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Economia

Pressão da indústria e inflação levam governo Trump a revisar tarifa sobre café

Presidente do Cecafé diz que o momento é “o mais favorável em meses” para negociação; em outubro, embarques de café caíram 20%

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Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com

12/11/2025 - 18:06

Embarques para os EUA, após tarifas, caíram 51,5% ante o mesmo intervalo de 2024. | Foto: Adobe Stock
Embarques para os EUA, após tarifas, caíram 51,5% ante o mesmo intervalo de 2024. | Foto: Adobe Stock

O setor cafeeiro brasileiro ganhou novo fôlego nesta quarta-feira, 12, após o governo dos Estados Unidos indicar que pode rever a tarifa de 50% aplicada às importações de café do Brasil. A sinalização, feita pelo presidente Donald Trump foi confirmada pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, em entrevista ao programa Fox and Friends, da Fox News. 

As declarações ocorrem em meio à inflação do produto no mercado norte-americano e à pressão de indústrias que enfrentam dificuldade para recompor estoques.

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Segundo Bessent, os norte-americanos verão “anúncios substanciais” nos próximos dias com o objetivo de reduzir os preços de produtos não cultivados nos Estados Unidos: “café sendo um deles, bananas, outras frutas, coisas desse tipo”.

Assim como Trump, Bessent não entrou em detalhes sobre como essa redução de tarifas será conduzida. Disse apenas que os preços serão reduzidos “muito rapidamente” e que os norte-americanos começarão a se sentir melhor em relação à economia no primeiro semestre de 2026.

A possível redução da taxação é vista pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) como um movimento capaz de reabrir o principal destino do café brasileiro, corrigir distorções na Bolsa de Nova York e restabelecer a competitividade do produto nacional. Segundo o presidente da entidade, Márcio Ferreira, o momento é “o mais favorável em meses” para uma negociação.

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De acordo com o dirigente, a fala de Trump “não foi por acaso” e reflete o movimento de bastidores do setor privado americano. Alguns dos principais torrefadores dos Estados Unidos estiveram em reuniões com o governo americano nas últimas semanas. “Eles relataram evolução nas conversas. O ambiente é positivo e entendemos que estamos mais perto do que nunca de voltar a uma situação factível, boa para produtores, exportadores e consumidores”, afirmou Ferreira.

De acordo com o dirigente, a expectativa é que a Casa Branca retire o café da Seção 3 da ordem executiva de Trump — que inclui produtos naturais não produzidos nos Estados Unidos, mas sujeitos a tarifas elevadas — e transferi-lo para a Seção 2, que permite importação com tarifa zero. “O objetivo é esse, e já enviamos ofício ao presidente Lula e ao vice-presidente Geraldo Alckmin informando sobre as negociações conduzidas pelos importadores americanos”, disse Ferreira.

Desde agosto, o tarifaço de 50% imposto por Washington reduziu pela metade as exportações brasileiras de café ao mercado norte-americano. Segundo o relatório mensal divulgado pelo Conselho, no período entre agosto e outubro, os embarques somaram 983,9 mil sacas, queda de 51,5% ante o mesmo intervalo de 2024. “A taxação de 50% torna inviável o envio do produto. Esses embarques que temos observado são de contratos antigos”, destacou Ferreira.

O diretor-executivo do Cecafé, Marcos Matos, considera que uma possível manutenção da tarifa pode gerar prejuízos estruturais para o Brasil no médio prazo. “O maior risco não está apenas nas cotações, mas em perder espaço nos blends das principais marcas. Se o consumidor americano se acostumar a cafés sem Brasil, reconquistar esse espaço será muito difícil”, alertou.

Exportações menores, mas receita recorde

O relatório mensal do Cecafé mostra que o Brasil exportou 4,141 milhões de sacas de 60 quilos em outubro, volume 20% menor que o registrado no mesmo mês de 2024. No acumulado de janeiro a outubro, os embarques somam 33,279 milhões de sacas, também 20% abaixo do ano anterior.

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Apesar da redução nos volumes, a receita cambial cresceu 27,6%, alcançando US$ 12,7 bilhões, impulsionada pela alta de 41% no preço médio do café. Márcio Ferreira explica que o atual quadro é resultado de uma combinação de fatores: uma safra global menor, gargalos logísticos internos e o impacto direto das tarifas americanas.

 “Hoje, os produtores estão sendo bem remunerados, mas o custo é alto para toda a cadeia. A tarifa sobre o café brasileiro cria distorções que encarecem o produto para o consumidor americano e alimentam movimentos especulativos na Bolsa de Nova York”, afirmou.

Para o setor, o eventual fim da taxação pode provocar um ajuste saudável nos preços internacionais. “Se as tarifas caírem, o Brasil volta a embarcar normalmente e haverá uma correção na Bolsa de Nova York, trazendo os valores para níveis mais sustentáveis — ainda muito rentáveis para o produtor, mas adequados para a indústria e o consumidor”, avaliou Ferreira.

Recomposição de mercado

Mesmo com a queda acentuada, os Estados Unidos seguem como principal comprador de café brasileiro em 2025, com 4,7 milhões de sacas importadas, o equivalente a 14,2% dos embarques totais. Para o Cecafé, recuperar essa participação plena é vital para o equilíbrio do mercado global.

“O Brasil é o principal provedor de café do mundo. Negociar o produto isoladamente, sem atrelá-lo a outros setores, é o caminho mais rápido para destravar o comércio e restabelecer o fluxo normal entre os dois países”, concluiu Ferreira.

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