Agropolítica
Entidades antecipam debate do Plano Safra 26/27 com foco em dívida e mudanças climáticas
Grupo com 400 representantes do setor privado leva contribuições e cobra medidas mais eficazes no próximo plano agrícola e pecuário.
Redação Agro Estadão
20/03/2026 - 05:00

A pouco mais de três meses do encerramento do ano-safra 2025/26, entidades do agronegócio já começaram a encaminhar ao governo federal propostas para a formulação do próximo Plano Safra 2026/27. O movimento ocorre ao passo em que discussões das novas condições avançam no Planalto.
Um dos documentos já apresentados é o da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. O grupo reúne mais de 400 representantes do setor privado, instituições financeiras, academia e sociedade civil. As contribuições foram organizadas em notas técnicas elaboradas pela consultoria Agroicone e encaminhadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
O material parte do diagnóstico de que a política agrícola brasileira precisa avançar na integração entre crédito rural, gestão de riscos e incentivos à sustentabilidade, especialmente diante do aumento da exposição do setor a eventos climáticos extremos. O objetivo, segundo o documento, é fortalecer os instrumentos existentes e direcionar recursos para uma agropecuária “mais sustentável, perene e resiliente às mudanças do clima”.
Entre os principais eixos das propostas está a ampliação do crédito para recuperação e conversão de pastagens degradadas, tanto em propriedades de maior porte quanto na agricultura familiar. Outro ponto central é o reforço da gestão de riscos na agropecuária. As entidades propõem maior integração entre crédito e seguro rural, com mecanismos de incentivo à contratação de apólices e ajustes nas taxas de juros conforme o nível de proteção adotado pelo produtor. A proposta inclui, por exemplo, reduzir custos financeiros para quem contratar seguro e elevar encargos para operações sem cobertura, como forma de estimular a mitigação de riscos no setor.
O documento também sugere avanços na chamada Taxonomia Sustentável Brasileira, com o objetivo de alinhar critérios socioambientais ao crédito rural, além de mudanças na alocação de recursos dos fundos constitucionais, priorizando produtores de menor porte e empreendimentos alinhados à agenda de sustentabilidade. Nesse sentido, a proposta dialoga com aprovação da primeira versão do instrumento pelo governo federal, realizada em setembro passado, que estabelece parâmetros técnicos para classificar atividades econômicas de acordo com seus impactos ambientais, climáticos e sociais e orientar a alocação de investimentos no país
Há ainda recomendações para fortalecer instrumentos de política ambiental, como incentivos à implementação do Código Florestal e do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), integrando essas diretrizes às linhas de financiamento agrícola.
Endividamento entra na pauta do Plano Safra 26/27
Na mesma linha de antecipação do debate, a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) encaminhou ao MAPA um documento em que defende a adoção de medidas emergenciais para enfrentar o avanço do endividamento no campo, que, segundo a entidade, já compromete a capacidade produtiva em diversas regiões.
A associação sustenta que os dados mais recentes do Plano Safra 2025/26 revelam uma distorção na oferta de crédito rural. Embora o volume total contratado tenha registrado crescimento nominal, o avanço foi puxado principalmente pela emissão de Cédulas de Produto Rural (CPR), com juros livres, enquanto linhas tradicionais, como custeio e investimento com equalização, apresentaram retração.
Nesse contexto, a Aprosoja propõe a destinação de R$ 20 bilhões para o alongamento de dívidas vencidas e irão vencer, com taxas compatíveis com a atividade agropecuária, além do uso de recursos de fundos constitucionais e do Fundo Social para viabilizar a repactuação de passivos e a concessão de novos financiamentos. A entidade também sugere ajustes na Medida Provisória nº 1.337/2026, de modo a ampliar o alcance das medidas a produtores afetados por decretos de emergência estaduais.
“Precisamos de uma solução estruturada, com renegociação dos passivos dos produtores em todas as linhas do governo federal e das operações de outras instituições financeiras que são destinadas a atividades rurais, com juros equalizados de até 8% ao ano, prazos mais longos e período de carência adequado para que o produtor consiga se reequilibrar”, afirma o diretor administrativo da entidade, Diego Bertuol.
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