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Agropolítica

Neri Geller diz estar “chateado” com Fávaro e admite que intenção de comprar arroz surgiu antes das enchentes

Ex-secretário de Política Agrícola do Mapa reafirma que foi contra leilão de arroz ; Neri Geller diz que “não tem uma vírgula a esconder”

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Fernanda Farias | fernanda.farias@estadao.com

18/06/2024 - 15:20

Foto: Apolos Neto/Assessoria Zucco
Foto: Apolos Neto/Assessoria Zucco

O ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura (Mapa) voltou a afirmar que o leilão de importação de arroz foi um “equívoco” e que ele foi contra a medida. Neri Geller disse que foi “voto vencido” nas discussões sobre a necessidade de comprar arroz para evitar o desabastecimento e controlar os preços. As declarações foram feitas durante audiência pública realizada na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. 

Neri Geller deixou o cargo em meio à polêmica sobre a realização do leilão de arroz e denúncias de envolvimento de ex-assessores no certame. O anúncio da saída de Geller foi feito pelo ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, no dia 12 de junho, em entrevista a jornalistas no Palácio do Planalto. 

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Nesta terça-feira, 18, Geller afirmou que está “chateado” com Fávaro. “Eu não devo. E por isso, eu fiquei chateado, sim, com o ministro da Agricultura, com a forma como eu saí do governo”, falou a parlamentares. “Eu não saí a pedido, eu não devia, eu não devo. Poderia ter me afastado tranquilamente para esclarecer todos os pontos”, complementou.

“Nós sempre demos total segurança, enquanto secretário e técnico, que não iria ter desabastecimento.”

Neri Geller, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura

Bastante questionado pelos parlamentares sobre quem decidiu fazer o leilão, qual a motivação para o certame e também para a demissão do Mapa, Geller repetiu várias vezes que “não tem uma vírgula a esconder”. Segundo ele, quando surgiram as denúncias em relação ao ex-assessor Robson de Almeida França, contou que falou a Fávaro: “você conhece o Robson, sabe como funciona o leilão”, referindo-se aos trâmites do certame.

Robson França é dono da bolsa de mercadorias BMT e da Foco Corretora, que arremataram boa parte das 263 mil toneladas de arroz. 

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Mesmo sem responder diretamente às perguntas, Geller repetiu que está à disposição das investigações. “Jamais, eu sairia do Mapa pela porta de trás. Não caio atirando, caio colocando os fatos como efetivamente eles são”, afirmou. 

“Eu acho que o momento é de cautela e pôr a bola no chão. Estabelecer todas as verdades e conexões, por isso estou completamente à disposição de investigações que possam vir”, pontuou.

“Fomos voto vencido”, diz Neri Geller sobre o leilão

Como o Agro Estadão adiantou em entrevista exclusiva com o ex-secretário, Neri Geller repetiu que não concordava com o leilão de arroz da Conab, porque as informações sobre a safra no Rio Grande do Sul eram de que mais de 80% das áreas já haviam sido colhidas. 

“A sugestão foi tirar a TEC [Tarifa Externa Comum] para estimular a entrada de arroz fora do Mercosul, e com isso, garantir o abastecimento de arroz, caso a logística não fosse recuperada. Fomos voto vencido”, disse Geller.

Discussão sobre preço do arroz começou em janeiro

A preocupação do governo com o preço do arroz para o consumidor começou ainda em janeiro, segundo o ex-secretário de Política Agrícola. “Realmente, estava acima da curva [os preços]. Era legítimo que o governo se preocupasse com isso”, disse. 

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Geller contou que apresentou os dados sobre a estimativa de safra de arroz e que não havia risco de desabastecimento. “Eu como secretário fiz uma apresentação ao governo que poderíamos ter bastante cautela, que tinha uma projeção de supersafra no Rio Grande do Sul e tinha estimativa de aumento de 30% no centro-oeste”, lembrou.

“O Ministro Carlos Fávaro puxou para o gabinete”

De acordo com Neri Geller, a decisão de importar arroz saiu da Casa Civil, em reuniões com o ministro Carlos Fávaro. O ex-secretário de Política Agrícola do Mapa disse que, após o cancelamento do primeiro leilão para compra de 100 mil toneladas de arroz, o tema passou a ser tratado pelo ministro Carlos Fávaro. 

“A partir deste momento, eu participei muito pouco, era um tema espinhoso, o ministro chamou isso para o gabinete”, afirmou. Geller também disse que não participou da discussão sobre a embalagem de arroz com o logotipo do Governo Federal. 

Segundo Geller, os R$ 7,2 bilhões destinados para a compra de 1 milhão de toneladas do cereal não são do orçamento do Ministério da Agricultura e, sim, da Conab.

“Essa responsabilidade de fazer o leilão é da Conab, vinculado ao orçamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário”, afirmou. Sobre a companhia, Geller disse que o “compliance da Conab é extremamente rigoroso”. E completou que não existe influência política nos levantamentos de safra.

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Deputado questiona decisão de diretor de Política Agrícola da Conab

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Pedro Lupion (PP-PR), questionou o motivo da Conab argumentar que faltaria arroz, se a própria estatal indicava nos levantamentos de safra que havia cereal suficiente. E destacou que um mesmo nome da Conab se envolve nos dois processos – o diretor de Política Agrícola. 

“Silvio Porto assinou a nota técnica do arroz e a nota técnica do milho em dezembro [de 2023], em que 12 milhões de toneladas de milho compradas pela ASR locação de veículos foram comprados pelo governo da Bahia”, analisou Lupion. “Acho que estamos achando o fio da meada”, gritou um parlamentar.

A ASR foi uma das quatro empresas vencedoras do leilão de arroz, realizado no dia 6 de junho e anulado no dia 12. Além da ASR (DF), venceram outras três empresas sem histórico no ramo: Wisley A. de Sousa Ltda (AP), Icefruti Indústria e Comércio de Alimentos Ltda (SP) e Zafira Trading (SC).

O Agro Estadão pediu um posicionamento à Conab sobre o assunto, que será publicado assim que for recebido. A Conab foi convidada para participar da audiência pública, mas não enviou representante.

Farsul: “foi feito uso indevido, injusto e cruel das enchentes no RS”

A audiência pública para discutir a realização do leilão de arroz durou mais de 3h40. A maior parte do tempo foi de questionamentos ao ex-secretário de Política Agrícola do Mapa. Antes disso, os parlamentares aprovaram o requerimento para entrar com pedido de investigação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre o certame. Os deputados pedem que seja apurada uma possível infração à ordem econômica.

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De Porto Alegre (RS), o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) também participou por videochamada.  “Foi feito uso indevido, injusto e cruel das enchentes do Rio Grande do Sul para fazer o que já estava no plano e não havia nenhum sentido prático”, comentou Antonio da Luz a respeito da intenção do governo em comprar arroz.

Antonio da Luz reforçou os números da safra de arroz gaúcha, que tiveram números recentes divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) na última semana. E destacou a estimativa da estatal quanto aos estoques de arroz, de que quando a próxima safra começar a ser colhida, os estoques estarão maiores que os atuais, em torno de 2,348 milhões de toneladas.

“Se os estoques vão terminar [a safra 23/24] 22% maiores do que iniciaram, como vamos fazer um leilão de importação? Se a própria Conab, com seus milhares de funcionários, está dizendo que nós teremos um aumento de estoque ao final”, questionou da Luz.

Ele traçou o cenário com a compra de 1 milhão de toneladas, como pretende o governo. “O nosso estoque final vai ficar em torno de 3,5 milhões de toneladas, é o maior estoque da série histórica. E isso deverá causar uma crise de preços imensa, desestimulando a produção e a industrialização e, aí sim, gerando problema de desabastecimento para o futuro”, analisou.

O economista ainda citou alguns produtos que tiveram alta nos preços, de acordo com o IPCA de maio, como a batata inglesa (+20,61%), a cebola (+7%) e a cenoura (+6%). “E não vimos movimento para um leilão”, criticou, afirmando que o arroz subiu 1,47% de acordo com o IBGE.

Antonio da Luz disse que o valor destinado para a importação de arroz (R$ 7,2 bilhão) poderia ser “extremamente bem-vindo se fosse utilizado para a linha de crédito que foi pedida para o Mapa”.

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