Agropolítica
Aço: Com tarifas, Abimaq prevê alta nas exportações de máquinas agrícolas do Brasil
Tarifa de 25% sobre aço e alumínio estão em vigor; governo brasileiro seguirá em negociação com os EUA
Paloma Custódio | Brasília | paloma.custodio@estadao.com e Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
12/03/2025 - 11:32

A taxa norte-americana de 25% sobre o aço e o alumínio do Brasil e de outros países, independentemente da origem, entrou em vigor nesta quarta-feira, 12.
A União Europeia, atingida pela medida, afirmou que a partir de 1º de abril irá aplicar taxas sobre 26 bilhões de euros em produtos dos Estados Unidos.
No caso do Brasil, neste primeiro momento não deve haver retaliação. Segundo o ministro Fernando Haddad, por orientação do presidente Lula, o Brasil seguirá na mesa de negociação com os EUA. Haddad falou com a imprensa após reunião, na manhã desta quarta-feira, com representantes do Instituto Aço Brasil.
Na última semana, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, teve uma reunião com o secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick, para tratar das taxas e sobretaxas dos EUA. Outro encontro deve ocorrer nos próximos dias, mas ainda sem data definida.
Somente no ano passado, a indústria do Brasil respondeu por cerca de 15% de todas as importações de aço feitas pelos EUA, representando 4,61 milhões de toneladas líquidas, segundo relatório da American Iron and Steel Institute.
Abimaq prevê alta nas exportações de máquinas agrícolas brasileiras para os EUA
Apesar do impacto ao setor, o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, afirmou que a medida pode beneficiar a exportação de máquinas agrícolas brasileiras para os EUA, já que o mercado consumidor norte-americano será prejudicado pelo aumento dos preços.
“[Se aplicar] imposto de importação, o aço vai ficar mais caro nos EUA e isso vai prejudicar a indústria norte-americana de máquinas agrícolas e todos os setores que utilizam o aço como matéria-prima. Aqui no Brasil, não acontece nada”, avalia. Segundo Velloso, o Brasil exporta US$ 14 bilhões por ano em máquinas, sendo 26% desse total destinado aos EUA. “Esse volume de máquinas que vendemos para os EUA pode aumentar. Elas [máquinas] vão ficar mais competitivas porque nos EUA vão ficar mais caras”, afirma Velloso, ao Agro Estadão.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) optou por não se pronunciar sobre o assunto no momento, informando à reportagem do Agro Estadão que se manifestará durante coletiva de imprensa prevista para esta semana.
Taxação do aço pode beneficiar o agro brasileiro
Como mostrou a reportagem do Agro Estadão, a taxação das importações do aço e do alumínio também pode beneficiar o agronegócio brasileiro no mercado internacional. A decisão de Trump não mira diretamente o Brasil, mas os chineses, e repete a mesma estratégia econômica feita no primeiro mandato do presidente, quando os EUA impuseram uma taxa de 25% sobre as importações de aço e de 10% sobre as de alumínio. Na época, o governo chinês retaliou impondo tarifas sobre mais de 120 produtos norte-americanos, muitos deles agropecuários, como frutas, suínos e soja.
Na reportagem, o ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e também colunista do Agro Estadão, Welber Barral, avaliou que o agronegócio brasileiro pode se beneficiar com o aumento da demanda da China. “Isso aconteceu no outro governo Trump. A China começou a comprar mais soja e carnes do Brasil. Então acabou beneficiando o Brasil naquela outra vez. Teoricamente, poderia acontecer de novo”, disse à reportagem.
Impacto sobre a indústria brasileira
O professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Joelson Sampaio, avalia que algumas empresas brasileiras do setor do aço tendem a sofrer mais com a taxação norte-americana. “Empresas como a ArcelorMittal, que tem uma exportação bastante significativa para os EUA, tenderão a sofrer mais. Empresas como a Cemig, que exporta mais para a América Latina e outros países, tendem a sofrer menos”, destacou em entrevista ao Agro Estadão.
Em nota, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, lamentou a decisão do governo norte-americano. “Vamos atuar em busca do diálogo para mostrar que há caminhos para que seja revertida. Temos todo o interesse em manter a melhor relação comercial com os EUA, que hoje são o principal destino dos produtos manufaturados do Brasil, mas precisamos conciliar os interesses dos setores produtivos dos dois países”, ressalta.
Trump aplicará tarifas recíprocas sobre o etanol
Durante um discurso no Congresso norte-americano na semana passada, Donald Trump anunciou que, a partir de 2 de abril, irá implementar a política de tarifas recíprocas sobre países que cobram altas taxas dos EUA. Na ocasião, o republicano citou novamente o Brasil.

Conforme memorando assinado em fevereiro, Trump ordenou que sua equipe avaliasse a taxação brasileira sobre o etanol norte-americano. A medida, segundo o documento, visa corrigir desequilíbrios históricos no comércio internacional, uma vez que a tarifa de importação do etanol brasileiro é de 18%, enquanto o etanol exportado pelos EUA para o Brasil enfrenta uma tarifa de apenas 2,5%.
Caso não haja acordo entre o governo brasileiro e os Estados Unidos, a partir de 2 de abril, entrará em vigor a tarifa de 18% sobre as exportações de etanol norte-americano para o Brasil. Ao Agro Estadão, o ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, Rubens Barbosa, disse que, com essa medida, os países irão reorganizar suas exportações, uma vez que os EUA e a China são os principais mercados globais.
“No caso americano, eles vão ficar fechados ou vão diminuir muito espaço para a exportação do resto do mundo. Porque o objetivo principal do Trump é, primeiro, reduzir o déficit comercial. Depois, as políticas industriais para criar investimentos nos EUA, com transferência de fábricas do México, do Canadá e de outros países para os EUA. Então, dependendo do tempo que essa política for mantida, vai criar um constrangimento para o sistema de comércio internacional, afetando todos os países”, detalha.
Reuniões bilaterais Brasil x EUA
A política tarifária dos Estados Unidos (EUA) foi o tema central da reunião entre o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, e o secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick, na última quinta-feira, 06.
Em comunicado, o MDIC apontou que ambas as partes concordaram em manter, nos próximos dias, reuniões bilaterais para tratar das tarifas de importação sobre aço do Brasil e a aplicação de reciprocidade sobre o etanol.
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