Sustentabilidade
Lodo de esgoto aumenta em até 25% matéria orgânica do solo, aponta estudo
Experimento da Unesp mostra que o fertilizante orgânico feito de lodo de esgoto reduz ainda em até 50% o uso de adubos minerais nas lavouras de cana-de-açúcar
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com | Atualizada em 08/12/2025, às 16h06
30/11/2025 - 06:55

O lodo de esgoto compostado (LEC) — principal matéria-prima para a produção de fertilizantes orgânicos a partir de resíduos do tratamento de esgoto e de outros materiais biodegradáveis — tem se tornado uma opção de adubo orgânico para plantações. Um relato desse benefício vem de São Manuel, interior de São Paulo.
Por lá, o produtor de cana-de-açúcar, Evandro Gabriel passou a aplicar o fertilizante orgânico há cerca de três anos. Após o enfrentamento de uma seca intensa que impactou a produção em 2024, o agricultor conta que, além de melhorar a estrutura física do solo, o fertilizante favoreceu o desenvolvimento das raízes das plantas, tornando-as mais resistentes a episódios de estresse hídrico. “Desde que começamos a aplicar o fertilizante orgânico, o solo se reorganizou e ficou mais estruturado. Ele voltou a ter vida, e nossas plantas resistiram muito melhor, mesmo sem chuva. Os resultados aparecem no campo: menos perdas e produtividade consistente”, relata.
Esses pontos foram justamente indicados em estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). A pesquisa aponta que a utilização desse fertilizante orgânico pode reduzir em até 50% o uso de fertilização mineral na produção de cana-de-açúcar.
O estudo, conduzido no campus de Ilha Solteira, testou o composto em solos tropicais de baixa fertilidade cultivados com cana-de-açúcar, em Suzanápolis (SP). O experimento, realizado em parceria com a empresa Tera Ambiental, durou dois anos agrícolas completos (2020/21 e 2021/22) e avaliou tanto o efeito direto quanto o residual do fertilizante.
Os resultados chamaram atenção: a aplicação de 5 toneladas por hectare de adubo orgânico a base de LEC combinada a 50% da adubação mineral tradicional apresentou o melhor desempenho, aumentando a matéria orgânica do solo em cerca de 25% e reduzindo a acidez entre 6% e 15%.
O uso do composto também melhorou a disponibilidade de nutrientes essenciais como fósforo, cálcio e magnésio, além de elevar os teores de micronutrientes, como zinco e cobre. “Esse estudo reforça o papel dos fertilizantes orgânicos compostos como uma alternativa viável para reduzir a dependência de fertilizantes minerais importados, diminuir custos de produção e, ao mesmo tempo, promover a economia circular”, afirmou Fernando Carvalho Oliveira, doutor em agronomia e responsável técnico pelos fertilizantes orgânicos compostos da Tera.
Conforme o estudo, o fósforo — um dos nutrientes mais caros e de maior dependência externa — permaneceu disponível no solo por mais tempo, garantindo nutrição prolongada às plantas. Já o cálcio e o magnésio também permaneceram em níveis elevados, o que ajudou a equilibrar o solo e favorecer o desenvolvimento das raízes.
O potássio, por sua vez, embora presente em menor quantidade no produto, teve ganhos de até 25% em alguns tratamentos. Isso ocorreu devido a maior capacidade do solo de reter nutrientes após o aumento da matéria orgânica. “Além de ser uma solução prática, este tipo de adubo contribui significativamente para a saúde do solo e a sustentabilidade do setor sucroenergético, mostrando que é possível aliar alta produtividade com responsabilidade ambiental”, aponta Oliveira.

Processo: do lodo ao adubo
O lodo de esgoto compostado, ou LEC, como é popularmente conhecido, é produzido a partir do reaproveitamento do material que sobra nas estações de tratamento de esgoto. Ao invés de ser descartado, esse resíduo passa por um processo controlado de compostagem, que o transforma em um fertilizante orgânico.
O primeiro passo é misturar o lodo com outros resíduos orgânicos, como restos de poda, palha e cavacos de madeira. Essa combinação ajuda a equilibrar a umidade e a proporção de carbono e nitrogênio, dois elementos essenciais para o processo de decomposição.
Em seguida, a mistura é colocada em leiras (montes de compostagem) e mantida em condições chamadas de aeróbias, ou seja, com presença de oxigênio. Durante esse período, a atividade dos microrganismos eleva naturalmente a temperatura da massa para cerca de 55°C a 65°C. A temperatura é ideal para eliminar microorganismos que podem causar doenças.
Após essa fase, o composto entra em um período de maturação, quando a temperatura diminui e o material estabiliza. Nessa etapa, o fertilizante ganha cor escura e textura uniforme, sinal de que está pronto para ser peneirado e analisado em laboratório. As análises garantem que o produto atende aos padrões de segurança definidos pelo Ministério da Agricultura, tanto em relação à ausência de contaminantes quanto à qualidade nutricional.
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