Teresa Vendramini
Produtora Rural, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Rastreabilidade, um grande desafio para o pecuarista
Os pequenos criadores serão os maiores penalizados com a obrigatoriedade do Programa Nacional de Rastreabilidade. E são eles os responsáveis por grande parte dos bezerros que são recriados e engordados
24/03/2024 - 14:48

Cheguei há pouco do Pará, estado líder na produção nacional de açaí, abacaxi, cacau, dendê e mandioca. Em meio a tantas riquezas naturais, encontrei muitos desafios. A realização da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em 2025, aumentou a pressão sobre um tema que se arrasta há anos: a obrigatoriedade da rastreabilidade individual dos bovinos.
Com o segundo maior rebanho do país, o Pará tem o terceiro pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Um contraste gigantesco. Dados levantados pela consultoria ambiental Niceplanet, são mais de 314 mil CARs (Cadastro Ambiental Rural) registrados no estado, sendo que 90% deles têm até 300 hectares, 35% estão em assentamentos e 52% dos cadastros com restrição por desmatamento estão dentro dos projetos de assentamentos.
Esses números mostram que serão os pequenos criadores os maiores penalizados com a obrigatoriedade do Programa Nacional de Rastreabilidade. E são eles os responsáveis por grande parte dos bezerros que são recriados e engordados.
Em um país, onde a irregularidade ambiental é grande e a regularização fundiária patina, é primordial que esses itens caminhem antes da rastreabilidade, dando oportunidade de regularização ao produtor.
Os pecuaristas paraenses têm consciência que a rastreabilidade é o futuro e uma tendência sem volta, mas é preciso tempo, apoio e, sobretudo, extensão rural. Também um plano de bonificação para incentivar e custear as adaptações necessárias. Veja o exemplo do “Boi China” – apesar dos atuais preços não tão remuneradores – foi um grande impulsionador dos índices produtivos do rebanho nacional.
Exemplos de rastreabilidade voluntária existem, inclusive no Pará. O governo do estado criou o “Programa de Integridade e Desenvolvimento da Cadeia Produtiva de Bovinos Paraenses”, que vai aplicar brincos de identificação nos animais para rastrear individualmente. Tem ainda o Programa Sustentável de Bezerros, lançado pelo IDH e FAEPA (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará) e o Programa de Rastreabilidade Individual e Monitoramento de Indiretos (PRIMI), uma iniciativa pioneira do Frigorífico Rio Maria. Além da JBS, que possui uma plataforma de pecuária transparente, que possui critérios sócio ambientais, entre eles desmatamento, invasão em terra indígena ou quilombolas e trabalho análogos à escrevidão.
Aguardamos, agora, a proposta do Governo Federal, que pretende – segundo notícia recente – implementar a rastreabilidade ainda este ano com perspectivas de rastrear de 30% a 50% do rebanho nacional até 2026. No entanto, reafirmo minha posição de que é preciso mais tempo para o pecuarista se organizar e, principalmente, abolir a ideia da obrigatoriedade. Só assim é possível avançar nessa pauta.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Opinião
1
Setor do biodiesel e agronegócio aguardam confirmação de B16 para março
2
25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro
3
Comércio Internacional em 2026: A (Des)Ordem Globalizada
4
Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?
5
A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Opinião
A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia
Entenda quais são os próximos passos, tanto na Corte Europeia quanto nos países do Mercosul, para que o tratado passe a valer
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
Setor do biodiesel e agronegócio aguardam confirmação de B16 para março
A decisão reforça o previsto no Combustível do Futuro e é fundamental para garantir estabilidade ao setor, segurança jurídica para os investimentos e previsibilidade
loading="lazy"
Francisco Turra
Opinião
25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro
A inovação agropecuária deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica: produzir mais não basta; o desafio é produzir melhor, com eficiência e valor agregado
loading="lazy"
Celso Moretti
Opinião
Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?
Dólar, preços internacionais, demanda asiática e produtividade das lavouras devem exigir maior gestão dos produtores rurais no próximo ano
loading="lazy"
Marcos Fava Neves
Opinião
Comércio Internacional em 2026: A (Des)Ordem Globalizada
Exportadores encaram um ambiente volátil, marcado pela imprevisibilidade e por decisões políticas que enfraquecem regras multilaterais
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
Qual o custo do futuro?
Os perigos das recentes aprovações do Congresso brasileiro no campo agroambiental para a economia e a dinâmica dos negócios
loading="lazy"
Marcello Brito
Opinião
Com biodiesel, Brasil consolida bioeconomia de baixo carbono
Com recordes de produção e de consumo – e metas ampliadas de mistura –, o biodiesel é pilar de uma matriz energética mais sustentável e estratégica para o País
loading="lazy"
Francisco Turra
Opinião
Marcos Fava Neves: 5 pontos do agro para acompanhar em dezembro
Safra, dólar, tarifas e crédito verde: conheça os assuntos que os produtores devem monitorar neste fim de ano
loading="lazy"
Marcos Fava Neves