Agropolítica
Cresce o mercado de hortaliças higienizadas e prontas para consumo no Brasil
Segmento já representa 3,5% das vendas e cresce acima de dois dígitos nos grandes centros, aponta Ibrahort
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com | Atualizada às 12h10
10/01/2026 - 05:30

O mercado de hortaliças higienizadas e prontas para consumo vem ganhando força no Brasil. Segundo o diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), Manoel Oliveira, o segmento já representa cerca de 3,5% das vendas totais de hortaliças, com crescimento acima de dois dígitos nos grandes centros urbanos.
“As pessoas têm menos tempo para preparar alimentos em casa e buscam praticidade. Quem primeiro atendeu a essa demanda foram os alimentos ultraprocessados, mas agora há uma mudança clara em direção ao consumo de produtos saudáveis”, explicou Oliveira, em entrevista ao Agro Estadão.
De acordo com ele, o consumidor passou a valorizar alimentos frescos, mas com conveniência. “As hortaliças e frutas conseguem oferecer isso: saúde e praticidade. Não é mais uma tendência, é uma realidade nas gôndolas refrigeradas dos supermercados”, afirmou.
O movimento acompanha o que já ocorre em países como a Holanda, onde quase 60% das hortaliças consumidas passam por algum tipo de processamento. “Na Europa, a média já ultrapassa 30% de participação dos produtos frescos e higienizados. Temos uma avenida de desenvolvimento pela frente”, disse o diretor do Ibrahort.
Segurança alimentar e confiança do consumidor

Segundo o executivo, o processo industrial das hortaliças higienizadas é criterioso e segue normas rígidas de qualidade. “Esses produtos passam por processos de lavagem, muitas vezes de tripla lavagem, em ambientes controlados. O nível de exigência é, em muitos casos, maior do que o que fazemos em casa”, afirma.
A indústria de saladas precisa garantir que o produto seja seguro e fresco. Por isso, ele explica que a segurança do alimento está diretamente ligada à profissionalização da cadeia produtiva. “O produtor que fornece para esse mercado precisa ter controle sobre clima, nutrição, manejo e rastreabilidade. É uma agricultura muito mais profissionalizada”, diz.
Nesse sentido, o avanço do segmento também está ligado a práticas mais modernas no campo. O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é uma das ferramentas que elevam o nível técnico do produtor. Ele melhora os processos de controle e leva o agricultor a buscar certificações e rastreabilidade. “O consumidor quer um produto prático, mas também seguro. Isso exige do produtor um outro patamar de gestão e qualidade”, reforça Oliveira.
Desafios no campo
Para que o setor avance, será preciso profissionalizar a base produtiva. Segundo Oliveira, o modelo de fornecimento para essa indústria é diferente do tradicional. A fábrica de saladas exige regularidade, previsibilidade e escala. “Hoje, a indústria é mais rápida do que a capacidade produtiva do agricultor brasileiro”, justificou.
Ele destaca que a gestão e o planejamento da produção são fatores decisivos para atender à nova demanda. “O produtor precisa evoluir em gestão, controle e tecnologia para garantir fornecimento contínuo. É um mercado muito mais verticalizado, que depende de cadeia de frio e processos integrados.”
Distância não é obstáculo
Outro ponto em transformação é a origem do fornecimento. Embora tradicionalmente concentrada perto dos grandes centros, a produção voltada ao mercado de frescos e higienizados começa a se espalhar pelo País.
Com a consolidação das cadeias de frio (conjunto de processos que mantém os alimentos em temperatura controlada), do campo até o consumidor final e o uso de tecnologias de transporte, a distância deixou de ser um obstáculo. “Isso muda completamente a dinâmica da horticultura no País”, afirma o diretor do Ibrahort.
Grandes empresas que trabalham nas saladas prontas importaram a folhagem da Argentina. “Nos últimos dois anos, em situações em que o Brasil teve de ruptura de fornecimento de folhosas, por calor ou chuva excessiva, chegou um momento que não tinha alface no Brasil”, disse.
Atualmente, há produtores em São Gotardo (MG) fornecendo produtos de hortifrúti para redes de fast food no Rio de Janeiro e fazendas na Bahia enviando para São Paulo.
Encurtamento da cadeia
O avanço logístico, no entanto, tem efeito direto sobre os preços. Cada etapa a mais no transporte eleva o custo final do produto. Quanto mais níveis de intermediação, maior o custo. “Entre carga, descarga e conservação, há um impacto significativo. Por isso, encurtar a cadeia é fundamental”, explicou.
Segundo Oliveira, o modelo de fornecimento direto entre produtor, fábrica e varejo é mais eficiente e tende a tornar o produto mais competitivo. “A cadeia curta garante melhor controle de qualidade, reduz perdas e ajuda a estabilizar os preços ao consumidor”, concluiu.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
LDO 2026: veto de Lula retira proteção a gastos com seguro rural e Embrapa; FPA reage
2
STF forma maioria para derrubar marco temporal; o que vem agora?
3
Pescadores têm até dia 31 para envio do REAP, requisito para o seguro-defeso
4
Governo cria linha de crédito de R$ 6 bi para renovação de frota de caminhões
5
Fávaro: Brasil mira cotas de exportação não cumpridas por outros países na China
6
Após queda, seguradoras projetam alta de 2,3% no seguro rural em 2026
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
'Expectativa é de que vigência ocorra neste ano', diz Alckmin sobre acordo Mercosul-UE
Senado já começa a se movimentar para acelerar tramitação no Brasil; assinatura do acordo pode ser feita no dia 17 de janeiro
Agropolítica
‘Momento histórico’, avaliam Lula e Fávaro após aprovação do acordo Mercosul-UE
Lula classifica tratado como “vitória da negociação”, enquanto Fávaro destaca a ampliação das oportunidades para a agropecuária
Agropolítica
Atenção, viajantes: governo atualiza norma para entrada de alimentos no País; veja o que muda
Regra vale para aeroportos, portos e postos terrestres; entre as exigências, está a obrigatoriedade de informar visitas a áreas agropecuárias
Agropolítica
Conab poderá comprar 50 mil toneladas de milho em 2026
Governo Federal prevê até R$ 80 milhões para o Programa de Venda em Balcão em 2026; Normativa estabelece ainda condições para os leilões
Agropolítica
Morre pesquisador do IAC considerado o pai do feijão-carioca
Causa da morte de Luiz D’Artagnan de Almeida não foi divulgada
Agropolítica
LDO 2026: veto de Lula retira proteção a gastos com seguro rural e Embrapa; FPA reage
O dispositivo vetado integralmente pelo presidente da República também incluía despesas com defesa agropecuária e ações de regulação e fiscalização
Agropolítica
Fávaro: Brasil mira cotas de exportação não cumpridas por outros países na China
Ministro afirma que essa possibilidade de compensação nas vendas de carne bovina é considerada estratégica em negociações com os chineses
Agropolítica
Rio Grande do Sul implanta monitoramento para prever nível dos rios
Novo serviço de modelagem hidrodinâmica permite identificar áreas de risco e apoiar ações preventivas da Defesa Civil e municípios