Agricultura
O agro após a COP 30: desafios, métricas e a disputa pela narrativa global
Painel do Estadão Summit Agro mostra que setor entra em nova fase, mais técnica e atento ao financiamento climático
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
27/11/2025 - 12:23

O painel “O agronegócio na COP 30”, realizado nesta quinta-feira, 27, em São Paulo (SP), durante o Estadão Summit Agro 2025, revelou uma mudança de postura do setor rural brasileiro. Especialistas destacaram que a agenda climática deixou de ser vista como ameaça e passou a ser tratada como oportunidade — seja no acesso a financiamentos, na criação de métricas próprias ou na construção de uma narrativa internacional mais precisa sobre a agricultura tropical.
O debate foi conduzido pela jornalista Isadora Duarte, do Broadcast Agro. Os participantes apontaram que a COP abriu espaço inédito para temas rurais, mas afirmaram que os próximos anos exigirão ação coordenada entre governo, empresas e produtores para transformar avanços pontuais em práticas contínuas.
Para os especialistas, o debate já não se limita a defender a imagem do setor, mas a consolidar métricas científicas, modelos regulatórios, mecanismos de financiamento e estratégias para comunicar o que a cadeia produtiva já faz.
O fim da “imagem do vilão”
O agrônomo e professor de Bovinocultura de Corte na Esalq/USP, Diogo Fleury Azevedo Costa afirmou que a COP 30 rompeu com a ideia de que o debate climático se restringe às emissões dos ruminantes. Segundo ele, “a COP foi muito mais do que falar do arroto do boi; foi falar da sustentabilidade da nossa agricultura tropical”.
Ele também disse que o setor ainda enfrenta desinformação internacional e desequilíbrios na comparação entre países e destacou que a Agrizone (o espaço dedicado à agropecuária na Conferência) foi fundamental para dar visibilidade às iniciativas do setor. “Na Austrália eu ouvia que 90% das emissões da agricultura vinham do boi. É muita coisa. Mas quando se olha o total das emissões do país, isso muda tudo. A produção de ruminantes é parte da solução, não o problema”, afirmou.

O pesquisador ressaltou que tecnologias como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) ampliam produtividade e reduzem a intensidade de emissões. “A integração é o futuro. Está claro que sistemas bem manejados têm balanço negativo de carbono”, afirmou.
Financiamento climático ganha centralidade
O CEO do Instituto Equilíbrio e diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Eduardo Bastos, destacou que a Cúpula marcou a entrada definitiva do setor financeiro no debate rural. Para o especialista, o principal legado do evento foi a discussão sobre financiamentos. “Pela primeira vez em COP eu vi o setor financeiro discutindo financiar agricultura como parte da solução”.
Ele citou um dos leilões do Programa Eco Invest (iniciativa de atração de investimentos para a transformação ecológica), que movimentou R$ 30 bilhões, como símbolo dessa nova fase. Bastos avaliou que o volume de recursos só existe porque está vinculado à agenda climática. “Quando isso acontece, o discurso deixa de ser conversa fiada”, enfatizou .
O diretor alertou, porém, que o País precisa avançar em duas frentes regulatórias para não perder competitividade. Primeiro, a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). E, em segundo lugar, garantir que o Artigo 6 do Acordo de Paris, sobre comércio internacional de carbono, avance na próxima COP:
“O agro emite 640 milhões de toneladas e pode capturar 1,1 bilhão. Temos potencial para gerar 500 milhões de toneladas em créditos. Eles só terão valor se pudermos exportá-los”, explicou.
Métricas da agricultura tropical entram em disputa
O diretor sênior da Syngenta, Filipe Teixeira, afirmou que a agricultura brasileira já adota práticas sustentáveis há décadas, mas sempre teve dificuldade para traduzir essas informações ao público internacional. “Plantio direto, integração e fixação biológica eram apenas produzir. Faltava traduzir isso para o resto do mundo”.
Teixeira avaliou que a COP deu visibilidade inédita ao potencial da agricultura tropical. Ele alertou, porém, que o Brasil ainda é medido com ferramentas inadequadas. “Não adianta dizer que somos sustentáveis se usamos métricas da agricultura temperada. Não é justo medir o sequestro de carbono das nossas pastagens com dados do arroz do Oriente”, ressaltou.
Para o diretor, a consolidação do mercado de carbono depende de métricas locais robustas. Ele também defendeu a recuperação de áreas degradadas como principal alternativa para expansão agrícola. “Temos 160 milhões de hectares de pastagens, com cerca de 40 milhões aptos para conversão agrícola. É possível aumentar a produção sem derrubar árvores”.
Disputar a narrativa internacional
O diretor-executivo da Rede ILPF, Rui Pereira Rosa, afirmou que o Brasil possui uma história sólida para apresentar. “O agro é pragmático, mostra resultados. A Agrizone foi uma amostra do que fazemos bem”. Mas afirmou que o setor precisa se comunicar melhor com a população urbana, 87% do País. “A cidade ainda tem um conceito distante do agro. Mostrar o agro como ele é, faz diferença”, pontua.
Rui defendeu que os dados brasileiros — sobre sistemas integrados, pastagens, entre outros — passem a pautar o debate internacional. E lembrou que a ILPF, hoje vista como modelo global, nasceu de pesquisas que ficaram anos “na gaveta” antes de serem disseminadas ao campo. “Temos 17,4 milhões de hectares com integração, diante de 159 milhões de pastagens. Estamos só começando”.
O Estadão Summit Agro 2025 debate as principais tendências e os desafios para o setor nesta quinta-feira, 27. Acompanhe on-line as palestras neste link.
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