Agricultura
Chuvas intensas aumentam risco de erosão e exigem cuidados
Especialista da Embrapa alerta que a prevenção custa menos que recuperação do solo
Redação Agro Estadão
29/01/2026 - 10:31

O período chuvoso no Brasil impõe desafios à produção agrícola e exige cuidados constantes com o solo. Um dos principais riscos é a erosão, processo silencioso que provoca prejuízos econômicos e danos ambientais duradouros. Em chuvas mais intensas, práticas inadequadas de manejo podem levar embora, em pouco tempo, camadas de solo que levaram séculos para se formar.
A avaliação é do pesquisador Alexandre Ortega, da Embrapa, que atua na área de solos e meio ambiente. Segundo ele, a atenção à conservação deve ser permanente, mesmo quando o País enfrenta, ao mesmo tempo, estiagens prolongadas e episódios de chuva extrema.
“Pode parecer contraditório falar de conservação do solo em um momento de crise hídrica, como a que vivemos em parte do Sudeste, mas justamente após períodos prolongados de seca o risco de erosão aumenta muito”, explica.
De acordo com Ortega, o solo seco perde resistência. Quando a chuva retorna com força, o impacto é maior. “Se esse solo não estiver bem protegido, sem práticas adequadas de conservação de água e solo, ele simplesmente vai embora com as primeiras chuvas mais fortes”, alerta.
Eventos recentes reforçam o alerta
Casos registrados nos últimos anos ajudam a dimensionar o problema. Enchentes e deslizamentos no Estado do Rio de Janeiro, sobretudo na região serrana, e, mais recentemente, no Rio Grande do Sul, mostraram como grandes volumes de chuva podem provocar perdas severas de solo, nutrientes e matéria orgânica.
“Não é só a terra que se perde. Vai embora também a biodiversidade do solo, a vida microbiana, os nutrientes e toda uma estrutura que levou centenas ou milhares de anos para se formar”, afirma o pesquisador.
Segundo ele, a recuperação dessas áreas é lenta e cara. Exige alto investimento de recursos e energia, com efeitos que ultrapassam a porteira da propriedade rural e atingem toda a sociedade.
Manejo correto reduz danos

Entre as medidas preventivas mais eficientes está o plantio em curva de nível, que reduz a velocidade da água da chuva sobre o terreno. Outra ação fundamental é eliminar o chamado plantio morro abaixo, considerado altamente erosivo. “Em uma chuva mais intensa, o plantio morro abaixo funciona como um canal, acelerando a água e destruindo completamente o solo”, explica Ortega.
A manutenção da cobertura vegetal também é decisiva. Palhada, restos culturais e plantas de cobertura ajudam a proteger a superfície do solo. O pesquisador ressalta que o sistema de plantio direto só funciona quando adotado de forma correta: “Não adianta falar em plantio direto se ele se resume apenas à sucessão de culturas como milho e soja. É preciso manter restos culturais, minimizar ao máximo o revolvimento do solo e usar espécies que realmente protejam a superfície”.
Em áreas com solos mais frágeis, o cuidado deve ser maior. “Cada solo tem um limite de uso. Não podemos explorá-lo acima da capacidade que ele suporta”, afirma. Nesses casos, o uso de gramíneas e outras espécies com sistema radicular bem desenvolvido ajuda a manter a estrutura e reduzir as perdas causadas pela chuva.
Ortega destaca que investir em prevenção é mais barato do que recuperar áreas degradadas. “Depois que o solo é perdido, recuperar aquilo que foi levado — nutrientes, matéria orgânica e vida biológica — demora muito tempo e custa caro”, afirma.
Os impactos não se limitam à produção agrícola. A degradação do solo afeta ecossistemas inteiros. “Não é só a vida humana que sente. Toda a fauna e a flora são impactadas. O solo é praticamente um organismo vivo, que passa por processos complexos e não se forma da noite para o dia”, reforça.
Clima torna desafio maior
Com o avanço das mudanças climáticas, a alternância entre secas severas e chuvas intensas tende a se tornar mais frequente. Para Ortega, isso amplia o desafio para o produtor rural. “O clima sempre foi um fator determinante na agricultura brasileira e continuará sendo”, afirma.
Embora existam tecnologias como a agricultura irrigada, a maior parte das áreas agrícolas do país depende diretamente da chuva. “Todo o planejamento agrícola é feito com base em históricos e prognósticos climáticos, mas eventos extremos fogem cada vez mais do padrão”, observa.
Para o pesquisador, a mensagem é direta: cuidar do solo é uma estratégia de sobrevivência da produção agrícola. “É muito difícil para o produtor ver tudo o que ele plantou e investiu ser levado pela água. Por isso, fazer tudo da melhor forma possível antes é fundamental. Prevenir sempre será melhor — e mais barato — do que recuperar depois”, conclui.
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