Economia
Aprosoja-MT vai ao CADE contra a Moratória da Soja e Abiove defende que não é cartel
Presidente da Associação que representa os produtores de soja de Mato Grosso diz que não poupará esforços para extinguir de vez a Moratória e reparar os danos financeiros dos agricultores
Sabrina Nascimento | São Paulo
11/12/2024 - 20:32

A Associação dos Produtores de Soja do estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT) apresentou nesta quarta-feira, 11, um pedido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) para investigação de práticas comerciais das empresas signatárias da Moratória da Soja. A ação se soma ao inquérito já aberto pelo órgão regulador econômico que apura as práticas de mercado das multinacionais que fazem parte do acordo. O processo tramita em sigilo no CADE.
Conforme o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Beber, em comparação ao processo que já está em tramitação, a ação apresentada pela entidade tem o respaldo de mais provas contra as empresas. “A diferença é que a nossa ação traz mais evidências, muito mais robustas na produção de provas e também trazemos alegações jurídicas muito mais contundentes”, afirmou Beber em vídeo.
Segundo Beber, a moratória impacta mais de 2,7 milhões de hectares em Mato Grosso e 65 municípios, causando desigualdade. Por isso, ele ressaltou que a Aprosoja-MT não vai poupar esforços para extinguir de vez a Moratória da soja e também que sejam reparados os danos aos produtores.
Em conversa com o Agro Estadão, o advogado Sidney Pereira de Souza Jr., sócio do escritório que representa a Aprosoja-MT no CADE, afirma que o pedido ao órgão surge a partir de estudos e documentos de especialistas na área.
“Hoje, há sérios indícios de uma conduta cartelizada das tradings. Uma atuação coordenada em um acordo privado imposto ao produtor, e a não compra de soja que tenha sido objeto de supressão ambiental, ainda que o produtor rural esteja em conformidade com o código florestal brasileiro”, diz Souza Jr.
De acordo com ele, a medida foi necessária, pois os produtores e as empresas não conseguiram chegar a um consenso sobre a cláusula da moratória que impede a comercialização de soja de áreas desmatadas no bioma Amazônia após 22 de julho de 2008 — data de referência do Código Florestal Brasileiro.
Abiove refuta formação de cartel
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), entidade representativa de cerca de 95% das empresas compradoras de soja e uma das idealizadoras da Moratória, manifestou-se por meio de seu advogado sobre a recente ação da Aprosoja-MT no CADE.
Ao Agro Estadão, o advogado Francisco Todorov afirma que há tranquilidade e convicção de que não existe qualquer ilicitude na Moratória do ponto de vista concorrencial. Ele destacou ainda, que a acusação de que existe um cartel é, totalmente, equivocada.
“Essa leitura que eles [produtores de soja] tentam colocar de que a Moratória é um cartel que visa excluir agricultores brasileiros, é o contrário. A moratória é um instrumento coletivo, não é um cartel, porque ele tem a participação de diversos setores, inclusive do governo. […] É um critério de certificação voluntária. Então, quem não quiser participar do processo de certificação, não participa”, diz Todorov.
Segundo ele, a iniciativa da indústria beneficia os produtores, ao garantir acesso a mercados internacionais, resguardando a imagem da produção brasileira. Com isso, do ponto de vista jurídico, não há risco para o fim da Moratória. “Temos certeza absoluta que ela está absolutamente de acordo com a legislação concorrencial do Brasil”, reitera Todorov.
Entenda a moratória da soja
A Moratória da Soja é um acordo voluntário firmado em 2006 entre a Abiove, a Associação Nacional do Exportadores de Cereal, o governo e a sociedade civil, com a participação de ONGs como o Greenpeace, que proíbe a compra de soja cultivada em áreas desmatadas no bioma Amazônia após 22 de julho de 2008 — data de referência do Código Florestal Brasileiro. Este compromisso estabelece que as empresas signatárias não podem adquirir soja de fazendas com lavouras em áreas de desmatamento posterior a essa data.
Dados da Abiove mostram que, desde a safra 2007/08 — quando foi cultivada uma área de 1,64 milhões de hectares — a soja vem seguindo em franca expansão no bioma Amazônia. A taxa média é de 403 mil hectares ao ano, chegando a 7,28 milhões de hectares na safra 2022/23. Na avaliação da Abiove, isso indica que a Moratória não coibiu a expansão da soja nessa fronteira agrícola, mas direcionou a produção para áreas já desmatadas anteriormente ao acordo.
Outras ações contra a Moratória
Além do pedido de investigação feito pela Aprosoja-MT ao CADE, uma nova lei sancionada em outubro deste ano pelo governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, impedirá, a partir de janeiro de 2025, que empresas aderentes à Moratória da Soja recebam benefícios fiscais estaduais. Rondônia, estado produtor de soja e pertencente ao bioma Amazônia, já possui legislação semelhante.
Além disso, o Tribunal de Contas da União (TCU) está conduzindo uma investigação sobre o Banco do Brasil, que faz parte do grupo de trabalho da moratória desde 2011. O objetivo é descobrir se o banco está promovendo incentivos que favorecem as empresas signatárias do acordo.
Mudança na metodologia da Moratória da Soja?
Em meio ao aumento de ações nas esferas federais e estaduais contra o acordo, empresas signatárias da Moratória e associadas à Abiove devem avaliar, nos próximos dias, uma mudança na metodologia de monitoramento.
Atualmente, a análise das fazendas produtoras é feita por meio de imagens de satélite e considera todo o perímetro da propriedade. No entanto, será proposto uma fragmentação das fazenda em campos individuais ou talhão, com isso, os agricultores poderiam escolher a área de suas terras que estaria em conformidade com a Moratória.
A assessoria de imprensa da Abiove informou ao Agro Estadão que segue sem atualização sobre o tema.
Siga o Agro Estadão no Google News e fique bem informado sobre as notícias do campo.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Economia
1
Exportações no ritmo atual podem esgotar cota chinesa da carne bovina antes do 3º tri
2
Aliança Agrícola paga R$ 114 milhões a investidores; advogada alerta produtores sobre risco jurídico
3
Por que a Indonésia é ‘o novo mundo’ para a carne bovina do Brasil?
4
Por que a China rejeitou o pedido do Brasil para redistribuir cotas de carne bovina?
5
China bate recorde na produção de grãos com 714,9 milhões de toneladas
6
China sinaliza forte demanda por importações de soja em 2026
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Economia
Tarifas globais dos EUA voltam para 10% e entram em vigor por 150 dias
Carne bovina, tomates, açaí, laranjas e suco de laranja ficam de fora das tarifas por necessidades da economia americana
Economia
Exportações de carne bovina já superam todo fevereiro de 2025 em apenas 13 dias
Exportações de carne de frango e suína também avançaram, com alta na média diária de 32,69% e 26,41%, respectivamente
Economia
China não habilitará novos frigoríficos brasileiros pelos próximos três anos, afirma assessor do Mapa
Setor ainda espera habilitações e quer regulação de cota brasileira para afastar questionamentos de formação de cartel
Economia
Nos EUA, venda de suínos beira recorde; ausência da China pesa sobre carne bovina
Sem a China, exportações norte-americanas de carne bovina caíram 12% em volume e 11% em receita em 2025
Economia
Fila de caminhões trava escoamento da safra pelo porto de Miritituba; veja o vídeo
Comitiva da Famato constata 25 quilômetros de fila em trecho da BR-163 antes do porto; caminhoneiros relatam falhas na organização do fluxo;
Economia
Exportação de pescados do Brasil deve somar US$ 600 mi após alívio tarifário dos EUA
Abipesca prevê retomada em 2026, com recuperação de mais de 5 mil empregos e recomposição da capacidade produtiva do setor.
Economia
Brasil e Índia fecham acordo para ampliar cooperação em biocombustíveis
Acordo prevê a criação de uma plataforma de colaboração voltada ao intercâmbio de conhecimento e cooperação tecnológica
Economia
Estudo aponta Brasil como o principal beneficiado pelas novas tarifas dos EUA
Brasil registra maior redução média entre os países analisados; China, Índia e Canadá também registram reduções