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Clima

Estiagem causa prejuízos irreversíveis à soja e agrava crise no campo no RS

Calor extremo e falta de chuva causam abortamento de vagens, queda foliar e perdas severas na produtividade da soja, atesta a Emater-RS

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Mônica Rossi | Porto Alegre | monica.rossi@estadao.com

13/02/2026 - 10:41

Sem chuva e com calor de 40 °C, lavouras de soja do RS terão queda de produtividade. Foto: Lisandro Perlin de Ramos/Arquivo Pessoal
Sem chuva e com calor de 40 °C, lavouras de soja do RS terão queda de produtividade. Foto: Lisandro Perlin de Ramos/Arquivo Pessoal

O Rio Grande do Sul caminha para mais uma safra de verão com quebra devido a problemas climáticos. Agricultores de diferentes regiões relatam que a falta de chuva já causa danos irreversíveis às lavouras de soja, com perdas de produtividade que chegam a mais de 50% em alguns casos.

Em janeiro de 2026, o oeste do Rio Grande do Sul registrou volumes de chuva inferiores a 40 mm, “reduzindo os níveis de umidade do solo”. É o que aponta o 5º Levantamento da Safra 2025/26 elaborado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgado nesta quinta-feira, 12. O relatório aponta ainda que no Rio Grande do Sul “onde as lavouras de soja apresentavam ótimo desenvolvimento até a metade do mês, o impacto da estiagem já afetou o potencial produtivo da oleaginosa, entretanto as perdas ainda não foram contabilizadas”.

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lavoura de soja com estiagem em Tapera
Agricultor de Tapera relata longo período sem chuvas significativas e danos na lavoura. Foto: Irineu Ebert/Arquivo Pessoal

É o que ocorre na propriedade de Irineu Ebert, em Tapera, na região Noroeste do Estado. O pequeno agricultor relata que os 30 hectares de soja plantados pela família não recebem chuva em boa quantidade desde a primeira semana de janeiro. A estimativa é de perda de metade da produção. “Talvez, se chover, a perda estacione, porque ela ainda pode aumentar. Se chover, talvez fique em torno de 50%. Mas a quebra já é o ponto certo — não tem volta, não tem recuperação”, lamenta Ebert.

O produtor explica que o plantio foi feito com menor investimento, devido ao endividamento causado pela quebra da safra passada. Para piorar a situação, o produto colhido foi depositado na Cotribá, cooperativa que agora enfrenta crise financeira e está em recuperação judicial. Sem acesso a novos financiamentos e sem a renda da última safra, a área plantada diminuiu e a família precisou iniciar novas atividades rurais para continuar vivendo da terra. Estufas de hortigranjeiros hoje ajudam a complementar a renda. Ebert, que lidera um grupo de produtores na região, descreve o cenário no campo como “desesperador”. “Isso é uma bola de neve, e não é só comigo. Nenhum produtor vai conseguir pagar as dívidas. A única alternativa é entregar os bens, se for o caso, e parar. É a única solução”, desabafa.

Na Fronteira Oeste, no município de São Borja, Lisandro Perlin de Ramos cultiva 730 hectares de soja. Também enfrentando dificuldades de crédito, após cinco anos seguidos de colheitas abaixo do esperado, Ramos financiou com recursos próprios a safra 2025/26.

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lavoura de soja com estiagem em São Borja
Em São Borja, dois primeiros meses de 2026 acumulam cerca de 40 mm de chuva. Foto: Lisandro Perlin de Ramos/Arquivo Pessoal

Em algumas áreas, ele optou pelo plantio convencional em vez do plantio direto, para reduzir os custos com dessecantes. A família, na quarta geração de agricultores, cortou todos os gastos possíveis. Apesar da menor utilização de insumos e tecnologia, até a virada do ano as lavouras apresentavam bom desenvolvimento e confirmavam a expectativa de produtividade de até 60 sacas por hectare. Agora, a realidade é outra. “Estamos há 33 dias sem chuva aqui em São Borja. Hoje acredito que já não seja possível colher acima de 35 sacas em boa parte da lavoura”, relata o produtor.

Emater aponta abortamento de flores e vagens 

Em informativo publicado também nessa quinta, a Emater/RS-Ascar confirma o que os produtores já estão vendo no campo. Segundo a entidade, as condições climáticas são desfavoráveis à cultura da soja, marcadas por déficit hídrico, temperaturas elevadas que chegaram a 40 °C na Região das Missões, alta demanda evaporativa e baixa umidade relativa do ar. “Esse conjunto de fatores provocou estresse hídrico em parte das áreas com sintomas fisiológicos, como murchamento, senescência foliar precoce, abortamento de flores e vagens, redução e queda da área foliar, comprometendo o potencial produtivo em diversas regiões”, dizem os técnicos no documento, onde ainda reforçam que as “perdas já são consolidadas”.

Com esse cenário, a produtividade inicialmente projetada pela Emater tende a ser reduzida. Para atualizar as estimativas de produtividade e produção, a instituição realizará um levantamento de campo na segunda quinzena de fevereiro. Os novos dados devem refletir o impacto real das intempéries sobre as lavouras.

Histórico de perdas

lavoura de soja com estiagem em Tapera
Desde 2020, o RS vêm enfrentando quebras sucessivas de safras devido a problemas climáticos. Foto: Irineu Ebert/Arquivo Pessoal

Na safra passada, a soja foi a cultura mais afetada pela escassez de chuvas, segundo a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). A produção gaúcha do grão caiu 25,2%, acompanhada de uma forte redução de 28,4% na produtividade — que passou de 46,8 para apenas 33,5 sacas por hectare. “Nível insuficiente até mesmo para cobrir o custo operacional total da lavoura, estimado em 43,8 sacas por hectare na safra 2024/25”, afirma a Farsul em relatório divulgado em dezembro de 2025.

Até o fim de janeiro, as projeções de safra do IBGE, da Emater e da Conab indicavam aumento na produção da oleaginosa no Estado, com a soja sendo apontada como o principal motor da esperada recuperação econômica do campo. Embora nenhum dos órgãos estime o tamanho da redução de produtividade causada pela falta de chuva, o diretor da Aprosoja-RS, Alexandre Forster, lamenta a ausência de políticas efetivas de apoio aos produtores.

“As lavouras precoces já têm 70% de quebra. O déficit hídrico dos últimos 40 dias é muito grande. As chuvas manchadas que vêm ocorrendo são ocasionais e não trazem melhora à lavoura, porque o abafamento e o calor são muito altos. E a queda dos preços só agrava a situação, que já era crítica. Agora é o grito final”, afirma Forster.

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