Economia
Brasil, EUA e Austrália podem formar aliança para promover o algodão
Produtores brasileiros de algodão miram na Índia para ampliar exportações; em 2024, os embarques ao país cresceram oito vezes
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com
17/08/2025 - 08:00

Entidades do setor privado de Brasil, Estados Unidos e Austrália sinalizaram estar dispostas a trabalharem juntas para promover o algodão pelo mundo. A ideia é “mudar a narrativa” para tentar emplacar que o uso da fibra natural é mais sustentável e seguro do que as fibras sintéticas.
“Estamos iniciando tratativas com os americanos e com os australianos, para, juntos, começarmos um trabalho de divulgação e de promoção do algodão como fibra natural. Já temos sinal verde de sentarmos à mesa e desenharmos um programa de promoção da fibra natural de algodão”, destacou o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gustavo Viganó Piccoli, em entrevista ao Agro Estadão.
Além da Abrapa, a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), do Brasil, a American Cotton Shippers Association (ACSA), dos Estados Unidos, e Australian Cotton Shippers Association (ACSA), da Austrália, também devem participar da aliança. “Estamos iniciando um trabalho para convencermos a grande massa da população, para mostrarmos a narrativa correta da fibra natural versus fibra fóssil”, acrescentou Piccoli.
A estratégia de levar o discurso para o consumidor final passa por demonstrar as diferenças entre o sintético e o natural. Como revela o presidente, o algodão tem perdido espaço no mercado e a intenção é apostar na sustentabilidade do produto nacional.
Índia pode ser caminho de expansão
A Abrapa vem promovendo viagens de imersão para compradores da pluma. Na última, estiveram no Brasil representantes de seis países — Turquia, Índia, China, Paquistão, Bangladesh e Vietnã. Juntos esses países correspondem a 84% das exportações de algodão do Brasil no ciclo 2024/2025. Piccoli afirma que a intenção é ampliar os negócios com todos, mas vê um potencial maior na Índia.
“A Índia, por ser um país que tem uma população muito grande, a gente imagina que em algum momento eles possam direcionar as áreas que hoje são de algodão para produção de alimentos. E aí, como o algodão que produzimos é de excelente qualidade, com preços relativamente baixos, imaginamos que a gente possa aumentar a exportação para a Índia”, explicou o presidente da associação.
De acordo com dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a Índia foi o sétimo principal destino do algodão brasileiro em 2024. Foram mais de 100 mil toneladas vendidas a US$ 184,3 milhões. No comparativo com 2023, o volume exportado aumentou mais de oito vezes (+866%).
Também no ano passado, o Brasil passou a liderar as exportações mundiais da pluma, ultrapassando os Estados Unidos. Foram mais de 2,7 milhões de toneladas. Para o ciclo 2025/2026, Piccoli estima que o país continue no topo e aumente esse montante embarcado para aproximadamente 3,2 milhões de toneladas.

Preços apertados e produção em alta
A safra de algodão do Brasil está nos momentos finais de colheita. O último levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica que o país deve ter uma safra recorde com 3,93 milhões de toneladas da pluma. Porém, o presidente da Abrapa aposta que esse resultado pode chegar às 4 milhões de toneladas.
Já os preços da commodity não tem agradado o produtor. “Faz praticamente um ano que está o preço andando de lado, estamos falando algodão aí de 65 a 70 cento de dólar por libra peso. A esse preço, a margem fica muito estreita. Eu diria que em várias situações o produtor de algodão está sem margem. Isso é problema”. A solução estaria em reduzir os custos de produção já que hoje o mercado comprador de algodão está estagnado, ou seja, não há uma demanda crescente.
Mesmo assim, com aumento de produtividade, a expectativa é de que o recorde seja batido na próxima safra. “Eu diria que a gente vai ter uma manutenção da área que tivemos nesta safra. Dificilmente teremos acréscimo de área, mas com certeza manteremos a área e tentaremos ser as mais eficientes em produtividade também”, pontuou o presidente da associação. A Conab estima que a área plantada de algodão na safra 2024/2025 é de 2,08 milhões de hectares.
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