Sustentabilidade
Estudo mostra vantagem ambiental de caminhões brasileiros sobre os europeus
Veículos nacionais emitem até 35% menos CO₂ por carga; dado ressalta a importância de métricas adequadas na avaliação da sustentabilidade no transporte
Igor Savenhago | Ribeirão Preto
18/03/2026 - 10:12

A eficiência ambiental do transporte rodoviário brasileiro ganhou uma nova perspectiva a partir de um estudo desenvolvido na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa indica que caminhões em operação no Brasil podem apresentar desempenho superior ao de veículos europeus quando o critério de avaliação leva em conta a quantidade de carga transportada. Nesse cenário, as emissões de dióxido de carbono por tonelada-quilômetro chegam a ser até 35% menores.
O trabalho partiu da adaptação de uma metodologia amplamente utilizada na União Europeia para estimar consumo energético e emissões de veículos pesados. Conhecida como VECTO, a ferramenta foi ajustada para refletir as condições brasileiras de transporte, incluindo características das rodovias, perfil das rotas logísticas e, principalmente, os limites de peso autorizados no País, significativamente mais elevados do que os europeus.
Enquanto na Europa o peso bruto total de caminhões costuma ser limitado a cerca de 40 toneladas, no Brasil combinações veiculares podem alcançar até 74 toneladas. Essa diferença estrutural tem impacto direto na análise ambiental. Embora veículos mais pesados consumam mais combustível em termos absolutos, a maior capacidade de carga permite diluir as emissões ao longo de um volume maior de mercadorias transportadas.
Para testar essa hipótese, o estudo simulou o desempenho de um caminhão típico do mercado brasileiro em uma rota real de escoamento de grãos, ligando o Centro-Oeste ao Porto de Paranaguá, no Paraná. O resultado evidenciou que, mesmo com maior consumo total de diesel, o índice de emissões por tonelada transportada foi inferior ao observado em caminhões europeus de padrão ambiental avançado.
Sustentabilidade
Na comparação direta, os modelos europeus analisados apresentaram emissões próximas de 29 gramas de CO₂ por tonelada-quilômetro, enquanto o caminhão brasileiro avaliado ficou abaixo de 20 gramas nesse mesmo indicador. A diferença reforça a importância de escolher métricas adequadas para avaliar sustentabilidade no transporte, especialmente em países com grande dependência do modal rodoviário.
Segundo Eduardo Fortes, autor do estudo, análises baseadas apenas no consumo total de combustível ou na emissão por veículo podem distorcer o debate ambiental. Em economias continentais como a brasileira, onde longas distâncias e grandes volumes de carga são a regra, a eficiência logística passa a ser um fator-chave para a redução do impacto climático do setor.
“Mesmo com tecnologias veiculares por vezes defasadas, devido à frota envelhecida, podemos constatar que a nossa capacidade de escala no transporte compensa, ambientalmente, por unidade de carga transportada, em comparação ao veículo-padrão europeu estudado”, afirma Fortes.
Apesar dos resultados positivos, o autor explica que a elevada idade média da frota é um desafio importante, já que reduz a eficiência energética global do sistema. A modernização dos veículos, aliada a critérios técnicos mais precisos de avaliação ambiental, é apontada como essencial para ampliar os ganhos já observados e avançar rumo a um transporte de cargas mais sustentável.
O estudo também chama atenção para o papel do transporte de cargas no cumprimento das metas de descarbonização. Avaliações mais alinhadas à realidade operacional podem subsidiar políticas públicas mais eficazes, evitando comparações simplistas entre mercados com estruturas logísticas muito distintas.
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