Agropolítica
Entidades reagem contra programa de rastreabilidade de agrotóxicos
Representações contestam prazo e alegam custos adicionais; Mapa diz que programa é necessário para fiscalização
Redação Agro Estadão
16/10/2025 - 08:30

Diferentes entidades representativas do setor agropecuário endossaram a posição contrária ao Programa Nacional de Rastreabilidade de Produtos Agrotóxicos e afins (PNRA). Segundo elas, o entendimento não é contra uma rastreabilidade, mas sim da forma como está previsto no programa. Entre os vários pontos de insatisfação está a falta de diálogo e o prazo para implementação. Associações ligadas aos produtores de insumos classificam o tempo como “inexequível”.
“Embora tenha sido colocado pelo secretário [do Ministério da Agricultura] a possibilidade de extensão [prazo], isso não está na norma. E aí o nosso receio: 120 dias para a implementação completa. No relatório do grupo de trabalho [que discutia a rastreabilidade], o tempo era de três anos. Existe um hiato muito grande entre o que é exequível e o que está sendo pedido”, destacou a representante do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), Lídia Cristina Jorge.
O tema foi debatido nesta quarta-feira, 15, durante audiência pública realizada pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. O gerente do Departamento Técnico e de Educação da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (ANDAV), Antônio Luiz Neto, também enfatizou o entendimento.
“O setor da distribuição não só é a favor da rastreabilidade, como nós já fazemos isso. E nós já fazemos isso por força de lei […] Mas a forma como ela está sendo trazida agora eu acho inexequível por experiência própria”, destacou o gerente.
O custo também foi outro aspecto levantado como impeditivo, já que a avaliação é de que haveria um aumento devido às obrigações impostas no programa. O diretor presidente do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev), Marcelo Okamura, fez uma simulação do impacto.
“Nós teríamos que colocar essa rastreabilidade em quase 300 milhões de embalagens por ano no Brasil. Quanto custaria? Se ficasse R$ 1 por embalagem, seria R$ 300 milhões. Temos que ver o que vale a pena e qual o benefício de se fazer isso dessa maneira”, comentou.
Mapa diz que forma atual de rastreamento é ineficiente
O secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Irajá Lacerda, destacou que a forma como é feita a rastreabilidade hoje não é possível fiscalizar toda a cadeia. Segundo ele, os diferentes sistemas de rastreamento funcionam como ilhas que não se comunicam, o que inviabiliza uma atuação de fiscalização da pasta.
“Nós não temos uma interoperabilidade de toda essa cadeia. Por exemplo, na solicitação de registro, nós temos três órgãos regulatórios do governo federal, cada um com seus sistemas, sem uma interação de tudo isso. Então, nós não conseguimos enxergar tudo e nós somos os responsáveis de fazer o fiscalizatório”, acrescentou Lacerda ao falar que além da instância federal, os Estados, Municípios e o setor privado também contam com sistemas próprios.
Por isso, a ideia é criar o chamado Sistema Integrado de Rastreabilidade (SIR) para promover a ligação desses sistemas a partir de um padrão único. Ainda conforme o secretário, a expectativa é de que o lançamento do sistema aconteça até o fim do mês.
Entenda o caso
Em junho, Mapa publicou uma portaria criando o programa de rastreabilidade. As entidades alegam que foram pegas de surpresa, já que na época o próprio ministério coordenava um grupo de trabalho com a participação das organizações privadas para elaborar o programa. Porém, o texto publicado não foi discutido no grupo.
Já em julho, os prazos do programa foram prorrogados. Da apresentação feita pelo secretário do Mapa, de julho até outubro, a pasta tem recebido sugestões de mudanças e buscado aprovações em órgãos internos. Quanto ao prazo para a implementação, Lacerda disse que o ministério vai acompanhar cada fase e, se for necessário, elas poderão ser prorrogadas.
O programa de rastreabilidade prevê a participação de todos os agentes da cadeia de defensivos agrícolas, desde produtores, até fabricantes, distribuidores e transportadores. Na primeira portaria, o Mapa coloca três etapas para implementação.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
LDO 2026: veto de Lula retira proteção a gastos com seguro rural e Embrapa; FPA reage
2
Lula sanciona orçamento com pouco mais de R$ 1 bilhão para Seguro Rural
3
Irã, Groenlândia e Venezuela: como as tensões geopolíticas impactam o agro do Brasil?
4
Fávaro: Brasil mira cotas de exportação não cumpridas por outros países na China
5
Governo deve banir “agrotóxicos ultra perigosos em breve”, afirma Teixeira
6
Nova lei do Licenciamento Ambiental é judicializada no STF
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Brasil terá fazendas de cannabis? Anvisa vota regras para o cultivo nesta semana
Nova norma atende decisão do STJ, libera plantio para fins medicinais e farmacêuticos e cultivos podem começar daqui 6 meses; veja exigências
Agropolítica
Governo anuncia desapropriações e pacote de medidas para a Reforma Agrária
Orçamento prevê mais de R$ 700 milhões para o Crédito de Instalação do Incra. soma total das ações é de R$ 2,7 bilhões
Agropolítica
Emergência fitossanitária da vassoura de bruxa da mandioca é prorrogada
Detectada em 2024, a doença já teve casos confirmados em 12 cidades do país, sendo dez apenas no Amapá
Agropolítica
EUA: Câmara retira E15 de projeto orçamentário e frustra setor
Congresso deve caminhar para a criação de um "Conselho de Energia Rural", que ficaria encarregado de elaborar propostas relacionadas ao E15
Agropolítica
Ministério cria comitê para tratar de legislação das Ceasas
Oficializado nesta quinta-feira, 22, grupo poderá elaborar apresentar propostas para modernizar o regime jurídico das centrais
Agropolítica
'Mais rápida possível', diz embaixadora da UE sobre efetivação do acordo com Mercosul
Diplomata vê tratado como “divisor de águas” para os dois blocos, mas reconhece que a judicialização pode atrasar a vigência
Agropolítica
Santa Catarina proíbe reconstituição de leite em pó importado
Lei foi sancionada pelo governador Jorginho Mello; objetivo é proteger produtores locais e equilibrar o mercado
Agropolítica
Brasil vê tensões geopolíticas como aliadas para acelerar aplicação do acordo Mercosul-UE
Congresso Nacional vai priorizar ratificação do tratado após o recesso parlamentar