ser isso, a gente levar em conta que, se sair esse acordo, a soja brasileira vai ser a primeira afetada. Porque eles não vão comprar produtos industriais, vão aumentar a compra de produtos agrícolas americanos”, acrescentou

Brasil mira novos acordos
Uma das linhas de frente em resposta ao tarifaço americano são os acordos com blocos econômicos ou países. No caso do Brasil, as conversas acontecem no âmbito do Mercosul. A secretária de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres, deu um panorama sobre as expectativas relacionadas aos acordos entre Mercosul e outros pares globais.
“Estamos trabalhando muito para a conclusão de Mercosul e Emirados Árabes, nossa expectativa é de que possa ser concluído neste ano. Estamos trabalhando para a retomada das negociações Mercosul-Canadá, a princípio em outubro deste ano. Fizemos o lançamento das negociações para ampliação do acordo Brasil-México”, elencou Prazeres. Ela ainda citou a intenção de iniciar as negociações Mercosul-Japão, além de avançar em acordos parciais com Indonésia e Vietnã.
No entanto, Jank ponderou que esses acordos podem ter uma eficácia limitada, já que o processo na forma tradicional tende a levar um longo período. “É capaz de sair acordos dos Estados Unidos com cada um desses países que a gente está querendo fazer acordo, muito mais rápido, muito mais contundente do que a gente vinha fazendo. “A grande verdade é que o Brasil não conseguiu desenvolver grandes acordos lá para trás e daqui para frente vai ser mais difícil, não vai ser mais fácil”, disse o professor do Insper Agro Global.
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