Economia
Cama de aves: conheça a matéria-prima que tem se destacado na produção de fertilizantes organominerais
Com aplicação correta, melhorias em relação à fertilidade do solo são observadas, mas especialista alerta quanto aos riscos ambientais sem a devida orientação técnica
Rafael Bruno | São Paulo | rafael.bruno@estadao.com
30/07/2024 - 08:00

No horizonte, quase como um tapete verde escuro, a lavoura de soja preenche o campo e chama atenção pela robustez. Talhões formados de folhas grandes e volumosas prometem uma safra de alta produtividade, perspectiva celebrada por Marcelo Machado de Oliveira. O produtor de grãos de Rio dos Índios, município gaúcho que faz divisa com o estado de Santa Catarina, comenta que, além da quantidade de grãos a serem colhidos, a lavoura responde em qualidade e sustentabilidade.
“Seja no enraizamento, seja no vigor da planta, ela [a lavoura] tem muita qualidade. A folha mais bonita, uma folha mais sadia… e a raiz? nossa, ela tem muito mais raiz e tudo isso de forma orgânica e sustentável”, diz o produtor, orgulhoso dos resultados com a soja.
A sustentabilidade citada por Marcelo tem origem no uso de um fertilizante organomineral, que une minerais, óxidos e nutrientes orgânicos que tem como matéria-prima o esterco de aves, chamado de cama de frango.
“Nós já usamos há uns cinco anos, porque queremos ela [soja] mais resistente ao sol, além da produtividade, que, nossa senhora, aumentou muito”, conta o produtor destacando que só nos últimos dois anos ele observou um aumento de seis a oito sacas por hectare.
Marcelo também destaca a produção cerca de 15% superior na lavoura onde ele utilizou o biofertilizante em comparação com os talhões ao lado, onde não houve a adubação com o produto [foto abaixo].

Mas o qual a diferença entre cama de aves e cama de frangos?
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), denomina-se cama de aves todo o material distribuído em um galpão ou estábulo para servir de leito aos animais.
Entre os diversos materiais que podem compor a cama de aves estão: maravalha (um tipo de forração a partir de madeira), cascas de arroz, de amendoim, de feijão e de café.
Após a criação e saída das aves para o abate, o material que foi utilizado para forrar o galpão, juntamente com as fezes dos animais, penas e ração, formam o resíduo final chamado cama de frango, que pode ser usado como adubo orgânico.
“O agricultor faz uso da cama para fertilizar suas lavouras uma vez que possui bons teores nutricionais e fornece quase que a totalidade de nutrientes para as lavouras a um custo baixo. O uso faz com que o agricultor economize com o uso de fertilizantes minerais e até adubação foliar. É uma forma eficiente de emprego de fertilizantes que diminui os custos e impactos sobre o meio ambiente, desde que utilizado de forma correta”, explica ao Agro Estadão o engenheiro agrônomo e professor da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), André Sordi.
O professor, no entanto, chama a atenção aos cuidados necessários antes de utilizar o adubo orgânico. “O uso inadequado de compostos orgânicos como a cama de aves ou dejetos de suínos pode se tornar um problema ambiental. Um exemplo disso é a elevação do teor de fósforo na água na qual provoca eutrofização, que provoca mortalidade da vida aquática e diminuição da potabilidade da água. Isso acontece quando são utilizados dejetos de forma superficial e em elevadas quantidades, sem parâmetros técnicos”, comenta André, que também ressalta que o produtor deve buscar indicação técnica para que seja determinada a exigência nutricional da cultura, a qualidade do solo e assim reduzir imensamente o potencial poluidor.
Com a aplicação de forma correta, melhorias em relação à fertilidade do solo são observadas com o passar das safras. “Em análises feitas e assumindo a taxa de exportação das culturas de grãos de soja e de milho foram identificadas que o uso de cama de aves pode repor totalmente vários micronutrientes exportados pela colheita. Isso é um ponto de suma importância em sistemas de produção, pois pode fornecer inúmeros nutrientes de forma total”, diz Sordi.
Outro aspecto positivo apontado pelo agrônomo é que o uso de fertilizantes orgânicos fornecem macro e micronutrientes de forma gradual ao longo do ciclo da cultura. “Os nutrientes estão ligados a compostos orgânicos e a decomposição libera os mesmos, de forma gradativa, o que favorece a diminuição das perdas e aumento da produtividade”, enfatiza.
Da cama de aves ao fertilizante orgânico
A região de Chapecó, no oeste de Santa Catarina, é considerada o coração da avicultura do estado, são cerca de três mil granjas com aproximadamente 65 milhões de aves, um número que corresponde a 79% da avicultura estadual, conforme dados da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola (CIDASC), da Secretaria Estado da Agricultura e Pecuária (SAR).
Como segundo maior produtor avícola do Brasil, o plantel catarinense produz diariamente milhares de toneladas de matérias orgânicas geradas pelas camas de aves. Para se ter uma ideia do volume, a quantidade de cama de frango gerada, após o ciclo de 40 dias de engorda das aves, por exemplo, é de cerca de dois quilos por animal alojado. Um lote de 25 mil aves pode gerar aproximadamente 50 toneladas de esterco nesse período.
Aliada à preocupação com a preservação do meio ambiente e aos preceitos da economia circular, já que reutiliza toda essa matéria-prima que seria descartada no meio ambiente, a indústria encontrou na utilização da matéria orgânica a possibilidade de desenvolver soluções inovadoras e produtos que promovem o incremento na produtividade das lavouras com redução de custo de produção. É o que tem feito a Terraplant Fertilizantes, de Chapecó (SC), que desenvolve há mais de 23 anos fertilizantes orgânicos e organominerais utilizando como matéria-prima as camas de aves.
A empresa de Chapecó recebe anualmente de seus fornecedores cerca de 55 mil toneladas de camas de aves, sendo de variedades como frango de corte, matrizes e perus. Os fornecedores são grandes empresas como a Aurora, a BRF e a JBS. Mas a matéria-prima também chega de pequenos produtores com apenas um galpão, que fornecem até 150 toneladas por carga, ou grandes produtores com dez galpões, por exemplo, que fornecem até 2 mil toneladas por retirada.
“Temos um número grande de fornecedores, alguns até com 20 anos de parceria. Então, vamos rotacionando, pois as camas utilizadas passam de 15 a 20 lotes de aves para a nossa retirada, para que o teor nutricional esteja dentro do padrão que acreditamos ser adequado para o nível de qualidade dos nossos produtos”, destaca o CEO da Terraplant, Cléber Terribile. Conforme Terribile, geralmente as camas são retiradas com no mínimo 74 semanas, podendo ficar até mesmo 24 meses.
O subproduto gerado na criação de aves apresenta alto potencial de nutrientes. Segundo Terribile, constam aproximadamente 13 nutrientes presentes na cama de aves.
“Existem fertilizantes organominerais que são produzidos à base de outros resíduos orgânicos como a cana-de-açúcar, esterco suíno ou bovino, mas não possuem todos esses nutrientes. O fertilizante com matéria-prima de cama de aves entrega uma nutrição completa com até 13 nutrientes”, diz o CEO.
O doutor em solos e coordenador de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Terraplant, Alex Becker, explica que as camas de aves brutas quando chegam à empresa passam por uma operação bastante complexa até se transformarem em fertilizante pronto para a utilização. Becker ressalta que o produtor deve fazer uso da matéria orgânica, transformada em adubo ou fertilizante, devidamente processada e sob orientação técnica adequada.
” É bastante complexo essa operação para que o resíduo seja utilizado de forma segura na agricultura. Tem muitos produtores que utilizam a cama sem tratamento nas lavouras e isso gera problemas no solo”, comenta Alex Becker.
Fertilizantes organominerais
Diante de toda a matéria-prima derivada de cama de aves na região de Chapecó, a empresa de fertilizantes tem investido cada vez mais na elaboração de produtos organominerais, como o usado na lavoura do Marcelo Machado em Rio dos Índio (RS), que prometem rápida disponibilidade de nutrientes dos adubos minerais, juntamente com os benefícios de longo prazo dos adubos orgânicos. Recentemente a empresa lançou um organomineral “3 em 1”, que, segundo a Terraplant, fornece nutrientes de A a Z, melhora o pH do solo, aumenta a disponibilidade de nutrientes, disponibiliza matéria orgânica no solo e melhora a Capacidade de Troca Catiônica (CTC) do solo, ou seja, a quantidade de cargas negativas que o solo possui.
Já utilizado em lavouras de cereais de inverno, como o trigo e em culturas de cobertura para o solo no sul do Brasil, o fertilizante 3 em 1 deverá atender multicultivos, segundo o coordenador de pesquisas da empresa.
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