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Celso Moretti

Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

A ciência agropecuária como um dos pilares no combate à insegurança alimentar e à fome

Pelo menos quatro dos desafios vividos pelo mundo começam com a letra “C”: Covid-19, confronto, clima e comida

03/06/2024 - 05:00

Foto: Adobe Stock
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A Covid-19 causou a ruptura de cadeias produtivas e falta de abastecimento. A ciência foi a saída para a solução de uma das maiores pandemias da história da humanidade. Confrontos em várias partes do mundo, como na Síria, no Iêmen, na Ucrânia e na faixa de Gaza, causam o deslocamento de pessoas e, invariavelmente, contribuem para o aumento da insegurança alimentar e fome. As mudanças climáticas têm causado eventos extremos e cada vez mais intensos. É também a ciência que auxilia no entendimento das mudanças climáticas e possibilita a proposição de ações de mitigação e adaptação. Na agricultura brasileira, a adaptação tem como aliada os sistemas integrados de produção. Um exemplo de sucesso é a integração lavoura, pecuária e floresta (iLPF), que tem contribuído para incorporar pastagens degradadas à matriz produtiva brasileira. E por último, o “c” de comida. A preocupação de governos é crescente neste tema. 

A insegurança alimentar e a fome são flagelos que atingem parte significativa da população mundial. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), quase 30% da população apresentava insegurança alimentar moderada ou grave em 2022. Isso significa algo em torno de 2,4 bilhões de pessoas. Destes, aproximadamente 900 milhões sofriam de grave insegurança alimentar. No mesmo diapasão, a fome, medida pela prevalência da subnutrição, afetava em torno de 9% das pessoas no mundo em 2022, valores acima dos observados no período pré-pandemia de COVID-19 (2019), que giravam ao redor de 8%. Mais: ao redor de 700 milhões de pessoas no mundo enfrentaram a fome em 2022. Se comparado a 2019, o número de famintos aumentou em mais de 100 milhões de pessoas em todo o mundo.

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A ideia não é torturar o leitor com estatísticas e números. O foco aqui é contribuir para compreender de que maneira países ao redor do globo podem mudar a situação de insegurança alimentar e fome em que se encontram. Nos dias 28 e 29 de maio, em São Paulo, ocorreu a Conferência Internacional “Josué de Castro” sobre Segurança Alimentar e Combate à Fome. O evento teve como patrono Alysson Paulinelli, ex-ministro da agricultura e um dos responsáveis pela conquista dos cerrados. Autoridades de várias partes do mundo se reuniram para compartilhar ideias e experiências. Apesar de o problema ainda persistir no Brasil, o país tem muito a contribuir com o mundo quando o tema é segurança alimentar e combate à fome.

De fato, no final dos anos 60 o Brasil vivia uma situação completamente diferente. Havia a preocupação de que o país não teria alimentos suficientes para abastecer quase 90 milhões de brasileiros. Importávamos leite dos EUA e feijão do México, para ficar em dois exemplos. Não havia tecnologia para a produção nos trópicos. Importávamos e adaptávamos tecnologias do mundo temperado, nem sempre suficientes para aumentar a produção de alimentos, fibras e bioenergia. Foi no início dos anos 70 que o país começou a mudar este cenário. O estabelecimento de uma aliança para o desenvolvimento agropecuário, composta de institutos de pesquisa, universidades, assistência técnica e extensão rural, produtores e empresários rurais possibilitou que o país começasse a gerar tecnologias adaptadas aos trópicos. Ao longo das últimas cinco décadas a tecnologia agropecuária transformou o Brasil de importador para um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. O investimento consistente em pesquisa, desenvolvimento e inovação agropecuária foi a chave para essa transformação. Hoje o Brasil é um dos poucos países, se não o único, a ter tecnologia para a produção agropecuária no cinturão tropical. A transformação de solos ácidos e pobres em terra fértil, sobretudo nos cerrados, a criação de plataformas de produção sustentável, como o sistema iLPF, e a tropicalização de animais e plantas estão no cerne da mudança de um país que vivia em insegurança alimentar. Na tropicalização de cultivos está o desenvolvimento do trigo tropical. Ao lado do milho, é um dos cereais mais plantados do mundo. Sobretudo na zona temperada. A ciência agropecuária vem possibilitando que o Brasil produza trigo nos cerrados e até sobre a linha do Equador. Tal feito abre uma fantástica possibilidade de se produzir trigo em outras zonas tropicais no mundo, como a África, continente que possui milhões de hectares de terras agricultáveis e savanas similares aos cerrados. 

A história é longa. Mas a ideia aqui não é conta-la. O propósito é mostrar que com investimentos acertados é possível mudar a realidade de vários locais no mundo, sobretudo os localizados no cinturão tropical. Obviamente, não existem soluções simples para problemas complexos. Não se trata de um “copia e cola” das soluções brasileiras para outras regiões do globo. Como visto, com investimentos acertados em capacitação de pessoas e construção de instituições sólidas é possível contribuir para a mudança da realidade de países ao redor do globo. Sem sombra de dúvida, a saga da agricultura tropical no Brasil serve de inspiração para que outros países possam também reduzir a insegurança alimentar e avançar no combate à fome. 

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