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José Carlos Vaz

Advogado e consultor, mestre em direito constitucional, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

Política Agrícola entre safras e modelos

Lanço aqui neste texto um vaticínio de bons resultados para os produtores, mas com muito trabalho e angústia 

08/05/2025 - 08:00

Foto: Adobe Stock
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Maio é tradicionalmente o mês de afunilamento das expectativas dos tomadores de decisão no agronegócio quanto ao comportamento dos preços, do mercado e das relações de troca nos próximos e fundamentais cinco meses, mesmo com toda a incerteza quanto ao que acontecerá com aqueles parâmetros depois do redesenho do comércio mundial, que ainda está no estágio de demolição. 

O mundo e o Brasil estão tão parados nos últimos meses, que nem se percebe a completa ausência de governança da política agrícola no país. Aliás, de qualquer governança política.

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Nos tempos bons e nos tempos ruins, sempre se tem duas agendas: a micro, em que o empresário cuida do seu negócio como ele está, e a macro, onde se tenta moldar as instituições e criar condições de segurança jurídica, previsibilidade econômica, crédito e confiança, e com isso mudar as matrizes produtivas.

O novo plano de safra está chegando (!?) e por enquanto o que apareceu foi chavão, bazófia, fanfarrice, estultice: o custo da Selic; recursos para o seguro rural; estoques reguladores; crédito com variação cambial; financiar para não desmatar, mesmo que autorizado pela lei….E vai por aí: não há que se esperar uma agenda macro de política agrícola.

O produtor rural não poderá esperar que o confuso e inepto executivo faça algo mais do que tentar ganhar as eleições internas do PT, ou que os parlamentares se disponham a sair da miudeza das emendas e das indicações políticas para repensar o país, alentar o povo e pacificar a sociedade.

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O produtor vai cuidar da sua agenda micro: custos, tecnologia, provisões, eficiência, trava, hedge etc.

Certamente será plantada área igual ou maior que a dos ciclos anteriores. Ninguém vai ser louco de deixar a terra descoberta e os ativos ociosos (quem não tiver recursos vai arrendar para quem tem). O que não se sabe ainda é como, com que nível de tecnologia.

Projeto boa tecnologia em 2025, inclusive com retomada do mercado de máquinas e equipamentos, mas as revendas ainda passarão por muita “sofrência”, até aprenderem que não são bancos. 

E um 2026 com “boom” de investimentos, com muita compra de maquinário da China (a Abimaq será o último bastião a cair?) e mais acesso ao mercado de capitais.

No mix de produção nada diferente do de sempre, observadas as circunstâncias. E a logística da região Norte precisará ainda mais de reforços (mas cuidado com o “canto das sereias”: para fluxo, não para estoque).

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As safras brasileiras de soja e milho a serem plantadas em 2025 e 2026 já estão vendidas (para a China, claro, que sempre vai cobrir os lances da concorrência, por questões geopolíticas ou socioculturais), e a não ser que ocorram extremos problemas climáticos, os resultados dos produtores serão melhores do que nos últimos dois anos. 

A China vai pagar o que for necessário para assegurar estoques significativos até o término do mandato presidencial americano em curso. Como ficará o fornecimento para as plantas nacionais de biocombustíveis?

Provavelmente o presidente Trump vai virar “pato manco” nas eleições parlamentares, pois não terá tempo para gerar “bondades” suficientes para o eleitorado americano até lá. Mas, “manco” ou não, no segundo ou no terceiro mandato, na Casa Branca ou na casa laranja, ele já marcou os Estados Unidos como um país não confiável para a China (assim como para a UE, a Rússia, a Índia, o Canadá, a Dinamarca…).

Como sempre, os custos de produção dos alimentos da “cesta básica” vão crescer tanto como os do milho e os da soja (pois NPK é sempre NPK), mas as margens não serão similares, pois cada produto tem seu mercado e seus diferenciais positivos/negativos. Onde der empate, ganha a soja.

Assim, se houver governança na política agrícola, será conveniente lançar opções de venda de arroz e milho (feijão?) que assegurem resultado similar ao da soja (pois, como disse, a China será muito gulosa). 

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Recentemente o Agro Estadão publicou análise bem sólida da Markestrat sobre o agro do Brasil e a China. Fiquei surpreso com a pobreza qualitativa das trocas entres os países. 

Particularmente acredito que não há como a China deixar de comprar do Brasil, e o Brasil deixar de plantar e vender para a China: é um mercado à parte, algo que os “players” e, pior, as lideranças políticas, empresariais e acadêmicas, ainda não perceberam. 

Com as transações comerciais mundiais fadadas a ficarem divididas entre dois blocos econômicos antagônicos (China e Estados Unidos) e duas massas amorfas e oportunistas (Índia e União Europeia), a liquidez do soja vai rachar e os referenciais de Chicago não servirão para balizar o comércio sino-brasileiro. 

Percebo claro vácuo de liderança política e empresarial quanto ao que se desenhar para nossas relações com aquele país. As notícias quanto à próxima visita do presidente Lula à China indicam uma pauta “micro”, desenhada de acordo com as visões de cada empresário ou segmento, e não a pauta “macro”, entre os dois Estados, que configure uma relação econômica previsível, confiável, regulada, sólida e segura: uma relação “ganha-ganha”.

Ainda que não se consiga estabelecer uma pauta “soberana”, com certeza a China vai remunerar bem nosso agro (não por bondade, mas por necessidade). Mas como fazer para que eles incrementem nossa atividade industrial? Continuaremos só vendendo soja e ficando com a pobreza?

A produção de alimentos pelo Brasil para a China deve ser anzol para captura de investimentos chineses em produção industrial local, com capacitação tecnológica dos brasileiros. E na logística.

É preciso que China e Brasil parem de “ficar”, e estabeleçam compromissos recíprocos de preservação e “casamento de longo prazo”, com definição de parâmetros próprios e dinâmicos para a seleção das trocas insumos/produtos, onde uma planilha Excel terá o mesmo efeito de uma moeda comum.

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