Pecuária
Sobe para 612 o número de mortes após uso da vacina Excell 10; veja relato
Em Sergipe, um único criador perdeu 157 ovinos e teve a fazenda interditada; Dechra Brasil afirma colaborar com as investigações
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
04/09/2025 - 06:10

O ministério da Agricultura atualizou para 612 o número de mortes de animais relacionadas a vacina contra clostridiose EXCELL 10, imunizante produzido pela Dechra Brasil Produtos Veterinários Ltda. Por meio de nota, emitida na noite desta quarta-feira, 3, a pasta informa que os óbitos envolvem caprinos, ovinos e bovinos. A causa das mortes, porém, “continua em investigação”, diz a pasta.
Em nota, a Dechra declarou que “embora as reações adversas possam estar associadas à administração da vacina, a causa exata ainda está sendo determinada”. A empresa informou que atua em conjunto com o Mapa e que espera laudos conclusivos em até 15 dias.
Essa é a terceira nota do ministério da Agricultura com atualização dos óbitos. A primeira foi emitida em 20 de agosto, quando a pasta suspendeu o uso e a comercialização dos lotes 016/2024 e 018/2024 da vacina. A segunda notificação foi na última semana, já contabilizando a morte de 308 animais.
Embora os números oficiais apontem a morte de 612 animais em diferentes estados, a quantidade de casos pode ser ainda superior. Um relatório elaborado por criadores e acadêmicos lista 692 mortes de caprinos, ovinos, suínos e bovinos em 39 propriedades no Piauí, Sergipe, Maranhão e Ceará. O documento, ao qual o Agro Estadão teve acesso com exclusividade, reúne informações detalhadas sobre datas de vacinação, lotes aplicados e evolução da mortalidade.
Relato de caso
De apenas um produtor em Sergipe, segundo apuração do Agro Estadão, foram registradas 157 mortes de ovinos decorrentes da vacina. O criador Francisco Portela, proprietário da Fazenda Sítios Novos, em Nossa Senhora da Glória (SE), conta que os óbitos aconteceram após aplicar o imunizante Excell 10 em 700 cabeças.
Portela contou que vacinou o rebanho entre os dias 7 e 12 de julho. A primeira perda ocorreu cerca de dez dias depois. “Pensamos que fosse intoxicação ou picada de inseto, mas depois vieram mortes em sequência”, disse. Segundo ele, os ovinos apresentavam edemas no local da aplicação que avançavam rapidamente. “Quando chega ao pescoço, em até 12 horas o animal morre.” Portela acredita que o número ainda possa avançar: “ainda estamos perdendo animais, inclusive borregos [crias] prontos para o abate”.

O criatório de Francisco, voltado a cria, recria e engorda de cordeiros superprecoces (animais abatidos ainda jovens, que alcançam alto valor comercial no mercado), já contabiliza prejuízos que superam R$ 500 mil. “Nós perdemos animais de todas as categorias, mas o maior prejuízo foi com as borregas de reposição. Cada uma era vendida por R$ 1.500. Paramos as vendas e também a estação de monta. A fazenda está parada, mas os custos continuam”, relatou.
A suspensão atinge duas frentes do negócio do criador. Animais prontos para o abate, com até 23 quilos, não foram vendidos e permanecem na fazenda consumindo ração e silagem, sem gerar receita. E a estação de monta — usada para planejar os acasalamentos e os nascimentos — que foi interrompida. “Já estamos com 50 dias de atraso. Era para termos pelo menos 200 ovelhas em cobertura”, disse Portela.
Fazenda interditada
A propriedade chegou a ser até interditada pela Emdagro, empresa vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca. Segundo a coordenadora de Defesa Animal da Emdagro, Lucyla Flor, a interdição foi necessária devido à alta mortalidade de animais, o que poderia representar risco sanitário. A medida está prevista na Instrução Normativa nº 50/2013 do Ministério da Agricultura, que autoriza interdição em casos de suspeita ou ocorrência de enfermidades com potencial impacto coletivo, para proteger a saúde animal e pública.
De acordo com o proprietário, a fazenda foi liberada no segundo dia, após constatação de que a causa dos óbitos era infecciosa e que não representava risco de contágio. “A gente tinha vendido uns animais, tivemos que cancelar a venda porque ficamos sem poder tirar a GTA [Guia de Trânsito Animal]. Depois de uma discussão lá, tiveram bom senso e liberaram a fazenda”, explicou.
Além das perdas comerciais, Portela precisou alugar máquinas para abrir valas e enterrar os animais. “Já é a terceira vez que alugamos. O gasto é alto, porque tem frete de transporte e diária. Nunca passamos por situação assim”, afirmou. Fora a folha de pagamento e os cuidados com os animais, que vão de tratamento à nutrição.

Exames ainda inconclusivos
Segundo Francisco, os primeiros exames, feitos por conta própria, ainda não são conclusivos. As análises que vão demonstrar a causa, de fato, dos óbitos, devem ficar prontos nesta semana. “O Ministério mandou recolher todas as vacinas, o próprio laboratório emitiu uma nota para os revendedores para pegar o material.. e o próprio laboratório também mandou suspender a venda. Então assim, não é à toa, tudo indica de ser a questão vacinal”, apontou.
O criador relatou ainda que recebeu visitas de representantes da Dechra, incluindo uma gerente técnica e um diretor. Técnicos coletaram amostras e acompanharam necropsias, mas, segundo ele, não apresentaram soluções concretas. “A conversa é sempre de que não vamos ficar desamparados, mas ninguém confirma se haverá indenização. Até agora tivemos apenas feedback de informação, não de solução”, afirmou.
Por meio da assessoria da Dechra, o laboratório confirmou as visitas e informou que “a ideia é finalizar todos os testes com o apoio do Mapa e depois ter conclusão global [das análises]”. Ainda de acordo com a empresa, casos isolados não alinhados com as conclusões gerais serão analisados individualmente.
Casos em outros estados
Um grupo de WhatsApp, batizado “Edema e mortes ovinos”, foi criado para reunir os relatos que chegam de diferentes regiões. Já há casos registrados no Maranhão, Piauí, Ceará, Paraíba, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro, relata Portela, que também faz parte do grupo. Segundo ele, servidores do Ministério também participam do grupo e acompanham as discussões.
O professor de Zooctenia do campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Ilha Solteira, André Gustavo Leão, vacinou 36 cordeiros com a Excell 10 em 10 de julho. Entre 27 de julho e 16 de agosto, nove morreram. Inicialmente, as necrópsias não apontaram causa definida, mas depois surgiram sintomas como edema no local da aplicação e hemorragias internas, semelhantes aos casos relatados em outras regiões.
Inicialmente, as necrópsias não apontaram causa definida, mas depois surgiram sintomas como edema no local da aplicação e hemorragias internas, semelhantes aos casos relatados em outras regiões. “Quando ficou bem claro para mim e para o veterinário que fez as necrópsias, eu fiz a notificação. Falei para a empresa, no SAC, e fiz a notificação na defesa agropecuária”.
Procurada pela reportagem, a Secretaria de São Paulo, no entanto, não confirmou o caso e informou que as investigações relacionadas aos óbitos são de responsabilidade do Mapa.
Medidas oficiais
O ministério também interditou a fabricação do produto, abriu auditoria na empresa fabricante e coletou amostras para análise no Laboratório Federal de Defesa Agropecuária.
Produtores que identificarem reações adversas relacionadas à vacina Excell 10 podem entrar em contato com o laboratório pelos telefones 0800 400 7997 e (43) 99135-1168. As notificações também podem ser feitas pela internet, no canal Fala.BR (https://falabr.cgu.gov.br), ou presencialmente, nas agências estaduais de defesa agropecuária.
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