Teresa Vendramini
Produtora Rural, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Diante da instabilidade global, precisamos de bons parceiros
Pacto Mercosul-UE é uma alternativa estratégica para ambos, que precisam reduzir a dependência da China, driblar as tarifas de Trump e diversificar mercados
16/03/2026 - 14:55

A guerra no Oriente Médio entrou na terceira semana. Já são mais de quinze dias de conflito e suas consequências começam a chegar ao Brasil e, inevitavelmente, para dentro da porteira. Temos a expectativa de aumento nos preços dos fertilizantes. Agora, a alta do diesel, que ocorre justamente em um momento de colheita e de escoamento da safra 2025/2026. Mais uma vez, o produtor rural brasileiro sente na pele os reflexos das instabilidades geopolíticas.
Desde o advento da COVID-19, o agro passou a conviver com uma sequencia de choques globais. Pandemia, guerras e disputas tarifárias passaram a fazer parte da rotina de quem produz. Nunca vivemos um período tão prolongado de incertezas internacionais como estamos vendo nos últimos anos. Esse é, talvez, o preço a ser pago pela globalização e também pelo protagonismo crescente do agronegócio brasileiro no cenário mundial.
O desafio, portanto, é aprender a lidar com esse ambiente com inteligência, estratégia e gestão de longo prazo. E uma das respostas mais eficientes para esse cenário é diversificar mercados e estabelecer parcerias comerciais sólidas. O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia é exemplo disso. Tive a oportunidade de estar recentemente em Bruxelas, onde acompanhei de perto algumas das discussões que cercam esse acordo. Posso dizer que as expectativas são grandes. Há, sobretudo, uma percepção clara de que, diante do cenário geopolítico que se desenha, essa parceria pode se tornar estratégica para os dois lados.
Apesar das salvaguardas, há muito a se comemorar. O acordo cria uma integração comercial que envolve cerca de 718 milhões de pessoas, conectando dois dos maiores mercados do planeta. Como dito, o pacto também é uma alternativa estratégica para ambos, que precisam reduzir a dependência da China, driblar as tarifas de Trump e diversificar mercados.
O acordo traz uma redução significativa nas barreiras comerciais ao longo dos próximos anos. O Mercosul deverá eliminar tarifas para 91% dos bens europeus em um prazo de até quinze anos, enquanto a União Europeia prevê retirar tarifas para 95% dos produtos do Mercosul em até doze anos.
Alguns produtos do setor da indústria do bloco do Mercosul, como máquinas, automóveis e produtos químicos, terão tarifa zero no mercado europeu assim que o acordo entrar em vigor. Do lado do agronegócio, as reduções serão graduais para produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol.
Em um mundo cada vez mais marcado por tensões geopolíticas e disputas comerciais, precisamos de bons parceiros, que ampliem a nossa previsibilidade e, principalmente, que busquem o diálogo nas negociações. Por isso acredito que o acordo entre Mercosul e União Europeia pode representar não só a abertura de mais um mercado, mas também um passo rumo a um ambiente comercial mais estável em uma conjuntura internacional cada vez mais incerta.
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