Celso Moretti
Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Conflito no Golfo e biodiesel: uma oportunidade estratégica para o Brasil
A crise energética global pode acelerar a ampliação da mistura no diesel brasileiro
20/03/2026 - 08:45

Periodicamente o mundo é lembrado de que o petróleo continua sendo um dos ativos mais sensíveis da economia global. Basta uma escalada de tensões no Oriente Médio — especialmente na região do Golfo — para que os preços internacionais reajam rapidamente. Não é por acaso. Em condições normais, cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo estreito de Ormuz. O Brasil importa entre 25 e 28% (≈ 17 bilhões de litros em 2025) do diesel que consome, o que expõe o país a choques de preços.
Quando a instabilidade aumenta naquela região, os reflexos se espalham rapidamente pela economia mundial. O preço do petróleo sobe, o diesel encarece e os custos logísticos passam a pressionar cadeias produtivas inteiras. O Brasil não está imune a esse movimento.
Em um país onde o transporte rodoviário domina a logística — e onde o agronegócio depende fortemente dessa infraestrutura para escoar sua produção — qualquer aumento no preço do diesel se transforma rapidamente em aumento de custos, o que pressiona ainda mais as margens já apertadas dos produtores brasileiros. É nesse contexto que um debate volta a ganhar força: uma crise do petróleo pode acelerar a expansão do biodiesel no Brasil? Há bons argumentos para acreditar que sim. Mas há ressalvas.
Nas últimas duas décadas, o país construiu uma das cadeias de biocombustíveis mais consistentes do mundo. O biodiesel deixou de ser uma aposta tecnológica para se consolidar como componente estrutural da matriz energética do transporte. Hoje, o diesel comercializado no Brasil já incorpora uma parcela obrigatória de biodiesel — resultado de uma política pública que buscou, ao mesmo tempo, fortalecer a segurança energética, reduzir emissões e estimular a agroindústria. Com a mistura de 15% de biodiesel no diesel, o chamado B15, o Brasil já produz cerca de 10 bilhões de litros de biodiesel por ano. Cada adição de 1% de mistura substitui 700–800 milhões de litros de diesel fóssil. Nada desprezível.
Nesse cenário, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou no início do mês de março a proposta de ampliação da mistura obrigatória para B17. A proposta ocorre diante de um ambiente internacional marcado por volatilidade energética e poderia acrescentar ao redor de 2 bilhões de litros de biodiesel por ano. O aumento da mistura teria impactos em diferentes frentes. Em primeiro lugar, poderia reduzir a necessidade de importação de diesel, fortalecendo a segurança energética nacional. Adicionalmente, estimularia a cadeia agroindustrial, particularmente a produção de soja, que responde pela maior parte da matéria-prima utilizada na produção de biodiesel no Brasil.
Esse ponto merece destaque. A produção de biodiesel não gera apenas combustível renovável. Ela também amplia a oferta de farelo de soja — um insumo fundamental para a alimentação animal e, portanto, para a competitividade das cadeias de aves, suínos e bovinos. Trata-se, na prática, de um sistema integrado que conecta energia, proteína animal e geração de renda no campo.
É claro que decisões dessa natureza exigem planejamento. A ampliação da mistura precisa considerar fatores como o comportamento dos preços das matérias-primas agrícolas, a capacidade industrial instalada, a logística de distribuição, a estabilidade regulatória do setor e aspectos técnicos relacionados à manutenção de motores com combustíveis com maior percentagem de biodiesel.
Feitas estas ponderações, poucos países reúnem condições tão favoráveis para avançar nessa agenda. O Brasil combina agricultura altamente competitiva, indústria instalada e experiência regulatória acumulada ao longo de décadas no desenvolvimento de biocombustíveis.
O uso de combustíveis renováveis ganha cada vez mais peso no comércio internacional em função da possibilidade de descarbonização das cadeias produtivas. Em um cenário global no qual mercados e consumidores passam a exigir produtos com menor pegada de carbono, fortalecer a matriz de biocombustíveis pode se transformar também em vantagem competitiva para o agro brasileiro.
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