Economia
Os segredos do capim e da água na alimentação dos cavalos
Entenda como a nutrição impacta desde o comportamento até o rendimentos dos cavalos nas atividades cotidianas
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
03/07/2025 - 08:00

O que faz um cavalo ser mais veloz, resistente ou até mais calmo? Há quem responda “genética ou treinamento”, mas, na verdade, tudo começa pela boca. A nutrição animal é um dos pilares fundamentais na saúde, no comportamento e no desempenho dos equinos, e deve ser feita sob medida.
Ao Agro Estadão, a médica veterinária da ADM, especialista em equinos, Natalia Schmidt, explicou que, quando o assunto é nutrição de cavalos, a primeira coisa que todo criador, veterinário e até pessoas apaixonadas nesses animais precisam ter em mente é: o cavalo é um herbívoro não ruminante — fator que muda completamente a lógica da alimentação dessa espécie.
“Essa é a principal característica que a gente precisa entender. O cavalo foi feito para comer forragem. […] Se a gente entende que o cavalo é um herbívoro não ruminante, a gente passa a olhar primeiro para o volumoso e para a água. O concentrado [ração] vem depois, como complemento, para atender o que o capim não consegue entregar”, afirma Schmidt.
Segundo a profissional, o ideal é oferecer ao animal forragens, como capim fresco ou feno, diariamente, mas sem exageros. A quantidade adequada é cerca de 1,5% do peso vivo do equino. Considerando um cavalo de 500 quilos, o consumo diário seria entre 7 a 8 quilos de feno.
Mas não para por aí. Outro pilar relevante é a hidratação do animal. Em média, um cavalo bebe entre 5% a 10% do seu peso vivo em água todos os dias — isso significa de 50 a 100 litros para um animal de 500 quilos. “A água é fundamental para todas as funções metabólicas, digestivas e de eliminação”, salienta a médica veterinária.
De acordo com Schmidt, a atenção redobrada ocorre devido à fisiologia dos equinos, que têm 30 metros de intestino, com um processo digestivo podendo durar até 56 horas. Além disso, esses animais não vomitam, fazendo com que qualquer desequilíbrio eleve consideravelmente o risco de cólicas e outros distúrbios gastrointestinais.
Ração em cada fase da vida
Depois de garantir o básico — forragem e água de qualidade —, os concentrados, popularmente conhecidos como ração, são agregados à alimentação dos equinos. “O nome mais correto é concentrado porque ele concentra nutrientes, como proteína, energia, gordura, vitaminas, minerais e aditivos tecnológicos, como prebióticos e probióticos, que auxiliam na saúde intestinal e na absorção dos nutrientes”, explica Natália.
Porém, conforme cada fase de vida ou atividade do animal, o papel da ração muda. No caso das éguas, a exigência nutricional varia muito durante a gestação e a lactação. “Durante os oito primeiros meses de gestação, a exigência da égua é parecida com a de um animal em mantença, ou seja, que não está em trabalho”, explica Natália.
Esse quadro muda no último terço da gestação, pois 75% do peso do potro é formado nos últimos três meses. Nesse período, a égua precisa de mais proteína, mais energia e mais minerais. E, após o parto, com o pico de lactação por volta dos 60 dias, a demanda é ainda maior. “Se ela não recebe uma nutrição adequada, começa a perder peso, o que afeta a produção de leite e o desenvolvimento do potro”, salienta a médica veterinária.

Alimentação do potro
O cuidado com a nutrição do potro começa logo nas primeiras semanas de vida, não apenas depois do desmame. Natália observa que, a partir de 10 dias, os dentes do animal começam a nascer e o potro também já tenta imitar a mãe comendo. Nesse período, é importante iniciar a introdução de rações ricas em proteínas na alimentação do potro.
Contudo, ela ressalta que o objetivo nessa etapa não é substituir o leite materno, mas complementar e ajudar na maturação do sistema digestivo. “Isso torna o processo de desmame, que ocorre entre 5 e 6 meses, muito menos traumático, tanto física quanto metabolicamente”, enfatiza Schmidt.
Segundo ela, o potro segue com essa ração mais proteica até a fase de doma, que varia conforme a raça e o destino do animal: se vai ser atleta, de lazer ou de trabalho.
Olhando para a raça e linhagem
Além da finalidade do animal, a formulação da dieta do cavalos também considera a raça, a linhagem e até o sexo do equino.
A médica veterinária esclarece que, raças de origem ibérica — da região da Península Ibérica, que abrange Portugal e Espanha —, como lusitano e andaluz, além dos mangalargas, tendem a ganhar peso com mais facilidade, por terem uma conversão alimentar mais eficiente. Por outro lado, animais de raças voltadas para velocidade, como o puro sangue inglês, apresentam uma maior exigência energética, justamente por terem um metabolismo mais acelerado e, muitas vezes, um ciclo atlético mais curto.
Além do mais, pode haver diferença dentro de uma mesma raça, como é o caso do quarto de milha, que tem linhagens de corrida — mais difíceis de ganhar peso — e de trabalho, que costumam ser mais rústicas.
“Muitas vezes, quando o cliente me pergunta, às vezes, por telefone, quanto que ele deve dar de ração ao animal, antes da resposta, são diversas perguntas que precisam ser respondidas: o que ele tem de volumoso, de capim, se o animal fica solto ou não, qual raça é, se é macho ou fêmea… Tudo isso porque precisamos olhar de modo individual”, salienta Schmidt.

Cavalos idosos
Assim como os humanos, ao chegar na fase idosa, os cavalos passam por mudanças fisiológicas que exigem adaptações na nutrição.
A partir dos 15 anos, é comum que esses animais apresentem menor capacidade de absorção de proteínas e minerais, o que torna necessário o uso de rações com teores proteicos mais elevados, em torno de 15%. “Apesar de serem adultos, os cavalos idosos precisam de uma dieta com mais proteína do que aquele animal jovem em plena competição. Isso porque eles têm um decréscimo na absorção de proteína e minerais”, esclarece Natália.
A saúde bucal também se torna um fator determinante, pois animais que mantêm uma boa dentição conseguem consumir alimentos convencionais. Já aqueles que perderam dentes precisam de dietas especiais, com alimentos pastosos e de fácil digestão.
O bem-estar também é reforçado nessa fase, com atenção redobrada à qualidade da cama, proteção contra frio e calor, manejo adequado e monitoramento constante da saúde. “Se esse cavalo tem bem-estar, está bem nutrido, hidratado, com manejo adequado, boa cama, abrigo e cuidado com os dentes, ele com certeza vai ter uma vida mais longeva, independente se é atleta ou não”, diz a médica veterinária.
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