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Clima

Fenômenos extremos: especialistas explicam tornados e ciclones no Brasil

Meteorologistas explicam a diferença entre tornado, ciclone e furacão e como as mudanças climáticas afetam os eventos climáticos no Brasil

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Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com

04/01/2026 - 07:00

Foto: Adobe Stock
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Neste ano, a passagem de ciclones e tornados pelo Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul despertou a curiosidade da população, de forma geral, sobre fenômenos atmosféricos extremos. O que define um tornado, ciclone e furacão? Eles sempre ocorreram no Brasil ou estão aumentando em decorrência das mudanças climáticas?

Segundo a equipe do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), os fenômenos são distintos e as diferenças envolvem tamanho, duração e formação.

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A principal diferença está na escala. Ciclones são sistemas amplos e duradouros. Tornados são pequenos e breves, porém muito intensos. Furacões pertencem a uma categoria específica de ciclones, restrita a certas regiões do planeta.

Como os ciclones se formam e onde ocorrem

São sistemas atmosféricos de baixa pressão. Os ventos giram em espiral ao redor de um centro. “Essa rotação ocorre no sentido horário no Hemisfério Sul, devido à ação da força de Coriolis, que é o efeito da rotação da Terra sobre a movimentação do ar”, afirma Júlia Munhoz, meteorologista do Simepar.

No centro do ciclone, o ar sobe. Isso favorece a formação de nuvens e chuva. São sistemas de grande escala, capazes de atingir centenas ou milhares de quilômetros, com duração de vários dias. “Os ciclones são muito frequentes na América do Sul. Como exemplo, toda frente fria que avança é associada a um ciclone”, diz Júlia.

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Tipos de ciclones

Os extra tropicais atuam em latitudes médias, onde há encontro de ar quente e frio. Esse contraste organiza frentes frias e quentes, provoca chuva, ventos fortes e queda de temperatura. São mais comuns sobre o oceano, na altura do litoral do Uruguai e do Rio Grande do Sul.

Subtropicais têm características intermediárias. Formam-se sobre o oceano, em áreas de temperatura moderada, com parte do sistema quente e úmido e outra sob influência de ar mais frio em altitude. São parcialmente simétricos.

Já os ciclones tropicais se desenvolvem sobre águas quentes, que fornecem calor e umidade. São mais organizados, com centro bem definido e núcleo quente. Recebem nomes diferentes conforme a região: furacão, tufão ou ciclone tropical severo, embora sejam o mesmo fenômeno.

Furacão Catarina deixou 11 mortes e milhares de desabrigados em 2004. Foto: Defesa Civil SC/Divulgação

No Atlântico Sul, são raros devido à temperatura mais baixa do mar. O único registro foi o furacão Catarina, em março de 2004, que atingiu o Sul do País e provocou ventos superiores a 180 quilômetros por hora no litoral do Paraná por algumas horas.

O que é um tornado?

Tornados são fenômenos muito menores e extremamente concentrados. Em geral, surgem a partir de tempestades severas, especialmente as supercélulas (tempestades intensas e organizadas, que podem durar várias horas), que apresentam uma região interna de rotação, chamada mesociclone (área onde o ar gira em torno de um eixo dentro da nuvem).

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formação tornado
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“O tornado se forma quando essa rotação se intensifica e se estende até o solo. Embora seus ventos possam superar os de um furacão, os tornados têm dimensões muito reduzidas — normalmente centenas de metros a poucos quilômetros — e duram poucos minutos. Seus impactos são altamente localizados, enquanto os ciclones podem afetar regiões inteiras durante vários dias”, afirma Júlia.

A região Centro-Sul da América do Sul é uma das mais propensas à formação de tornados. No Brasil, o oeste dos estados do Sul concentra cerca de 70% dos registros. “Essa maior propensão está relacionada, em grande parte, ao papel da Cordilheira dos Andes, que atua como uma barreira topográfica canalizando o escoamento de noroeste em níveis médios da atmosfera, por volta de 1.500 metros”, explica Samuel Braun, meteorologista do Simepar.

Segundo ele, esse fluxo transporta grande volume de umidade da Amazônia para o Centro-Sul do continente. O acúmulo de umidade, combinado à passagem frequente de frentes frias, aumenta a instabilidade.

“Esse contraste contribui para a aceleração dos ventos com a altura, gerando cisalhamento vertical do vento. Esse mecanismo cria rotação horizontal no escoamento do ar. Quando essa rotação é incorporada a uma corrente ascendente intensa, típica de tempestades severas, o tubo de ar em rotação é inclinado e verticalizado, podendo originar a estrutura rotativa característica de tornados associados a supercélulas”, afirma Samuel.

Tornados no Brasil: sempre existiram? 

tornado
Tornado atingiu em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, em dezembro de 2025. Foto: Defesa Civil-RS/Divulgação

Segundo o meteorologista Alexandre Nascimento, sócio-diretor da Nottus, os tornados não são fenômenos novos no Brasil. O que mudou foi a frequência das condições favoráveis e a capacidade de identificá-los.

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De acordo com o especialista, as mudanças climáticas não criam o fenômeno, mas aumentam o número de situações favoráveis. “De fato, as mudanças climáticas proporcionam uma condição instável e extrema de forma mais frequente. Isso aumenta a possibilidade de ocorrência de tornados.”

Nascimento destacou que a evolução tecnológica mudou a forma de monitorar o tempo severo. “No fim da década de 90, era muito difícil prever se o tempo ia mudar dali a três ou quatro dias. Hoje, a gente faz previsão para 10 ou 15 dias”.

Apesar do avanço, ele pondera que o Brasil ainda tem limitações. “A tecnologia melhorou muito, mas poderia ser melhor. A gente poderia ter mais radares, inclusive radares duplos, que conseguem enxergar a formação do tornado. São equipamentos muito caros.”

Por que ainda é difícil prever um tornado com precisão?

O meteorologista explicou que não existe previsão exata de tornados, nem mesmo em países com mais estrutura. “Sempre se fala que os Estados Unidos preveem tornados. Na verdade, eles preveem a possibilidade de tempo severo. O tornado em si só é detectado quando começa.”

Segundo ele, é possível indicar áreas com risco elevado, mas não o ponto exato. “Você consegue dizer que naquela região existe grande chance de formação. Agora, se vai ser na esquina X ou Y, não dá.”

No Brasil, a identificação ainda depende de monitoramento constante. “Com o que a gente tem hoje, já conseguimos confirmar a possibilidade de tempo severo com alguns dias de antecedência. Para enxergar o tornado em tempo real, seriam necessários radares funcionando 24 horas, algo que ainda não é realidade em grande parte do País.”

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