Economia
JBS dobra aposta na Arábia Saudita com expansão da Seara
Companhia amplia operação em Jeddah e firma parceria para produzir frango in natura no país
Broadcast Agro
22/01/2026 - 09:36

A JBS inaugurou nesta quinta-feira uma fábrica de alimentos processados em Jeddah, na Arábia Saudita, e anunciou uma expansão que dobrará a capacidade da unidade até o fim de 2026. O movimento aprofunda a estratégia da companhia de ampliar a presença produtiva local em um mercado que historicamente foi um dos principais destinos do frango brasileiro, mas que avança de forma consistente em políticas de autossuficiência.
O investimento total da JBS no país soma US$ 85 milhões e inclui, além da planta de Jeddah, uma unidade em Dammam e infraestrutura de distribuição. Com a nova operação, a companhia estrutura um ecossistema produtivo no país sob a marca Seara, com foco no abastecimento do mercado saudita e em exportações regionais de produtos halal.
Segundo o CEO da Seara, João Campos, a decisão de expandir a fábrica decorreu da rápida absorção da produção pelo mercado local. “Quando ela veio, ela quadruplicou o nosso volume na Arábia Saudita e agora estamos duplicando o volume dessa planta pela aceitação da marca Seara no mercado local”, afirmou ao Broadcast Agro.
Antes da entrada em operação da unidade de Jeddah, a JBS operava com uma planta de processamento em Dammam, com cerca de 250 funcionários e capacidade anual de 10 mil toneladas. A fábrica, que começou a operar em 2025, elevou a escala local da companhia e gera 500 empregos diretos, levando o quadro total da JBS na Arábia Saudita para cerca de 950 colaboradores. Questionado sobre a capacidade atual da planta de Jeddah e os volumes previstos após a expansão, o executivo afirmou que a companhia não divulga esses dados.
A presença produtiva no país representa uma inflexão na estratégia da companhia para o Oriente Médio. A JBS atua há mais de 30 anos na Arábia Saudita com exportações de aves a partir do Brasil, mas iniciou a construção da marca Seara no mercado local há cerca de quatro anos, com produtos processados, distribuição própria e investimentos em comunicação. “É exatamente a fórmula que a gente tem no Brasil de produto de alta qualidade, liderança em inovação e um engajamento de comunicação muito forte com o consumidor local”, disse Campos.
Atualmente, a planta de Jeddah produz empanados e cortes de frango e já exporta para sete países da região, como Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos. Segundo o executivo, o foco segue sendo o mercado saudita, mas a operação cria uma base para ampliar exportações a outros destinos com demanda por produtos halal. “O mercado é complementar. Ele complementa o que a gente já tem investido e desenvolvido na Seara, não só no Brasil, como em outros mercados”, afirmou.
O anúncio ocorre em um contexto de mudança estrutural no mercado de aves do Oriente Médio. Nos últimos anos, a Arábia Saudita acelerou investimentos para elevar sua autossuficiência em frango, reduzindo gradualmente a dependência de importações. Entre 2013 e 2024, a participação da produção doméstica no consumo local passou de 38% para 68%, com expectativa de superar 80% nos próximos anos, segundo o Bradesco BBI.
Esse movimento já vinha sendo citado pela própria JBS como fator de pressão sobre as exportações brasileiras. No terceiro trimestre de 2025, o CEO global da companhia, Gilberto Tomazoni, afirmou que o avanço da produção local vinha afetando o desempenho regional. “Era um mercado muito forte para o Brasil, mas agora competimos com a produção local. Isso afeta todo o setor”, disse o executivo em teleconferência de resultados à época.
Nesse contexto, a estratégia da JBS na Arábia Saudita busca menos substituir o Brasil como base produtiva e mais preservar relevância comercial em um mercado considerado estratégico. “Na visão 2030 da segurança alimentar, parte da produção vai ser feita aqui e nós queremos participar dessa produção”, afirmou Campos em referência ao programa Visão Saudita 2030, que orienta a política industrial e agrícola do país.
Além da expansão industrial, a companhia anunciou uma parceria com a Arabian Company for Agricultural and Industrial Investment (ENTAJ) para a produção local de frango in natura com a marca Seara. A iniciativa permitirá ampliar o portfólio oferecido ao varejo e ao food service saudita. “Eles começam a produzir nos próximos meses e nós vamos conseguir oferecer o portfólio completo da marca Seara no mercado local”, disse o executivo.
Questionado sobre a possibilidade de aquisições na região, Campos indicou que, no momento, o foco segue no crescimento orgânico. O posicionamento ocorre após especulações de mercado no ano anterior; em março de 2025, a Bloomberg noticiou que a JBS avaliou a compra da Al Watania, maior produtora de frango e ovos da Arábia Saudita, em uma transação que poderia chegar a US$ 530 milhões, mas o negócio não avançou. “Nosso foco é o longo prazo na Arábia Saudita. A gente já está avaliando outros investimentos para continuar apoiando o crescimento da marca e da nossa operação”, afirmou.
Do ponto de vista estratégico, o executivo afirmou que a expansão está alinhada à lógica mais ampla da companhia de diversificação geográfica e construção de marcas com maior valor agregado. “Dentro da política da JBS, a gente está em múltiplas proteínas e múltiplas geografias. É importante participar de mercados que estão crescendo, poder criar marca, criar valor agregado e participar desse crescimento”, disse.
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