Teresa Vendramini
Produtora Rural, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Tudo é culpa do Agro?
Na psicologia, há uma máxima que diz: o maior inimigo somos nós mesmos. No Brasil, acredito que estamos seguindo por esse mesmo caminho
26/05/2025 - 08:00

Acabo de voltar da Rússia, onde fui mostrar na reunião do Brics o gigantismo do agronegócio brasileiro e, sobretudo, sua responsabilidade incontestável em garantir a segurança alimentar do planeta. Uma preocupação mundial que, inclusive, vem mexendo com a geopolítica e com as relações internacionais.
Ao retornar ao Brasil, me deparo com uma série de desafios na questão sanitária, na segurança jurídica, no direito à propriedade, na regularização ambiental ou na guerra de narrativas, que só atrasam um país que ainda tem muito a construir. Parece que tudo é culpa do agro. Sempre se dá um jeito de colocar o setor no centro da história. Não vejo, por exemplo, o setor dos combustíveis fósseis — sabidamente um dos maiores poluidores do planeta —, ser citado tantas vezes nessas narrativas. Ou o setor da aviação que, a cada decolagem, promove emissões significativas. Talvez porque, no Brasil, a ordem das prioridades tenha se invertido.
Somado a isso, enfrentamos desafios significativos. Veja o caso da gripe aviária identificada no Rio Grande do Sul. A doença, já detectada em granjas comerciais em inúmeros países, trouxe impactos relevantes não só para os avicultores, mas também para agricultores e pecuaristas, que viram o mercado travar nesta semana. São investimentos altos que os produtores fazem, assumindo riscos elevados, não só porque é uma produção a céu aberto, mas também porque estão sujeitos a muitas variáveis que podem comprometer a saúde financeira por anos.
Para adicionar mais uma camada, há ainda o famoso “Custo Brasil”, muitas vezes promovido pela burocracia. O projeto de lei (PL2159/2021) sobre as licenças ambientais, aprovado nesta semana no Senado, busca reduzir esse impacto. Não se trata de um papel em branco para o agronegócio, porque temos o Código Florestal, legislação ambiental que prevê regras bem definidas sobre o uso da terra e áreas de conservação. É, de fato, uma medida para desburocratizar, evitando duplas interpretações, trazendo segurança jurídica e promovendo avanços e investimentos, que vão contribuir com a produção e com o acesso de mais pessoas à comida na mesa.
A produção de alimentos é uma atividade essencial. Representa saúde pública, soberania nacional e a paz, como diz nosso ministro Roberto Rodrigues. E só quem está no campo conhece de perto os desafios. Mas já é hora da cidade se aproximar do setor produtivo e entender que, essa atividade, aqui no Brasil, merece aplausos e reverência. Com tecnologia e muito trabalho, fizemos uma revolução que garantirá a segurança alimentar para as futuras gerações. Portanto, criar narrativas contra o agro é ir contra a nossa vocação, contra os brasileiros e contra um mundo que precisa de nós.
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