Economia
Israel rebaixa relações com o Brasil: ameaça ao agro?
Enquanto carne bovina e fertilizantes concentram o comércio bilateral, analistas apontam para repercussões indiretas com EUA e União Europeia
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
26/08/2025 - 15:27

Após o governo de Israel rebaixar as relações diplomáticas com o Brasil, no início desta semana, questionamentos surgiram sobre possíveis efeitos no comércio bilateral entre os dois países.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), contudo, mostram que o Brasil registra déficit na balança comercial com Israel. Em 2024, o saldo negativo foi de US$ 425,6 milhões. Entre janeiro e julho de 2025, o déficit permaneceu, alcançando US$ 441 milhões.
No âmbito das exportações, os produtos da agropecuária dominam como os principais itens adquiridos por Israel. Considerando os dados do último ano, quatro dos cincos principais produtos comprados foram do setor:
- Carne bovina fresca, refrigerada ou congelada (41,6%)
- Soja (21%)
- Milho não moído, exceto milho doce (14,7%)
- Café não torrado (5,3%)
- Aço (2%)
Do lado das importações, a cadeia produtiva tem papel relevância, já que metade do que o Brasil compra de Israel está ligado à agricultura, com destaque para fertilizantes e adubos, representando a metade das aquisições:
- Adubos ou fertilizantes químicos (50,1%)
- Inseticidas, fungicidas, herbicidas (10%)
- Chapas e lâminas de plástico (4,5%)
- Aeronaves (3,3%)
- Fios e tecidos especiais (2,9%)
Tensão diplomática
Ao Agro Estadão, José Carlos de Lima, sócio da Markestrat Group, explicou que quando há tensões políticas, o reflexo no agro pode vir menos pelo comércio direto e mais pelas conexões indiretas. “O risco está em restrições no acesso a tecnologias, na perda de cooperação em projetos de irrigação e biotecnologia e na repercussão política em fóruns internacionais onde o agro brasileiro já enfrenta pressões ambientais”, disse.
Ele destacou ainda que a diplomacia é relevante, pois funciona como um “seguro invisível da economia”, garantindo certa previsibilidade. Com isso, são abertos novos mercados, assegurando acesso a insumos e tecnologias estratégicas.
Já a professora de Relações Internacionais da PUC-PR, Ludmila Culpi, lembra que, em momentos anteriores de atrito entre os dois países, como em 2024, o comércio não sofreu impactos imediatos. “Naquele ano, seguimos vendendo soja e comprando fertilizantes e outros insumos israelenses. O desgaste foi mais político do que econômico”, ressaltou.
Para ela, com a nova escalada de tensão diplomática entre os países, é possível que empresas israelenses revejam investimentos, mas a tendência é de uma “acomodação pragmática” nas trocas comerciais. Ou seja, os dois países devem manter o comércio bilateral funcionando.
Ainda assim, há um alerta sobre repercussões indiretas. Lima destaca que Israel tem influência junto a aliados estratégicos, especialmente os Estados Unidos (EUA), com quem o Brasil tenta negociar a redução das tarifas de 50% impostas sobre produtos brasileiros.
Conforme o especialista, eventuais ruídos diplomáticos podem gerar efeitos além da relação bilateral Brasil-Israel. “Se o conflito político se ampliar, o Brasil pode enfrentar dificuldades em fóruns multilaterais ou até em negociações comerciais com grandes parceiros como EUA e União Europeia”, alerta.
Já Culpi ressalta que não há sinais, até o momento, de que Israel pretenda adotar tarifas ou barreiras contra o Brasil, afetando o agro. “Não houve qualquer manifestação oficial de mudanças nesse sentido”, observa. Ela lembra, no entanto, que o cenário internacional é instável e que medidas inesperadas, não podem ser totalmente descartadas.
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