Agricultura
Brasileiros testam ‘astroplantas’ em caverna italiana que simula ambiente extraterrestre
Experimento internacional voltado à agricultura começa nesta segunda-feira, 13, visando avaliar papel de fungos no desenvolvimento vegetal
Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP)
12/10/2025 - 08:00

A Rede Space Farming Brazil – que atua no desenvolvimento de estudos científicos e tecnologias voltados à agricultura espacial, reunindo mais de 50 pesquisadores de 22 instituições – foi convidada a integrar uma missão científica que começa nesta segunda-feira, 13, em um cenário pouco comum: uma caverna na Itália com condições semelhantes às de ambientes extraterrestres.
O convite partiu da Space Pioneers Association, entidade sediada em Trento, que promove colaborações em prol da exploração espacial. Nesta edição da Missão Análoga CARE-1&2 CAAM, os pesquisadores brasileiros e parceiros internacionais vão estudar o crescimento de astroplantas sob diferentes condições de cultivo. Essas plantas, criadas especificamente para experimentos espaciais, são pequenas e apresentam florescimento acelerado, o que as torna ideais para testes em ambientes restritos. As sementes serão cultivadas na Grotte di Castellana, onde permanecerão por 14 dias dentro de uma Câmara de Crescimento Compacta (CGB).
De acordo com o professor Paulo Rodrigues, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/Esalq), a câmara pode ser usada tanto para armazenar quanto para transportar e fornecer insumos biológicos em missões espaciais. O equipamento tem estrutura leve, controle preciso de luminosidade e espectros de luz ajustáveis, além de um sistema fotoperiódico que simula ciclos naturais.
As astroplantas utilizadas na missão foram selecionadas pela pesquisadora Alessandra Fávero, coordenadora da Rede Space Farming Brazil. Segundo ela, o porte reduzido e o ciclo de vida de apenas 15 dias permitem observar rapidamente os efeitos de diferentes tratamentos. As sementes, fornecidas pelo Wisconsin Fast Plants Program (Universidade de Wisconsin, EUA), foram enviadas à Itália com apoio do pesquisador Rafael Loureiro, da Winston-Salem State University, também integrante da rede brasileira.
Durante o experimento, as plantas crescerão sob temperatura controlada (22 ± 2°C), umidade de 60% e iluminação contínua. Serão testadas quatro condições distintas: duas com regolito lunar (simulante do solo da Lua) – uma delas com inoculação do fungo Trichoderma – e duas com lã de rocha (rockwool), também com e sem o fungo, sendo transplantadas para o regolito após sete dias de germinação.
A professora Camila Patreze, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), explica que o objetivo é comparar o desempenho das plantas com e sem o fungo. Segundo ela, o Trichoderma é conhecido por estimular o crescimento vegetal e favorecer a absorção de nutrientes. Partindo desse conhecimento, os pesquisadores vão avaliar o transcriptoma das plantas — ou seja, os genes expressos de forma diferente quando o fungo está presente ou ausente. A análise genética será realizada em colaboração com cientistas da Universitá di Napoli Federico II.
Ao término do experimento, em 26 de outubro, as plantas serão observadas quanto à morfologia e fisiologia, incluindo taxa de germinação, altura e número de folhas. Fotos diárias registrarão a evolução de cada amostra. “Os resultados poderão orientar futuras missões espaciais e projetos de agricultura na Lua”, afirma Camila.

Cooperação internacional
A iniciativa se soma a um acordo firmado em setembro entre a Embrapa, que gerencia a Rede Space Farming Brazil junto com a Agência Espacial Brasileira (AEB), e a Space Pioneers Association, que estabelece cooperação científica para o projeto “Scientific Collaboration for Commercial Analog Astronaut Missions”, também desenvolvido na Itália.
A Space Pioneers atua no incentivo a profissionais e estudantes da área espacial, promovendo eventos, capacitações e projetos que integram as áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (STEAM).
Especialistas debatem futuro da agricultura espacial
Entre os dias 14 e 16 de outubro, o Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos (PIT) sediará o 1º Simpósio Internacional em Agricultura Espacial (SIAE). O evento reunirá pesquisadores e especialistas do Brasil e do exterior para discutir avanços científicos e tecnológicos que viabilizem a produção de alimentos fora da Terra. Para mais informações, clique aqui.
A agricultura espacial tem se consolidado como um campo estratégico para o desenvolvimento de novas técnicas e soluções que, além de possibilitarem missões mais longas no espaço, trazem benefícios diretos à agricultura terrestre — especialmente em um contexto de mudanças climáticas e condições ambientais extremas.
Nos últimos meses, diversas missões espaciais vêm sendo conduzidas com a participação brasileira. A própria Rede Space Farming Brazil enviou sementes para o espaço com o objetivo de estudar como esses organismos se comportam em ambientes hostis e sem gravidade. Após o retorno à Terra, os cientistas analisam os efeitos das condições espaciais sobre o desenvolvimento das plantas.
O simpósio tem como propósito reforçar o papel do Brasil na economia espacial e estimular o avanço do conhecimento científico e tecnológico voltado à agricultura além do planeta. A programação contará com painéis, palestras e debates voltados à troca de experiências e à cooperação entre instituições de pesquisa de diferentes países.
De acordo com Alessandra Fávero, o encontro deve servir como ponto de convergência para fortalecer parcerias e impulsionar o futuro da agricultura em ambientes extraterrestres.
Entre os convidados internacionais, estão Ivair Gontijo, brasileiro que atua no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL/NASA); Mark Settles, do NASA AMES Space Biosciences Research Branch; Robert Ferl, da Universidade da Flórida e do UF Astraeus Space Institute; e Stefania de Pascale, da Università di Napoli.
Além das discussões técnicas, o SIAE prevê atividades paralelas, como exibições de cinema ao ar livre com a presença de Jim Green — cientista aposentado da NASA e consultor científico do filme Perdidos em Marte —, além de visitas a instituições do setor aeroespacial brasileiro.
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