Economia
Alta de 20% na produção de feijão-preto pressiona valores no campo
Colheita começa no fim do mês e produção deve ser a maior em 10 anos, mas agricultores já reportam preços abaixo do custo de produção
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
13/05/2025 - 08:00

Impulsionado por preços recordes em 2024 e pela demanda externa aquecida, o cultivo de feijão-preto no Brasil cresceu fortemente neste ano. Em seu último relatório, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou uma alta de 20% na produção em relação ao ano passado. O destaque está para a segunda safra do grão, que deve ultrapassar 510 mil toneladas — quase o triplo do registrado na safra 2014/15.
Mas, ao contrário do que se poderia esperar de um cenário de abundância, o produtor rural está amargando prejuízos. Em Prudentópolis, município do Paraná, o produtor Edimilson Rickli relata que manteve sua área de cultivo estável nos últimos cinco anos, entre 700 e 800 hectares dedicados à cultura.
Ao Agro Estadão, ele contou que planta feijão em duas épocas do ano: a safra principal, em setembro, e a safrinha, entre janeiro e fevereiro, após a colheita do milho verão. “Neste ano, a colheita aqui na propriedade deve ocorrer entre 20 de maio e 20 de junho. […] A produtividade estimada gira em torno de 2,4 quilos por hectare, o que é considerado médio”, afirmou.
No entanto, segundo o agricultor, essa produtividade média não garante rentabilidade. Ele relata que os preços atuais estão muito baixos e o custo de produção em alta. “O feijão tipo 1 está saindo a R$ 140 a saca, com viés de baixa. Está muito difícil fechar a conta”, disse.
O mesmo cenário é observado em Castro (PR), pelo agricultor Eduardo Medeiros Gomes. Por lá, o clima tem colaborado com o desenvolvimento das lavouras, sem a ocorrência de geada antecipada que poderia afetar a produtividade. No entanto, o fator de preocupação são os preços. “Está horrível [o preço]. Na faixa de R$ 130 a R$ 150, para um custo de R$ 200 por saca”, lamenta.
Por ano, Gomes cultiva cerca de 200 hectares de feijão por ano, divididos entre as três safras — verão, safrinha e inverno —, sendo metade com feijão carioca e outra parte com feijão-preto. A expectativa do agricultor é colher agora na safrinha entre 2,0 e 2,2 quilos por hectare.
Mosca-branca preocupa
Além dos preços em queda, os produtores têm enfrentado problemas sanitários, especialmente com o avanço da mosca-branca. O inseto é vetor do vírus do mosaico dourado, que pode causar perda total das lavouras.
A praga, antes restrita a regiões mais quentes como São Paulo e Minas Gerais, se adaptou ao clima do Sul e causou estragos severos nas lavouras do Paraná nesta safra. “Tem muita lavoura abandonada por conta da mosca-branca. Muitos colegas perderam tudo. Na minha área, a gente conseguiu controlar, mas é um custo alto porque exige o uso de vários princípios ativos produtos químicos e biológicos”, explica o engenheiro agrônomo e produtor de feijão João Deczka.
Produção recorde, mercado fraco
Os danos com a praga, porém, não devem afetar drasticamente a produção, que, apesar do aumento, não encontrou respaldo nos mercados interno e externo.
Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), destaca que o entusiasmo dos produtores em elevar a área de plantio se baseou no bom desempenho de 2024, quando as exportações brasileiras de feijão-preto chegaram a 90 mil toneladas.
Na época, a alta demanda estimulou os preços de comercialização. “Nós procuramos alertar os produtores sobre a estratégia que seria a mais adequada para esse ano, que seria plantar com um contrato prévio com um exportador ou com um empacotador, mas os produtores entenderam que seria interessante assumir esse risco”, relatou Lüders.
O resultado é uma oferta muito superior à demanda. “Nós temos esse ano, segundo os números da Conab apurados até agora, cerca de 60% a mais de feijão do que nós tivemos há 10 anos. Mas nós não temos um consumo 60% superior, ainda que as exportações continuem esse ano, e estão continuando, porém não em volumes próximos aos números do ano passado”, salientou.
Ele alerta para o risco de consequências no mercado em 2026. O dirigente do Ibrafe acredita que, como reflexo do quadro atual no campo — excesso de oferta e preços baixos —, haverá uma redução no plantio no próximo ciclo. “Vamos ter um efeito rebote de tudo isso com uma diminuição na oferta do feijão preto em algum momento no ano que vem”, destaca.
Além disso, com o crédito rural mais caro, Lüders pontua que muitos produtores recorreram a recursos próprios e evitaram investir em tecnologia e insumos, temendo prejuízos. Diante desse cenário, o setor clama por uma atuação mais firme do governo, por meio de mecanismos como Prêmio para Escoamento de Produto (PEP), Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (PEPRO) ou contratos de opção, que garantam o escoamento da produção e a manutenção da renda mínima ao agricultor.
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