Agricultura
Cafeicultura de Rondônia une tecnologia e sustentabilidade para crescer
Em 22 anos, produtividade subiu de 7,8 para 50,2 sacas por hectare; estudo da Embrapa mostra salto tecnológico
Redação Agro Estadão
28/10/2025 - 10:04

Um levantamento da Embrapa revelou que a cafeicultura das Matas de Rondônia vive um momento promissor. A região, principal produtora dos robustas amazônicos, apresenta pequenas propriedades com alto grau de tecnificação, produtividade elevada e boa rentabilidade, segundo o estudo Perfil socioeconômico e produtivo dos cafeicultores da região das Matas de Rondônia.
Os 15 municípios pesquisados respondem por 75% da produção estadual e conquistaram, em 2021, o registro de Indicação Geográfica (denominação de origem) para o café produzido localmente. O estudo, feito no âmbito do projeto CarbCafé, coordenado pela Embrapa Territorial (SP), contou com apoio do Sebrae-RO, do IBGE, da Conab e de dados por satélite.
Apesar da redução da área cultivada no estado — de 245 mil hectares, em 2001, para 60,6 mil em 2023 —, a produtividade subiu de 7,8 para 50,2 sacas por hectare. O fenômeno, segundo os especialistas da estatal, é conhecido como “poupa-terra” e mostra avanço tecnológico e eficiência produtiva.
“Um dos registros mais positivos foi a boa rentabilidade do Robusta Amazônico”, afirmou o analista da Embrapa Rondônia, Calixto Rosa Neto. “Uma saca de 60 quilos tem um custo de R$ 618,00 e é vendida a cerca de R$ 1.300,00, uma margem que tem ajudado a melhorar a vida de muitos produtores.” Segundo ele, o resultado tem contribuído para a permanência dos jovens no campo. “Em 15 anos, a idade média do cafeicultor caiu de 53 para 47 anos”, destacou.
A pesquisa mostra que a produção está concentrada em propriedades familiares de pequeno porte, com média de 28,6 hectares, dos quais 3,4 são ocupados por cafezais. “São mais de sete mil produtores no estado, o que ajuda a promover um amplo desenvolvimento social”, disse Rosa Neto.
O café responde, em média, por 63,6% do Valor Bruto da Produção (VBP) agrícola dos municípios pesquisados. O estudo também apontou crescimento do uso de tecnologias no campo. “Encontramos mais de 200 máquinas colhedoras no campo. A demanda é tanta que descobrimos uma empresa de aluguel de colhedoras de café semi-mecanizadas, algo que não existia na região”, relatou o pesquisador.
A conectividade no meio rural também avançou. Em 2017, apenas 9,2% das propriedades tinham acesso à internet. Hoje, o índice chega a 97,7%. “Esse é um dos principais desafios das residências rurais. A falta de conectividade afeta a administração da lavoura e provoca a evasão de jovens do campo”, observou Neto. “Por isso, esse alto índice de acesso à internet é uma excelente notícia.”
Desafios

O estudo, no entanto, identificou gargalos. A escassez de mão de obra é um dos principais. “Está cada vez mais difícil encontrar empregados temporários que aceitem atuar somente no período da colheita, por melhor que seja a remuneração”, afirmou Rosa Neto. A mecanização tem amenizado o problema, mas ainda há demanda significativa de trabalhadores.
Outro ponto de atenção é o controle financeiro. Segundo o levantamento, 61% dos produtores não fazem registro algum de receitas e despesas. Apenas 6,6% usam planilhas eletrônicas. O custo médio de produção informado, de R$ 17,8 mil por hectare, é subestimado, pois muitos não incluem mão de obra familiar e depreciação de equipamentos.
“Rios secaram”

As mudanças climáticas já afetam a produção. “Há pouco tempo, era preciso irrigar por cerca de três meses. Agora, com maiores temperaturas e períodos mais extensos de estiagem, os cafeicultores têm de estender a irrigação por até cinco meses”, relatou Neto. Ele alertou para a necessidade de tecnologias de eficiência hídrica: “Recentemente, observamos produtores do noroeste do Mato Grosso que não irrigaram porque não encontraram água. Os rios secaram.”
Apesar disso, outro estudo recente da Empresa Brasileiras de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostrou que os cafezais das Matas de Rondônia sequestram 2,3 vezes mais carbono do que emitem. Ou seja, a cafeicultura da região tem alta contribuição na mitigação dos efeitos nas mudanças climáticas.
A pesquisa também registrou que em sete dos 15 municípios da região das Matas de Rondônia, houve desmatamento zero entre 2020 e 2023. Em toda a região foram encontrados traços de retiradas de áreas florestais em menos de 1% da área total ocupada pela cafeicultura. O trabalho também demonstra que mais da metade dos territórios dos 15 municípios somados é coberta por florestas, o que totaliza 2,2 milhões de hectares com vegetação nativa e 56% da floresta preservada se encontra em terras indígenas.
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