PUBLICIDADE

Agricultura

PCC expande atuação sobre o agronegócio

Após se infiltrar em usinas sucroalcooleiras, facção avança no mercado ilegal de defensivos agrícolas, usando rotas e estruturas do tráfico

Nome Colunistas

Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com

13/10/2025 - 05:00

Foto: Vinícius Mendonça/Ibama
Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

O agronegócio brasileiro segue cada vez mais vulnerável à atuação do crime organizado. Após investigações comprovarem a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em usinas sucroenergéticas no interior de São Paulo, agora, uma outra investigação mostrou que a facção também está ligada ao mercado ilegal de defensivos agrícolas.

Conforme o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Franca (SP) informou, por meio de nota, a investigação sobre a relação do PCC com o setor de defensivos surgiu de forma indireta, a partir de outro inquérito, a Operação Castelo de Areia, que apurava diferentes crimes cometidos por integrantes da facção. O que acendeu o alerta do Ministério Público foram as trocas de mensagens interceptadas entre membros do PCC.

As mensagens apontaram que um membro do baixo escalão do PCC também participava de atividades ligadas à falsificação de agroquímicos. Como desdobramento, as investigações conduzidas pelo Gaeco de Franca revelam uma estrutura criminosa complexa, composta por ao menos nove núcleos autônomos. Cada célula atua em uma etapa do processo: fabricação de embalagens falsas, falsificação de notas fiscais, logística e comercialização digital dos produtos.

Por que Franca?

Com uma economia fortemente ligada ao agronegócio — sobretudo ao cultivo de café e grãos — Franca, cidade localizada no noroeste do Estado, aparece como um polo estratégico no esquema do PCC. De acordo com o Gaeco, a falsificação de defensivos na região é uma atividade criminosa consolidada há décadas, “de forma que se tornou o principal polo de falsificação de agrotóxicos do país”.

Em uma operação recente, os agentes do Gaeco encontraram, em uma única instalação, embalagens suficientes para falsificar 155 mil litros de defensivos químicos, o que poderia gerar um prejuízo superior a R$ 30 milhões para o mercado formal, além dos danos ambientais.

PUBLICIDADE

Os laboratórios clandestinos encontrados pelo Ministério Público têm estrutura semi-industrial, com esteiras, maquinário e tanques para o envase em larga escala. As embalagens e rótulos reproduzem com perfeição as marcas originais, o que confere aparência de legitimidade aos produtos. No entanto, análises químicas mostram que, em muitos casos, as fórmulas são uma mistura irregular de água, solventes, corantes e pequenas quantidades de princípios ativos, o que aumenta o risco ambiental e compromete a produtividade agrícola.

Contrabando ainda é o principal vetor do mercado ilegal

O mercado ilegal de defensivos agrícolas no Brasil representa cerca de 25% do total comercializado, segundo a CropLife Brasil, entidade que reúne empresas especializadas de defensivos e bioinsumos. 

Esse mercado envolve ao menos cinco modalidades criminosas: contrabando, falsificação, adulteração de produtos vencidos ou proibidos, importação fraudulenta e receptação de insumos roubados ou furtados. “Todo agroquímico fora do sistema regulatório é considerado ilegal”, disse Nilto Mendes, gerente de combate a produtos ilegais da CropLife, em conversa com o Agro Estadão. 

A CropLife também chama atenção para o avanço da estruturação do crime organizado nesse mercado. “Nos últimos cinco anos, os defensivos agrícolas passaram a ser objeto de interesse direto de organizações criminosas, que agora usam as mesmas rotas do tráfico de armas e drogas”, afirma Mendes. A atuação do crime organizado começou a chamar a atenção da entidade em 2023, após um roubo de R$ 50 milhões em produtos de uma fábrica em Minas Gerais. Agora, para o dirigente, a atuação do PCC em polos de falsificação em Franca indica que o fenômeno ganhou um novo patamar. 

Conforme Mendes, entretanto, o contrabando ainda é a forma mais expressiva desse comércio ilícito. Ele avalia que isso ocorre devido a regulação mais branda em países vizinhos como Paraguai, Argentina e Uruguai — de onde os produtos entram com facilidade pelas fronteiras brasileiras.

PUBLICIDADE

O dirigente ressalta que, apesar de o Brasil ter uma das legislações mais rigorosas do mundo para o registro, uso e fiscalização de defensivos — com camadas federais e estaduais de controle —, o tamanho do território e a extensão das fronteiras tornam a fiscalização desafiadora. O resultado é um fluxo constante de produtos ilegais que abastece o mercado interno e chega a todas as regiões do País. 

No acumulado de 2025, por exemplo, até 31 de agosto, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 72.871 toneladas de agroquímicos nas fronteiras do país. O volume é 348% maior do que o registrado em todo o ano de 2024, quando foram apreendidas 16.227 toneladas. Para comparação, em 2023 e 2022, os números foram 85.070 e 261.685 toneladas, respectivamente.

Uso de produtos ilegais representa riscos graves à saúde humana e ao meio ambiente.
Foto: Adobe Stock

Risco ambiental e à saúde

Além do impacto econômico — que inclui perda de produtividade e concorrência desleal com a indústria formal —, o uso de produtos ilegais representa riscos graves à saúde humana e ao meio ambiente. “Os falsificados, em geral, são misturas de solventes, corantes e substâncias desconhecidas, enquanto os contrabandeados costumam conter concentrações muito acima do permitido ou ingredientes ativos já banidos no país”, explica Mendes.

Um dos exemplos citados é o Paraquat. O herbicida está proibido no Brasil desde 2020, mas ainda é amplamente contrabandeado do Paraguai e da Argentina. Além da contaminação do solo e da água, o descarte irregular das embalagens — que não entram no sistema de logística reversa — amplia o dano ambiental.

Entre 2020 e 2024, a CropLife Brasil auxiliou autoridades públicas na destinação ambientalmente correta de 1.440 toneladas de agroquímicos ilegais apreendidos. 

PUBLICIDADE

Ações de combate e denúncia

Para combater o avanço desse mercado, a CropLife Brasil mantém programas de treinamento e capacitação voltados a forças de segurança, fiscais ambientais e servidores públicos. A entidade também desenvolveu, em parceria com a Universidade de São Paulo e com apoio do Ministério da Justiça, um curso de ensino a distância certificado pela universidade, que aborda a dinâmica do mercado ilícito de agrodefensivos sob diferentes perspectivas, desde a segurança pública à fiscalização ambiental.

Além das ações de formação, a CropLife conduz a Campanha de Boas Práticas Agrícolas, que busca conscientizar produtores rurais sobre os riscos e consequências da compra de insumos ilegais. A entidade também oferece um canal anônimo de denúncias, disponível em seu site (aqui) e pelo telefone 0800 850 8500. As informações registradas são diretamente encaminhadas às autoridades competentes.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Diesel e estiagem ameaçam safra de verão no Rio Grande do Sul

Agricultura

Diesel e estiagem ameaçam safra de verão no Rio Grande do Sul

Falta de combustível já atinge 44% das prefeituras gaúchas; chuvas abaixo da média prejudicam lavouras de soja e milho 

Imea: colheita da soja em MT atinge 99,06%; plantio do milho já está concluído

Agricultura

Imea: colheita da soja em MT atinge 99,06%; plantio do milho já está concluído

Apesar de uma pequena diferença com a colheita da safra passada, os trabalhos indicam estabilidade no ritmo entre os ciclos

Colheita de soja avança a 51,3% no oeste da Bahia

Agricultura

Colheita de soja avança a 51,3% no oeste da Bahia

Excesso de chuvas atrasa operações no campo, favorece doenças e pode comprometer a qualidade dos grãos, diz Aiba

Conflito no Oriente Médio eleva risco para cadeias agrícolas globais, diz IGC

Agricultura

Conflito no Oriente Médio eleva risco para cadeias agrícolas globais, diz IGC

Produção mundial de grãos deve cair em 2026/27 e ficar abaixo do consumo pela primeira vez em 4 anos

PUBLICIDADE

Agricultura

Soja no RS tem produtividade 9,7% menor, diz Emater

Chuvas irregulares derrubam rendimento; colheita avança para 5% da área semeada

Agricultura

Exportações de café solúvel têm melhor fevereiro em 5 anos

Resultado positivo no mês ameniza queda de 11,5% nas exportações no bimestre, ainda pressionadas pelas tarifas norte-americanas

Agricultura

Produtores gaúchos obtêm liminar contra royalties da soja

Ação questiona prática de desconto automático de 7,5% na entrega da soja; Bayer diz que vai recorrer

Agricultura

Soja: Abiove projeta novo recorde de esmagamento para 2026

Projeção passou de 61 milhões para 61,5 milhões de toneladas, alta de 4,8% sobre o volume processado no ano passado

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.